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Acertar no totobola à segunda feira

Parece que a principal razão para muitos conservadores não apoiarem McCain é a sua escolha de Palin para VP. E o que é que eles dizem sobre a Governadora 'maverick' do Alasca? Dizem que ela revelou uma total falta de preparação que o cargo exige, que mostrou não dominar as matérias e desafios do nosso tempo, que a sua visão de mundo é simplista e perigosa—ela é, basicamente um enorme fiasco. Por outras palavras, que ser Hockey Mom, defender os Small Town Values, representar a Real America, denunciar os elitistas e exibir o patriotismo acéfalo do Country First, podem excitar muita gente, mas não são certamente 'qualidades' relevantes para um potencial presidente dos EUA, sobretudo tendo em contas o contexto actual. Aquilo que verdadeiramente me preocupa é o facto de esses atributos terem sido alguma vez valorizados. É que Palin não se veio a revelar afinal como apenas isso—ela sempre se definiu (e foi definida) exclusivamente desse modo; essas eram as suas únicas qualidades.


 

A queda de Palin mostra revela a auto-destruição da coligação conservadora e da narrativa de poder que esta procurou construir nos últimos trinta anos. Palin é uma espécie de redução ad absurdum de um movimento que se tornou essencialmente negativo, divisivo, hiper-populista, anti-intelectual, e que elevou as Culture Wars a uma nova luta de classes. A fuga dos intelectuais e de todos aqueles que não se revêem no anti-maniqueismo primário e diabolizador da política do medo, mostra como a criação se pode voltar contra o criador. É que o 'ideas matter', o lema da revolução intelectual conservadora—que inspirou a criação de inumeros think tanks e revistas conservadoras—resultou num ódio a qualquer coisa que aparente envolver ideias e reflexão. A absolutização do valor dos instintos e da impulsividade irresponsável—ilustrados pela utilização de ad nauseum de Maverick como adjectivo qualificativo— é um dos últimos exemplos desta cavalgada anti-intelectual.

 

A  maior tragédia é que grande parte disto foi realizado com a complacência, senão mesmo com a cumplicidade activa, de 'intelectuais e de grande parte do establishment conservador—que foram, justamente, engolidos pela sua própria criação. Achar que Rush Limbaugh e o jornalismo fair and balanced da Fox são aliados políticos, pode ser uma boa táctica de curto prazo, quando o objectivo é apenas ganhar o poder. Mas julgar que podemos controlar e manipular o primarismo que eles representam é, no mínimo, ingénuo e irresponsável. Espero que na terça-feira o povo americano consiga dizer não a tudo isto,  e que essa rejeição sirva de lição a um partido que pensou que podia brincar com o fogo e sair ileso.

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