Mais ideologias de género ou feminismos «radicais»
Roma Locuta Est, causa finita est (Roma falou, a causa acabou). Imagem encontrada aqui.
Numa providencial visita às Filipinas, onde o Senado discute uma Magna Carta para as mulheres - que transpõe para a legislação local a convenção da ONU que pretende eliminar todas as formas de discriminação das mulheres, CEDAW - o cardeal Paul Josef Cordes acusou o «feminismo radical» de causar uma série de coisas «terríveis» que assolam o mundo contemporâneo.
Para o presidente do Pontifício Conselho Cor Unum, a «erosão da masculinidade» e consequente «crise de paternidade» são consequência desta ideologia de género que não reconhece a dominância do homem sobre a mulher, dominância esta que é divinamente ordenada, como explicou Ratzinger na sua «Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre a Colaboração do Homem e da Mulher na Igreja e no Mundo» - carta que deplora a «antropologia, que entendia favorecer perspectivas igualitárias para a mulher» e contrapõe a «antropologia bíblica» como a única aceitável. Cordes condenou ainda a legislação que, segundo ele, pretende «diminuir a masculinidade» e torna os homens «mais doces».
A visita de Cordes deu alento aos que nas Filipinas se opõem a esta lei blasfema, que pretende reconhecer direitos às mulheres, e à primeira lei filipina sobre saúde reprodutiva. Assim, os senadores filipinos são avisados que se votarem favoravelmente a lei terão «o opróbrio dos bispos católicos» e os lobbys católicos trabalham arduamente para eliminar da legislação filipina quaisquer referências a género, direitos humanos e, em particular, a direitos reprodutivos. De acordo com estes grupos,
«The above language [reconhecer os execrados direitos de «género»] is bad. CEDAW opens the door for several policies that can violate constitutional rights such as marriage, life, the right of parents to educate their children, etc. Additionally, it extends to other international instruments, which includes CEDAW's protocol and other later conventions such the one (sic) on the elderly (includes euthanasia), children, etc. which could allow the authors to claim that the right to life is not a universally recognized international human right.»
Estas declarações são absolutamente falsas, por exemplo não existe nenhuma convenção internacional sobre eutanásia - basta ver as ululações vaticânicas em relação a Eluana Englaro - mas parece provável que inibam a aprovação da lei em vésperas de eleições num país em que o poder da Igreja Católica se mantém inalterado, fazendo das Filipinas um reduto da teocracia católica*.
De facto, como há dias nos informava Barnaby Lo:
Bishops and priests are denouncing the bill in sermons. The church has been putting up posters and taking out full-page newspaper ads. Prayer rallies are being held. Although it does not openly fund political campaigns, the church has 500,000 names so far for a petition against the bill. One bishop threatened to deny communion to lawmakers who support it.
With the national election approaching, church leaders have been talking privately with congressmen, said the Rev. Melvin Castro, executive secretary of the Episcopal Commission on Family and Life of the Catholic Bishops' Conference of the Philippines. "We don't want to exert too much effort on them as if we're blackmailing them. But we have to convince them that this is not the proper course."
*Construída em finais do século XVI pelos espanhóis, a Igreja de Quiapo é um dos símbolos mais proeminentes do poder da Igreja. Situada no centro de Manila, todos os dias se podem encontrar centenas de filipinos que rezam a uma suposta milagrosa imagem de Jesus carregando a cruz, provavelmente pedindo um milagre que os tire da miséria que caracteriza a vida da esmagadora maioria dos habitantes do país, um dos mais corruptos e com uma das maiores taxas de natalidade do mundo. Um milagre que nunca acontecerá e os pobres, com proles numerosas que simplesmente não conseguem sustentar, continuarão miseráveis e ignorantes, dependentes da «boa-vontade» e «boas acções» que a Igreja, com dinheiro alheio, magnanimamente distribui, sem qualquer hipótese de sequer aprenderem a controlar a sua fertilidade.
E a «santa» Igreja, que actua activamente na política do país, influenciando e determinando não só resultados eleitorais mas destituições de presidentes que não se ajoelharam convenientemente face à Igreja, que reitera negar comunhão e, dados os antecedentes, fará certamente campanha contra qualquer político, «aliado de Satanás», que tente promover políticas de controle de natalidade.
Mas centenas de mulheres filipinas dirigem-se à Igreja de Quiapo em busca de outro tipo de milagre, um milagre muito mais prosaico e muito mais eficiente a resolver os problemas causados pela miséria que assolam a população: uma forma de terminar uma gravidez indesejada.
Os principais pontos de venda de produtos abortivos nas Filipinas situam-se nas imediações de igrejas e a de Quiapo não é excepção. Os locais habituais de venda destes produtos situam-se a poucos metros do Monumento às crianças não nascidas, uma representação de um feto fora do útero, querubins, as mãos estigmatizadas do mítico fundador do cristianismo e uma mãe a chorar. Estátua inaugurada em 1979, ano dedicado às crianças não nascidas pela delegação local da ICAR e ano em que o Cardeal apropriadamente chamado Sin (pecado) considerou os famigerados contraceptivos os principais culpados (?!) da elevada taxa de aborto que já nessa altura se sentia no país e que, de acordo com o piedoso prelado, introduziram uma cultura de morte nas Filipinas.
«Poder-se-ia dizer que nós fornecemos milagres instântaneos às mulheres» afirmou uma das muitas vendedoras que desde há anos vendem ervas e determinados produtos abortivos em Quiapo. Assim, e ironicamente, a Igreja de Quiapo tornou-se sinónimo de aborto, um anátema punido automaticamente com excomunhão, como lembrou o porta voz da Igreja Católica local, Pedro Quitorio, em relação à famigerada pílula RU 486.
No entanto as ameaças de condenação eterna não parecem demover as mulheres filipinas, sem acesso a contraceptivos, cuja distribuição pública e gratuita foi proibida pelos bons ofícios da Igreja, e com mais filhos que os que podem alimentar. Assim, cada vez mais filipinas recorrem ao aborto clandestino. E cada vez mais mulheres morrem devido às sub-humanas condições em que estes abortos são realizados. Em 2002 estimava-se em 400 000 o número de mulheres que recorreram a abortos de vão de escada e cerca de 100 000 necessitaram ser hospitalizadas na sequência de um aborto. As complicações causadas por abortos deficientemente realizados são a 4ª causa de morte das mulheres filipinas!
Apesar do auxílio precioso de organizações internacionais, muitas mulheres não conseguem ajuda num pós-aborto problemático já que os mui católicos médicos filipinos se recusam a tratar estas pecadoras mulheres, muitas esvaindo-se em sangue. Alguns, mais «caridosos», efectuam a sangue-frio os dolorosos procedimentos necessários, dilatação e curetagem, um «apropriado» e cristão castigo do abominável pecado que cometeram.
Infelizmente, como se lamentava em 2005 o Dr. Diego Danila que supervisionava este flagelo do aborto clandestino e as mortes maternais para o Departamento de Saúde filipino, todas as propostas de introdução de políticas de planeamento familiar têm sido vigorosamente boicotadas pela poderosa Igreja Católica, que emitiu recentemente um comunicado informando que o Vaticano não permite que duas pessoas casadas com VIH/SIDA usem preservativos e que, via um grupo católico oximoronicamente chamado pró-vida, propôs uma lei que pretendia proibir a venda da pílula e de dispositivos intra-uterinos nas Filipinas.

