Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

Naturalidade segundo a Igreja Católica e o preservativo

Na caixa de comentários d' O Estado dentro de um Estado um dos nossos leitores afirma que a alimentação e hidratação através de sondas não é um tratamento médico destinado a manter artificialmente (ou seja, de forma não natural) a vida de alguém, neste caso de Eluana Englaro. 

 

Na realidade, até há bem pouco tempo, mais concretamente até Abril de 2004, ninguém tinha dúvidas de que se tratava de uma forma artificial de manter a vida de alguém «alimentar» esse alguém com uma solução de nutrientes via uma  sonda naso-gástrica ou naso-enteral - ou directamente no estômago/intestino delgado através de uma pequena incisão na parede abdominal. Aliás, a própria Igreja Católica, que tanto recorre ao argumento «naturalista», o reconhecia. Mas em Abril de 2004, cerca de um ano antes de ele próprio ter passado a ser alimentado por sondas, João Paulo II declarou que a alimentação artifical era um «imperativo moral», algo que baralhou completamente teólogos e bioéticos mas foi o argumento de «peso» utilizado pelos advogados dos pais de Terry Schiavo contra a decisão judicial que permitia a remoção das sondas.

 

Estas declarações (prescientes, já que na altura o Papa sabia padecer de Parkinson) de JPII baralharam completamente os teólogos católicos já que minavam muitos dos «argumentos» morais da Igreja para execrar inúmeras práticas consideradas não «naturais». De facto, porque razão deve ser um imperativo moral alimentar alguém por uma sonda de um polímero, algo completamente não natural, e, por exemplo, dizer que «representa uma grave infração dessa mesma lei natural» a utilização de um polímero análogo na protecção da vida dos parceiros de alguém contaminado com o HIV?

 

Fico sempre baralhada com o que é ou não «natural» para a Igreja Católica que me parece esgrimir um contra natura  quando dá jeito e sem sustentação que não as conveniências vaticânicas.  Em particular, não percebo como se pode considerar «natural» uma sonda nasogástrica, possível apenas com os extraordinários progressos técnicos que a ciência permitiu no século XX,   ao mesmo tempo que se carpe a «anti-naturalidade» do preservativo ou da contracepção «artificial», presentes no quotidiano do Homem desde tempos imemoriais.


De facto, o preservativo está presente na vida do homem há milénios, datando de há cerca de 5000 anos os primeiros registos de artefactos muito semelhantes aos preservativos actuais, cuja representação pode ser encontrada em alguns túmulos de Karnak.

 

Embora se pense que estes preservativos milenares se destinassem a proteger a genitália masculina de acidentes, maus olhados e superstições afins, os antigos egípcios estavam muito interessados na contracepção. O papiro ginecológico de Kahun, escrito há quase 4 000 anos, descreve a primeira poção contraceptiva de que há registo histórico. A receita deste espermicida - cujo efeito, tal como os actuais, assentava no elevado pH da mistura - recomendava: «A mulher misturará mel com cinza da barrilheira e excremento de crocodilo, a que juntará substâncias resinosas, aplicando um dose do produto na entrada da vagina, penetrando um pouco nela».

 

Foram os chineses os primeiros a usar o preservativo como forma de contracepção, quer destinado a utilização masculina na forma de envoltórios de papel de seda untados com óleo, quer feminina, um diafragma primitivo feito de cascas de citrinos.

 

De igual forma, tudo indica que os gregos não eram ignorantes em matéria de contraceptivos, existindo indicações de que por volta de 1 600 a.C., durante o reinado de Minos de Knossos, em Creta, se utilizavam para esse fim bexigas natatórias de peixes. Foi aliás a mitologia grega que apresentou o preservativo ao Ocidente. O rei Minos, supostamente filho de Zeus e Europa, era casado com Pasiphë. O monarca não era exactamente conhecido por ser um adepto da fidelidade conjugal, e Pasiphë amaldiçoou a «semente» de Minos, que passou a ejacular serpentes, escorpiões e lacraus. Todas as mulheres com que o monarca se relacionasse mais intimimamente morriam - com excepção de Pasiphë, imune ao seu próprio feitiço. Minos entretanto apaixonou-se por Procris e esta, para evitar que a consumação da paixão fosse fatal, inventou o primeiro preservativo feminino: uma bexiga de cabra.

 

Há cerca de 2100 anos, quando os gregos colonizaram Celene no que hoje é a Líbia, descobriram uma planta selvagem a que chamaram silphion, que forneceu o primeiro contraceptivo oral de que há registo. Apesar de todas as tentativas envidadas pela civilização helénica em cultivar a planta, os seus esforços foram infrutíferos e a valiosa e mui procurada planta extinguiu-se após 700 anos de colheitas intensivas.

 

A identidade desta planta preciosa foi alvo de especulações por muitos naturalistas do passado, como podemos apreciar no sétimo colóquio de Garcia d'Orta, que trata da assa fétida ou Esterco-do-Diabo, e nas anotações do conde de Ficalho ao «Tratado dos Simples»:


Passaremos tambem de leve sobre a interminavel questão da identidade ou não identidade da asa-fætida com o laserpitium, recordando apenas o sufficiente para elucidar o que diz o nosso escriptor. O celebre silphion dos gregos, o laserpitium dos latinos, era uma planta africana, que habitava particularmente na peninsula Cyrenaica.

Julgaram alguns tel-a encontrado ali modernamente; mas pesquizas cuidadosamente feitas, sobretudo pelo sr. Julio Daveau, demonstraram, que o supposto silphion era simplesmente a vulgar Thapsia garganica, Linn., uma planta medicinal, mas de qualidades diversas da antiga, a qual se deve julgar extincta.

Como este silphion ou laserpitium africano fosse raro ja nos tempos de Plinio e de Dioscorides, empregava-se em seu logar uma droga de inferior qualidade, a qual se dava o mesmo nome, e que vinha do Oriente, da Syria, da Persia e da Média. Sera difficil decidir com segurança se aquelle laserpitium asiatico era a asa-fætida; mas esta opinião não parece inacceitavel, antes muito plausivel.

4 comentários

  • Imagem de perfil

    Palmira F. Silva 08.02.2009

    Caro aff:

    Alguma vez leu algo da ICAR sobre o tema? A ICAR condena veementemente toda a contracepção «artificial». Veja por exemplo o que aconteceu muito recentemente:

    A Rádio Vaticano pensou melhor e cancelou o convite que tinha feito a Daniel Vasella, presidente executivo da Novartis para ser comentador na estação. A emissora disse que o facto da farmacêutica suíça produzir contraceptivos influenciou a decisão, noticiou o site informativo “swissinfo”.

    “Não pode haver a mínima dúvida sobre a posição do Vaticano no que diz respeito à contracepção artificial”, lê-se num comunicado no site da emissora.
  • Sem imagem de perfil

    aff 08.02.2009

    E o que isso tem a ver com aquilo que eu disse?
  • Imagem de perfil

    Palmira F. Silva 08.02.2009

    Leia, por exemplo, a HUMANAE VITAE de Paulo VI e os seus argumentos «naturais» e de lei «natural» para condenar a contracepção «artificial.
  • Comentar:

    Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

    Este blog tem comentários moderados.

    Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

    Arquivo

    Isabel Moreira

    Ana Vidigal
    Irene Pimentel
    Miguel Vale de Almeida

    Rogério da Costa Pereira

    Rui Herbon


    Subscrever por e-mail

    A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

    Comentários recentes

    • Fazem me rir

      So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

    • Anónimo

      Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

    • Anónimo

      Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

    • Anónimo

      "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

    • Anónimo

      apos moderaçao do meu comentario reitero

    Arquivo

    1. 2019
    2. J
    3. F
    4. M
    5. A
    6. M
    7. J
    8. J
    9. A
    10. S
    11. O
    12. N
    13. D
    14. 2018
    15. J
    16. F
    17. M
    18. A
    19. M
    20. J
    21. J
    22. A
    23. S
    24. O
    25. N
    26. D
    27. 2017
    28. J
    29. F
    30. M
    31. A
    32. M
    33. J
    34. J
    35. A
    36. S
    37. O
    38. N
    39. D
    40. 2016
    41. J
    42. F
    43. M
    44. A
    45. M
    46. J
    47. J
    48. A
    49. S
    50. O
    51. N
    52. D
    53. 2015
    54. J
    55. F
    56. M
    57. A
    58. M
    59. J
    60. J
    61. A
    62. S
    63. O
    64. N
    65. D
    66. 2014
    67. J
    68. F
    69. M
    70. A
    71. M
    72. J
    73. J
    74. A
    75. S
    76. O
    77. N
    78. D
    79. 2013
    80. J
    81. F
    82. M
    83. A
    84. M
    85. J
    86. J
    87. A
    88. S
    89. O
    90. N
    91. D
    92. 2012
    93. J
    94. F
    95. M
    96. A
    97. M
    98. J
    99. J
    100. A
    101. S
    102. O
    103. N
    104. D
    105. 2011
    106. J
    107. F
    108. M
    109. A
    110. M
    111. J
    112. J
    113. A
    114. S
    115. O
    116. N
    117. D
    118. 2010
    119. J
    120. F
    121. M
    122. A
    123. M
    124. J
    125. J
    126. A
    127. S
    128. O
    129. N
    130. D
    131. 2009
    132. J
    133. F
    134. M
    135. A
    136. M
    137. J
    138. J
    139. A
    140. S
    141. O
    142. N
    143. D
    144. 2008
    145. J
    146. F
    147. M
    148. A
    149. M
    150. J
    151. J
    152. A
    153. S
    154. O
    155. N
    156. D
    157. 2007
    158. J
    159. F
    160. M
    161. A
    162. M
    163. J
    164. J
    165. A
    166. S
    167. O
    168. N
    169. D

    Links

    blogs

    media