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Naturalidade segundo a Igreja Católica e o preservativo - II

Durante o apogeu da cristandade, não havia qualquer problema moral ou argumentos anti natura em relação ao uso de métodos contraceptivos, inclusive o actualmente tão execrado preservativo. Assim, a Europa medieval estava inundada de tratados médicos recomendando métodos para evitar a concepção. O principal método contraceptivo era o uso de envoltórios de linho, isto é preservativos, embebidos ou não em ervas medicinais para aumentar a eficácia. Abundavam ainda uma série de mezinhas assentes na cultura supersticiosa da época: poções contraceptivas feitas de urina de cordeiro, pó de testículos de touro torrados e muitas outras receitas cuja utilidade me parece meramente emética.

Diz a lenda que o famoso ovo foi um argumento usado por Colombo para convencer os Reis Católicos a partir para Ocidente à procura da Índia que nunca chegaria a encontrar. Quaisquer que tenham sido os argumentos ou motivações, é certo que em 1492 Colombo se lança aos mares com três pequenas embarcações, a nau Santa Maria e as caravelas Niña e Pinta, e descobre acidentalmente as ilhas das Antilhas, nomeadamente a  La Española ou Hispaniola (hoje Haiti e República Dominicana). O estabelecimento de uma colónia/forte na nova possessão, Navidad, permitiria a Fernando e Isabel ocuparem-se de uma das suas tarefas favoritas: a disseminação da religião católica. Os nativos retribuiram disseminando entre os colonizadores uma doença que tudo indica ser desconhecida na Europa à época: a sífilis.
 

A doença alastrou rapidamente quando, uns anos depois, o rei Católico enviou mercenários espanhóis, que partilhavam as escolhas de bordéis e tabernas com os marinheiros entretanto regressados (e contaminados), para ajudar os napolitanos da defesa do reino que Carlos VIII de França reinvidicava ser seu por direito hereditário, através da avó Maria d'Anjou.

Em 22 de Fevereiro de 1495, Nápoles rendeu-se e os soldados franceses festejaram a vitória da forma prevísivel. Na retirada para defender o vulnerável território francês das investidas dos outros monarcas europeus, o exêrcito francês espalhou no seu percurso o que relatos da época descreviam como uma «sarna» horrível que cobria o corpo e o rosto, assim como pústulas espessas que rebentavam com um cheiro pestilento. Os franceses chamaram à nova doença o «mal napolitano», enquanto os italianos lhe chamavam morbus gallicus. Foi Girolamo Fracastoro quem deu o nome que persistiria, ao publicar em 1530 o poema «Syphilis, sive morbus gallicus».

O carácter epidémico da sífilis foi muito rapidamente reconhecido, embora as causas do contágio demorassem algum tempo a ser entendidas. Mas quando o foram, implicaram profundas revoluções sociais - nomeadamente no que respeita à ingerência religiosa em matéria de sexualidade, que com o Renascimento entrara em queda acelerada. O homem medieval começou a tentar reduzir os perigos de contaminação pelas doenças venéreas (cuja relação com sexo mereceu o nome inspirado nas práticas sagradas das sacerdotisas dos templos de Vénus).

A «bainha de tecido leve, sob medida, para protecção das doenças venéreas», inventada pelo anatomista e cirurgião italiano Gabrielle Fallopio foi providencial na tentativa de contenção dos estragos. Fallopio, nascido em 1523 em Modena de uma família nobre mas sem dinheiro, vira-se na contingência de ingressar no clero para poder prosseguir os seus estudos, de forma que não deixa de ser irónico que o inventor do preservativo moderno tenha sido um membro do clero católico!

Fallopio realizou o que podemos considerar o primeiro teste clínico de preservativos, em que 1100 homens usaram o seu dispositivo e se verificou que nenhum contraiu sífilis. O padre escreveu assim um tratado sobre a sífilis em que o tratamento recomendado era o uso do que Shakespeare chamou «luva de Vénus».

Entre 1713 e 1715 a cidade de Utrecht foi sede da conferência internacional que conduziu à assinatura do tratado que pôs termo à guerra da sucessão espanhola, sendo simultaneamente sede da difusão do preservativo. Na realidade, reuniram-se nesta cidade as personalidades europeias da época, o que atraiu à cidade uma fauna menos nobre e diplomata que proporcionou, para além de formas de distracção das intensas conversações de paz, a disseminação na nata europeia das temíveis e incuráveis à época doenças venéreas, especialmente a sífilis.

Um artesão criativo resolveu airosamente este efeito colateral das conversações, inventando preservativos habilmente costurados a partir do ceco (parte do intestino) de carneiros, parte anatómica dos ditos que já fornecia películas finas e transparentes utilizadas na cicatrização de ferimentos e queimaduras.

A industrialização do preservativo estava garantida depois deste sucesso. Assim, uns anos depois, em 1780, podia ler-se nos anúncios publicitários de uma das mais famosas casas de prostituição de Paris: «Nesta casa fabricam-se preservativos de alta segurança. Distribuição discreta para França e outros países». O termo preservativo foi introduzido neste anúncio, que foi posteriormente modificado e preservativo substituido por redingote anglaise, ou seja, «sobretudo - ou sobrecasaca - inglês».

O termo com que os preservativos são designados nos países anglo-saxónicos, condom, tem a sua etimologia associada a Xavier Swediaur, um profissional bastante prestigiado, especialista em doenças venéreas, que defendeu no século XIX ter sido o preservativo inventado por um médico inglês do século XVII, um tal Dr. Condom que se sabe hoje nunca ter existido.

Foi preciso esperar por 1870, umas décadas após a descoberta da vulcanização da borracha natural por Charles Goodyear, para serem disponibilizados os primeiros preservativos de borracha, espessos e reutilizáveis - desde que lavados, secos e polvilhados com talco após a utilização.

Os preservativos de látex, finos e com reservatório, muito semelhantes aos actuais, foram comercializados pela primeira vez nos Estados Unidos em 1901, sendo a sua utilização popularizada a partir da década de 30 do século passado. Na década de 60, Carl Djerassi inventa a pílula contraceptiva e esta progressivamente relega o preservativo para um plano muito secundário. A cura das doenças venéreas para que foi inventado e reinventado era possível desde 1941 com a descoberta da penincilina por Fleming.

Infelizmente para a humanidade, a SIDA impediu que o preservativo engrossasse a lista de artefactos históricos caídos em desuso. E, tal como cinco séculos antes acontecera com a sífilis, a associação de sexo e doença foi uma arma aproveitada por representantes de religiões sortidas, que tentam recuperar o poder perdido manipulando os terrores ancestrais de muitos com alusões a castigos divinos. Mas a SIDA não tem nada de divino e só uma mundivisão completamente antropocêntrica a classificaria como castigo: o HIV é simplesmente um resultado da «corrida às armas da adaptabilidade genética» entre hospedeiros e parasitas, que ocorre desde que a vida surgiu na Terra.

 

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