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Presunção e água benta

Vai um alvoroço pelas caixas de comentários do «visto do deuteronómio» com alguns crentes com mais propensão para a cristianovitimização a acusarem-nos explicitamente, a mim e à f., de acirrar o ódio contra o catolicismo. Por exemplo, um tal Cam escreve pérolas como «Fosse outro o dominante cultural e com textos como estes tinhamos ataques de desiquilibrados (sic) a crentes inocentes».

Não sei onde o Cam se inspira para tais efabulações mas acho sempre espantoso o autismo subjacente a este tipo de acusações assim como acho espantoso que quem as debita não se aperceba de que com elas confirma as críticas que lhes fazemos. Isto é, parece ser frequente nos crentes o sentimento de Don Horrocks da Aliança Evangélica, que carpiu há dois anos «Os homossexuais têm direitos, mas as pessoas religiosas também os têm e potencialmente são incompatíveis». Ou seja, parece ser prevalecente a ideia de que os «direitos» cristãos se devem sobrepor aos direitos dos restantes e que não aceitar isso é  perseguição, é «interferir com a liberdade de alguém manifestar a sua religião» já que os devotos «não podem nem devem ser obrigadas legalmente a respeitar indíviduos ou organizações cujas crenças ou estilos de vida são anátema para os cristãos».  Resumindo, acho espantoso que para tantos devotos seja um direito inalienável desrespeitar os indíviduos que não seguem as crenças cristãs e que simultaneamente considerem ser  acirrar o ódio contra o cristianismo criticar essas crenças.

Este vídeo, que ilustra o acontecimento «cultural» que anima neste momento as eleições norte-americanas, ilustra também o que quero dizer. Na CNN, Bill Bennett afirma «god knows why people have fundraisers with people like this (ignóbeis ateus)» explicando que  «yes, it is a problem, because it's just like the association game (with terrorists!) that has tagged Barack Obama», isto é, basicamente para este devoto cristão ateus e terroristas são a mesma coisa e a mera associação com ateus é algo intrisecamente condenável.

Embora Bento XVI tenha sido mais comedido e apenas tenha comparado a terroristas os «abortistas» e os cientistas que não seguem as patetas concepções de ciência da ICAR (embora depois tenha «moderado» o tom em relação a estes últimos e mudado o epíteto para esquizofrénicos), numa das suas primeiras alocuções públicas igualou o ateísmo ao nazismo. Ou antes, recorrendo à sua experiência com o nazismo (de que ninguém duvida) Bento XVI comparou este com a «democracia liberal» (que suspeito ser algo de que sabe pouco) afirmando que à falta de crença religiosa se segue inevitavelmente o fascismo.

Curiosamente, não me lembro de algum regime fascista que não tenha sido entusiaticamente apoiado pelo Vaticano. Na realidade, os únicos casos que me lembro em que a uma democracia liberal se seguiu um regime fascista ocorreram depois dos responsáveis eclesiásticos apelarem a golpes de estado contra as tão execradas «democracias liberais».  Mas enfim, estas são lucubrações divergentes do assunto em causa, isto é, as cristianovitimizações «tiro no pé» de quem carpe que criticar a religião é acirrar ódio contra a religião mas simultaneamente considera um «direito inalienável» do cristianismo instigar ódio sobre ateus em particular e sobre quem não aceita ser regido pelos ditames da sua religião em geral. 

De facto,  Bento XVI, tem-se desdobrado em acusações de que  a origem dos males europeus reside no modernismo, nas suas heresias laicas, na primazia da razão e da ciência sobre a fé, em suma, no «drama do humanismo ateísta», termo cunhado pelo jesuita Henri de Lubac no livro homónimo. E, tal como Lubac, carpe repetidamente a rejeição de Deus em nome da liberdade humana e o facto de os dirigentes europeus não acatarem ovinamente as  «receitas» que prescreve e que passam pela recuperação da cristandade medieval. Assim, encoraja uma prática católica tridentina, virada para um passado obscurantista e totalitário, exponenciando, com as suas exortações constantes aos fiéis de que é seu dever impor a toda a sociedade as «leis divinas», os preconceitos anti-laicidade e anti-democráticos dos católicos mais fanáticos (para não falar nos preconceitos anti-ateístas).

Como afirmei há uns dias, considero que não tenho rigorosamente nada a ver com as bananas das religiões quando estas se destinam a ser consumidas exclusivamente pelos respectivos crentes (desde que em respeito das normas que deveriam reger os estados de direito). Mas não me coibo de as criticar quando as querem impor a todos  usando pressão política para consagrar essas crenças na letra da lei. E não serão certamente acusações de que expor a minha opinião pessoal é um ataque vicioso contra a fé que me inibirão, bem pelo contrário!

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