O Ocaso de Eluana Englaro
A morte de Eluana Englaro foi anunciada há poucas horas pelos médicos da clínica de Udine onde se encontrava. No Senado italiano, que discutia no momento do anúncio um projecto de lei que pretendia impedir a ordem do tribunal que autorizava a cessação da manutenção artificial da sua vida, ao minuto de silêncio seguiu-se uma troca de acusações estridentes entre os membros dos vários partidos, cada um acusando os restantes de tentativa de capitalização política do caso.
Curiosamente, quase ao mesmo tempo que li a notícia do passamento de Eluana, li um artigo na revista Time que recomendo. O «When Parents Call God Instead of the Doctor» conta algo que parece não preocupar as hordas de fanáticos que acamparam à porta da clínica «La Quiete» ou que inundaram jornais e caixas de comentários com ululações sortidas. De facto, como já referi, nunca vi aqueles que chamam assassínio à cessação de cuidados médicos a Eluana, mergulhada num estado vegetativo irreversível, indignarem-se com, por exemplo, a pequena Kara Neumann, que morreu de uma crise de diabetes aos 11 anos porque, por razões de «fé», os pais se recusaram a chamar um médico para tratar este mal tão simples de curar. Quando os pais foram levados a tribunal, por negligência, ergueram-se coros de protestos devido ao que chamaram perseguição pelo «crime de rezar».
O artigo da Time termina com o testemunho de Richard Sloan, «Too often, deference to religion in contemporary American society has resulted in us subordinating all other values. The law must recognize that the right of children to live supersedes the rights of their parents to free expression of religion.»
No caso de Eluana, a deferência em relação à religião não conseguiu atropelar todos os valores da sua família. Mas por quanto tempo veremos, em tanto lugar do Mundo, a dignidade de tantos, os direitos e os valores de tantos mais, completamente atropelados pelos preconceitos, pela intolerância e pelos anacronismos de religiões sortidas?

