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A pólvora brasileira

Li no Carreira da Índia (que remete para uma notícia do Público) uma informação verdadeiramente bombástica: um historiador brasileiro nega a existência da Escola de Sagres. Nunca se tinha ouvido ou lido tal coisa.  Os meus parabéns ao jornal por ter noticiado essa tese verdadeiramente revolucionária, inovadora e que nunca nenhum português, sequer, vislumbrou. Confesso que fiquei atordoado. Logo eu, a quem um senhor de sotaque estranho e voz rouca me vendeu há uns anos, e a excelente preço, uma bela relíquia, um pedaço de uma mesa da célebre Escola, onde uma notável plêiade de sábios europeus ensinava aos rudes marinheiros as artes de navegar no Atlântico. É verdade que cheguei a desconfiar, nessa altura, e a perguntar porque é que as carteiras da Escola usavam contraplacado, mas o senhor convenceu-me, dizendo que fora mais uma inovação vinda da Europa trazida pelos cosmógrafos, cartógrafos e outros ógrafos europeus, e rematou afirmando tratar-se de uma pechincha única, de pegar ou largar. Cá o eu, como diz aquela cadeia de lojas, "É Que Não Sou Parvo!", não quis perder a ocasião. Não houve grande problema, foi só uma semana de férias a menos para pagar a jóia. Mas, até ontem, sempre julguei que tinha valido a pena.

Em boa verdade, algumas dúvidas assaltaram-me ocasionalmente o espírito. Uma vez perguntei a mim próprio como era possível ensinar as artes da navegação numa escola num local daqueles, num promontório. "Porque não na Boca do Inferno?", interroguei-me então, com a penumbra do cepticismo a invadir-me o espírito. Depois concluí que era mesmo o local mais indicado, porque marujo que conseguisse aprender a navegar ali numa casca de noz estaria pronto a enfrentar qualquer Adamastor que lhe surgisse pela frente. E pensei ainda porque carga de água é que era preciso mandar vir sábios da Europa para ensinar os marinheiros a navegar. Certamente que em Aragão, na Flandres e em Itália conheceriam melhor o Atlântico profundo do que os algarvios, só podia. Estes deveriam andar à amêijoa e à conquilha, pouco mais. Felizmente que já nessa altura era a Europa que nos valia. E, por fim, ainda cheguei a pensar, erroneamente, que o conhecimento escolar, universitário, erudito, livresco e teórico desses sábios seria completamente inútil nos novos horizontes, uma vez que os regimes de ventos e correntes marítimas do Atlântico desconhecido tornariam obsoleto e inútil qualquer conhecimento prévio de navegação mediterrânica.

Ora bolas, duvidar da Europa? Ná. Rapidamente afastei estas sombras malignas. E, com elas, a insidiosa literatura de pseudo-historiadores (como Luís de Albuquerque, esse comunista que nem contas de somar sabia fazer). Afinal, são coisas que toda a gente conhece. Negar a existência da Escola é o mesmo que negar o sabor da sandes de courato ou o aroma do atum de barrica. E, mesmo supondo hipoteticamente que houvesse alguma dúvida, o exemplo de Sagres e de D. Henrique, o Navegador,  é uma inspiração indispensável para muitos. Se até o Instituto dirigido pelo Prof. João Carlos Espada toma, em 2009, a Escola como inspiração e pretende "renovar o fantástico exemplo cosmopolita da Escola de Sagres, com a qual o Infante D. Henrique colocou Portugal no caminho dos Descobrimentos", materializando-se "no intenso programa de professores estrangeiros visitantes", quem sou eu para me atrever a abalar assim tão sólido pilar da identidade portuguesa?

Li a notícia (os meus parabéns, uma vez mais, ao Público) e deprimi, mas depois recuperei. Agora vem um brasileiro, de nome Fábio  Pestana Ramos, dizer que não, que é tudo mentira. E que não há nada, nada, rien de rien, nicles, népias de Escola de Sagres? Só um "pirata inglês" que escreveu não sei o quê, diz ele. Pois, tinha que ser um inglês. Presumo que se trate de Samuel Purchas, que no século XVII compilou quatro volumes de informação sobre as viagens marítimas europeias, prosseguindo o trabalho de Richard Hakluyt. É verdade que Purchas contou muita treta. Mas também muita verdade. Porque é que a Escola haveria de ser uma e não outra, hein? Afinal somos ou não da Europa? Cremos nos europeus ou nos brasileiros? E se aceitarmos isto, que se seguirá? Que mais irão eles inventar? Que o Infante D. Henrique não usava aquele chapeirão preto? Que Colombo não era português de Cuba? Que Cristóvão de Mendonça não descobriu à Austrália? Que Miguel Corte Real não chegou à América e não deixou uma mensagem na Pedra de Dighton? Onde iremos parar?

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