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jugular

da lealdade

Falta-me a expressão em português. Faltam-me as palavras para isto, o estremecimento no título da série produzida por Spielberg sobre um esquadrão de soldados americanos na Segunda Guerra: band of brothers. À letra é, claro, “bando de irmãos”, mas não transporta o grito de Henrique V na peça de Shakespeare, quando incita as parcas tropas à batalha no dia de São Crispim e garante: “hoje, aquele que verter o seu sangue por mim será meu irmão – nós, estes poucos, nós, punhado de sortudos, nós, bando de irmãos”. Não, nem sequer tenho uma expressão para essa outra que é nome de filme e de canção: stand by me. A tradução oficial diz: “fica comigo”. Mas não é bem isso, ou melhor, não é apenas isso, é algo como “acompanha-me, sustenta-me, segura-me, defende-me, atravessa-te, morre por mim”. Uma ideia sacrificial nestas palavras, a vibração pungente da entrega, qualquer coisa de visceral, quente, sublime.

É da natureza dos homens falhar, faltar, trair.


É da natureza dos homens – e de todos os vivos – buscar a própria salvação, procurar a segurança do esconderijo, do maior número, dos fortes. A segurança do silêncio, da distracção, do “não reparei”, do “mas precisavas que te tivesse ajudado?”, “era importante para ti ter estado do teu lado?”. É da natureza fugir ao confronto que não nos confronta directamente, escapar entre os pingos da chuva, encontrar desculpas, olhar para outro lado. É pois o mais comum – nenhuma surpresa que tantas vezes suceda, que tantas vezes se deixem cair os próximos, que tantas vezes nos descubramos sós, sem o conforto dessa dádiva que multiplica forças e vence guerras, outras costas contra as nossas no cerco da refrega, no cruzar das espadas, esse gesto que diz: estou por ti, sou por ti.

Diz o dicionário de leal: “sincero, franco, honesto, fiel, dedicado”, “o que cumpre as suas promessas”. Foi o nome de uma moeda em Portugal – um belo e paradoxal nome para o dinheiro, de resto, certificando que vale o que diz valer, que pode ser digno de confiança. Mas leal é também “conforme à lei”. Uma definição curiosa. Que lei é esta? Porque há-de alguém estar por quem enfrenta a derrota, a desgraça, o opróbrio, a morte? Por que há-de alguém sofrer por quem não se sabe se sofreria por nós? Por que desembainhar a espada numa guerra que talvez não seja nossa e que com um pouco de sorte pode nunca vir a tocar-nos à porta? Por amizade? Por solidariedade? Por imperativo moral e ético? Por que está certo? Por que é injusto não o fazer? O que é tudo isso perante o perigo de perder, de arranjar sarilhos, de ser apontado, castigado, perseguido, preso, morto? E, no entanto, há quem o faça. Houve quem o fizesse, sempre. A história está cheia de gente que escolheu o lado mais árduo e perigoso, que defendeu aquilo e aqueles em que acreditava, mesmo perante a mais terrível das ameaças. Gente que não traiu nem desdisse nem abandonou, gente que não se calou nem olhou para outro lado, gente que não se escondeu nem se desculpou. Gente que entre a vida e os irmãos, escolheu os irmãos – irmãos escolhidos, irmãos de armas, irmãos de espírito, ideias, de contexto e de luta.

Resiste pois à natureza – e à sua hipotética lei -- quem se atravessa por outrem. Quem arrisca por outra pele, quem coloca a lealdade acima da segurança. A raridade da atitude fá-la preciosa, magnificente na sua insensatez. “Nenhum homem deixado para trás”, diz o código dos soldados (tanta vezes mentira na lógica funcional dos exércitos). Como seria possível aceitar a ideia da morte, de matar e de morrer, sem essa promessa, a promessa de que, como no dito dos mosqueteiros, é um por todos e todos por um? Não, não seria possível. Nem sequer aceitar a ideia da convivência se não esperássemos sempre, mesmo quando nos dizemos que não, que alguém venha e diga: estou contigo, estou por ti, não te deixo, não te viro as costas, não te abandono. Porque somos irmãos – pelo menos hoje, pelo menos agora, enquanto for preciso, enquanto for difícil.                                                                                                  (publicado na coluna 'sermões impossíveis' da notícias magazine de 26 de outubro)

 

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