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jugular

de que lado está?

Há na discussão sobre o casamento civil das pessoas do mesmo sexo um desencontro essencial e insanável entre os que são contra e os que são a favor. Não vale a pena negá-lo, nem travestir de diálogo e amabilidade aquilo que é uma fissura brutal, sem conserto - aquela que divide os que vêem um casal de pessoas do mesmo sexo como igual a um casal de pessoas de sexo diferente e os que são incapazes disso. Quando alguém diz, como ontem dizia na sua coluna neste jornal Maria José Nogueira Pinto, que "não se pode tratar da mesma forma o que é diferente", falando de "usurpação" a propósito do desejo dos homossexuais de aceder ao instituto do casamento e ao que ele simboliza - a assunção e dignificação social de uma relação -, está a falar a língua da exclusão. É isso que dizem todas as propostas de "todos os direitos com um nome diferente": "vocês desculpem mas ficam à porta, ficam de fora, ficam do outro lado. Não são dignos de entrar".

Motivos para isto? Bom, é difícil compreendê-los. Sobretudo porque legislar no sentido de retirar do Código Civil a exclusão dos casais do mesmo sexo não só não belisca em nada o direito de casar dos de sexo diferente como acrescenta valor ao símbolo, demonstrando que ele, ao contrário do que os defensores da exclusão, no seu desespero e atabalhoamento argumentativo, tentam provar, mantém o seu poder de atracção. Mas há um paradoxo maior na atitude dos que excluem: na verdade, são eles os usurpadores. Desde logo, os usurpadores da ideia de família: ouvir pessoas falar de família como uma fórmula de patente registada, um sinónimo de casamento com procriação, faz sorrir. E mais ainda quando falam em "instituição milenar". Na verdade, a "instituição milenar" a que se referem, a única a que podem referir-se (já que o casamento civil em Portugal tem 142 anos), é o compromisso entre duas pessoas de partilhar a vida, compromisso que historicamente se afirmou de várias formas, a mais comum sendo a factualidade - aquilo a que chamamos união de facto e que durante muito tempo foi reconhecido pelas autoridades temporais e eclesiásticas como casamento clandestino.

Ora, como é óbvio, as relações duradouras, com coabitação, entre pessoas do mesmo sexo sempre existiram. O facto de o preconceito ter no passado impedido que se lhes chamasse casamento não pode justificar- pelo contrário - a manutenção da exclusão. Quem diz "Ah, mas já gozam de tanta aceitação, para quê desafiar a mais tradicional das instituições?" (como faz Pedro Lomba também no DN de ontem) está no fundo a dizer "Dêem-se por muito felizes por já não vos lapidarmos, por já vos deixarmos andar à solta e nem sequer vos tratarmos com electro-choques, mas calma, não pensem que vos vemos como realmente iguais". Aquilo que tenta assim passar por bom senso não é mais que paternalismo desdenhoso, uma espécie soft de nojo que afirma um direito de propriedade: não queiram o que é nosso. Sucede que os homossexuais só querem o que lhes foi historicamente usurpado: respeito. Assentar nos crimes do passado a defesa de crimes presentes é, como no caso dos judeus, dizer que se foram sempre perseguidos deve haver uma razão. É tempo de parar com isto, não acham?

 

(publicado hoje no dn)

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