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A derrota do neoliberalismo e a vitória da esquerda? Não é assim tão simples

A crise actual permitiu a parte da esquerda reabilitar Marx, dizendo que a financeirização da economia pode ser entendida seguindo a grelha interpretativa da luta de classes e da relação entre trabalho e capital. Por exemplo, João Rodrigues, do Ladrões de Bicicletas, sugere que o crescimento desmesurado do sector financeiro constitui uma espécie de usurpação da capacidade produtiva do trabalho pelo capital. A explicação é mais ou menos esta: a rentabilidade, fictícia e puramente especulativa, do sector financeiro só foi possível através da vampirização crescente da actividade produtiva dos trabalhadores e dos seus salários (potenciais). A dinâmica da coisa é muito simples: o sector financeiro impunha certas regras à economia real (contenção salarial, flexibilidade,...) e "compensava" o povo com crédito barato, permitindo-lhe manter um certo nível de vida. Ou seja, dava com uma mão e tirava com outra. Por outro lado, os estados facilitavam a coisa, desregulando as actividades do sector financeiro. Para completar o quadro, temos o neoliberalismo, a ideologia que sustentou e legitimou tudo isto.

 

Se aceitarmos esta narrativa, a implosão do sector financeiro era inevitável. A crise actual limitau-se a tornar explícitas as contradições e a insustentabilidade que estão na base da e existência deste processo, que se fundamenta, essencialmente numa expropriação original. Isto é Marx por outros meios. Ou melhor, é puro Marx, devidamente adaptado de modo a incorporar o sistema financeiro moderno. O empobrecimento dos trabalhadores mantém-se real, mas é disfarçado pelo existência de crédito. Por outras palavras: o capitalismo tornou-se mais sofisticado e soube (até implodir) dissimular o facto de que a sua existência depende essencialmente de uma relação de expropriação e dominação. A diferença face ao século xix reside na existência do crédito ao consumo, mecanismo engenhoso que a época de Marx desconhecia.

 

Tenho alguns problemas com esta interpretação. Apesar de concordar com o facto de que algo semelhante a isto se passou, tenho dúvidas sobre tal tenha assentado numa expropriação ou usurpação fundadora. Ou seja, para que a implosão desta ilusão tenha um significado positivo para a esquerda, é necessário que exista, realmente, uma essência produtiva reprimida (a actividade produtiva do trabalhador) que, uma vez abolido o usurpador, pode finalmente voltar a ver a luz do dia.Mas a ideia de que, uma vez ultrapassada a ilusão financeira, a economia pode finalmente regressar ao seu estado natural e que os trabalhadores podem dedicar-se tranquilamente à actividade que lhes é de direito, sendo devidamente remunerados pelo seu trabalho, pressupõe demasiado. Para começar, pressupõe que os desempregados podem, de facto, ter trabalho e que os salários dos trabalhadores podem, de facto, ser mais elevados do que são actualmente, sem que isso prejudique a economia e o crescimento económico. Ou seja, pressupõe as crises económicas dos anos 70 e a falência do chamado consenso Keynesiano — que permitiram a ascensão política do neoliberalismo, protagonizado por Reagan e Thatcher — nunca existiram e foram ilusões fabricadas por uma classe política e por uma ideologia de direita. Pressupõe, no fundo, que os últimos 30 anos foram um erro monumental, um desvio desnecessário. Tudo corrria às mil maravilhas não fossem os malvados dos neoliberais terem inventado umas mentiras para explorarem os trabalhadores.. É isto que eu não aceito. Ou melhor, os neoliberais até podem ter inventado muita coisa, mas achar que inventaram tudo, parece-me, no mínimo, pouco credível. A maior ilusão da esquerda reside nisso mesmo — achar que sempre teve razão e que os últimos trinta anos não lhe ensinaram nada; e que pode voltar às suas receitas tradicionais como se nada tivesse acontecido. Para que a esquerda seja capaz de responder ao desafio que a História supostamente lhe colocou, ela tem, pelo menos, de começar por reconhecer que a História existiu e tem um significado que não se reduz aos erros do neoliberalismo. Só assim podemos usar Marx, que, como todos sabemos, nunca reduziu o capitalismo a um simples erro de percurso.

 

Para que Marx possa ser reabilitado sem cair na narrativa de superação do capitalismo, na abolição da propriedade privada e na necessidade de revolução proletária, a esquerda tem de ser capaz de propor uma narrativa histórica diferente da do PCP. Ou seja, tem de avançar com uma interpretação da história que satisfaça pelo menos duas condições: (i) que torne inteligível a emergência do neoliberalismo, enquanto realidade política e económica, sem a reduzir a um simples erro; e (ii) que seja capaz de reconhecer que o projecto neoliberal, embora inaceitável, surgiu como resposta a problemas que o Keynesianismo e a esquerda não souberam resolver. Ou seja, a esquerda tem de reconhecer que também é responsável por tudo isto, que o neoliberalismo não é um Outro e que o seu projecto político tem de ser profundamente repensado. Culpar apenas o neoliberalismo por tudo o que aconteceu, está muito longe de ser satisfatório.

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