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Malaca, Maravilha ou Merdavelha I - os critérios

 

No próximo 10 de Junho serão escolhidas as 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, de entre um leque de 27 nomeados. Como é sabido, esta iniciativa surge na continuidade de idêntica competição sobre 7 Maravilhas de Portugal que, por sua vez, foi a versão nacional das 7 Novas Maravilhas do Mundo. Nada tenho contra a realização de concursos deste tipo. É verdade que não tenho especial simpatia pela escolha de 7 em número nem grande entusiasmo por uma eleição deste género. Concedo, todavia, que, se é algo que melhora a imagem global de Portugal no exterior, se promove e divulga a história da presença portuguesa no mundo, se contribui para um melhor conhecimento do passado e, sobretudo, se constitui uma mais-valia para o futuro, nada de muito sério há a obstar. Não deixo de lamentar que o interesse pelo património rico e diversificado que os portugueses deixaram pelo mundo esteja circunscrito a operações de marketing destas, de impacto visual, mediático e efémero, enquanto se descura a verdadeira potencialidade, riqueza e diversidade do legado português, a começar pela língua e a acabar nas comunidades de luso-descendentes. Refiro-me, em particular, à Ásia.
Mas isso são outros contos. Neste e nos próximos dois posts que dedico ao tema, quero deixar clara a minha contestação aos critérios que presidem ao concurso e as minhas sérias reservas à escolha dos nomeados. Não de todos os 27. Apenas de um: Malaca. Numa palavra, discordo da inclusão de Malaca neste conjunto e lamento a ignorância, o erro, a falta de informação e o equívoco que presidiram a esta escolha, que denota uma flagrante falta de conhecimento, de cuidado e de trabalho. As razões que me assistem, exponho-as em seguida. 

A procura e escolha de 7 Maravilhas assenta em pressupostos teóricos discutíveis. O primeiro é o critério monumental. Como se a importância de um legado fosse directamente proporcional a um conjunto de edifícios. Portugal não tem, nunca teve, nunca terá uma “tradição monumental”, o que deriva de uma das suas características específicas: poucos recursos materiais e humanos. Lisboa não tem um espaço monumental comparável ao que têm vizinhos europeus. Onde estão os Campos Elíseos, a Versalhes, o Escorial portugueses? Um país pequeno, uma realeza modesta, uma élite cultural discreta, uma nobreza empobrecida, dependente da Coroa, envergonhada e, de um modo geral, invejosa da vizinha castelhana. Portanto, procurar as “pirâmides” portuguesas espalhadas pelo mundo é uma busca insensata, porque a grandeza do passado português não se mede, nunca se mediu pelo tamanho dos edifícios construídos. Isto tem uma especial pertinência na Ásia, onde a presença portuguesa foi essencialmente comercial, costeira, portuária, não-oficial, não-territorial, não-imperial, se quisermos usar este conceito. Um caso flagrante foi a presença portuguesa no Sueste Asiático. Malaca foi, no século XVI, um entreposto comercial de primeiro plano no contexto da Ásia marítima, e tê-lo-ia sido mesmo que os portugueses não tivessem colocado dois tijolos ou erigido duas pedras sobrepostas.
O segundo pressuposto falacioso é o que querer equiparar a importância de um determinado local, numa determinada época, aos vestígios monumentais que sobreviveram até aos nossos dias. Vamos imaginar uma cidade ocupada pelos portugueses durante mais de um século, uma cidade-chave no comércio internacional, da maior imporância numa determinada época, que posteriormente tenha sido perdida ou abandonada e de que não restem hoje sinais de relevo. E, algures, vamos imaginar um pequeno entreposto, de importância secundária, onde os portugueses tenham feito uma fortaleza e de onde, após algum tempo, se tenham retirado. E imaginemos que esta fortaleza tenha sido utilizada, preservada e cuidada pela população local, não importa por que motivos, e tenha chegado aos nossos dias intacta, impecável, em excelente estado. Pergunto: qual destes exemplos imaginários mereceria ser eleito uma “maravilha de origem portuguesa no mundo”? Depende dos critérios, evidentemente. Mas se falamos de vestígios, certamente que o segundo caso. Ora, Malaca é um exemplo acabado do primeiro.
A presente iniciativa mistura os critérios e tenta englobar o que, em muitos casos, é inconciliável. Na página das 7 Maravilhas estão apresentados os critérios de escolha dos 27 candidatos, de forma muito breve, vaga e, no meu entendimento, confusa: O critério adoptado na identificação dos monumentos a concurso consistiu no valor histórico e patrimonial excepcional de origem e influência portuguesa no Mundo (bold meu). Ora, conciliar “valor histórico” com “valor patrimonial” é o que se pode chamar de “ouro sobre azul”, mas que infelizmente só em casos especiais pode ser feito. No caso de Malaca, não faz, definitiva e infelizmente, qualquer sentido.

 

(a seguir: os dados)

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