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Malaca, Maravilha ou Merdavelha II – os dados

 

Após alguns comentários acerca do concurso 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo, os seus critérios e o caso específico da inclusão de Malaca na lista de nomeados, passo a tecer algumas considerações sobre a situação presente do “Centro Histórico” da cidade, que é a designação oficial na nomeação. A página das 7 Maravilhas apresenta uma galeria de fotos que é, a todos os títulos, caricata, se integrada num conjunto de dados reais sobre o alegado património português da cidade. Na verdade, quase nada do que lá existe hoje é português ou de origem portuguesa, quase nada do que os portugueses edificaram em Malaca sobreviveu até aos nossos dias. O que resta, visível, é uma e apenas uma coisa: a Igreja de S. Paulo, no cimo do monte, de que só restam paredes em mau estado e algumas placas tumulares, e nem todas portuguesas. 

O site abre com uma imagem de uma igreja que consta igualmente na “galeria oficial” de fotos. É a igreja de S. Pedro. Mas desenganem-se os incautos, porque este edifício não só não está localizado no “Centro Histórico de Malaca” (ou seja, no espaço ocupado pela antiga fortaleza), de que dista cerca de 1 km, como foi construída em 1710, em pleno domínio holandês, quase 70 anos depois de Malaca ter deixado de ser portuguesa. A data está lá na fachada, visível a todos, o que me faz suspeitar que os responsáveis por esta nomeação têm algumas lacunas no que toca a cronologia. É, de facto, a igreja mais antiga da cidade, porque a sua construção correspondeu a uma época de maior tolerância para com o culto católico. Os seus construtores, utilizadores, fiéis e, eventualmente, financiadores (não conheço os pormenores) deverão ter sido os católicos luso-descendentes dos portugueses, ou, melhor dizendo, descendentes de mestiços de mestiços de portugueses. Portanto, a imagem de abertura desta candidatura é um engano e induz em erro.
O terceiro elemento desta alegada maravilha de origem portuguesa é um dos ex-libris da cidade: a Porta de Santiago, errada e vulgarmente chamada de A Famosa. Na verdade, A Famosa foi o nome da torre construída por Afonso de Albuquerque após a conquista portuguesa em 1511 e que foi muito danificada com o cerco de 1640-41, que assinalou a conquista da cidade pelos holandeses. Depois foi usada como armazém e hoje, que eu saiba, não resta nada. A Porta de Santiago era uma das portas da cidade, junto a um baluarte com o mesmo nome, virado para o mar (que ali chegava na época). A que lá está hoje é habitualmente atribuída aos portugueses, mas é um erro. Basta atentar nas armas da VOC (Companhia das Índias Orientais) neerlandesa, que ostenta. A porta original portuguesa, foi, também ela, muito danificada pelo cerco de 1640-41 e os holandeses acabaram por derrubá-la e construir uma nova. O governador holandês Balthazar Bort escreveu, em 1678, um relatório que dá testemunho pleno deste facto.
Das restantes construções portuguesas não resta nada. Quem já foi a Malaca sabe do que falo. O elemento mais visível na Malaca actual é a presença chinesa. Curiosamente, uma das fotos da “galeria oficial” mostra uma rua com belas casas em estilo colonial, com lojas chinesas no rés-do-chão. Desengane-se, uma vez mais, quem julgar ver ali “casas portuguesas”, porque de português não têm nada. Não deixa de ser ridículo, para não dizer desonesto, mostrar casas provavelmente de origem britânica e lojas chinesas como se de uma prova de uma “maravilha portuguesa” se tratasse.
O estado actual do “centro histórico de Malaca” e a inexistência de edificações portuguesas é facilmente explicado. Em primeiro lugar, o principal complexo edificado pelos portugueses foi o impressionante conjunto formado pela muralha e baluartes, edificado ao longo de 130 anos de domínio. Quem conhece um pouco da história da cidade sabe o resto: muito danificado pelo cerco de 1640-41, foi posteriormente adaptado e reforçado pelos holandeses, embora sem alterações do seu perímetro. Mas nos inícios do século XIX, já Malaca era apenas uma sombra do que fora nos séculos anteriores, tendo perdido a antiga liderança como entreposto comercial nos Estreitos, primeiro para Batávia, depois para Penang e, a curto prazo, para Singapura, Malaca passou provisoriamente para o domínio britânico. A estratégia do Império de Sua Majestade ditou a certa altura, no contexto da guerra com a França de Napoleão, o abandono da cidade, pelo que as fortificações foram sistematicamente demolidas. Sobrou apenas uma porta, que ainda lá está. Quanto às igrejas portuguesas, que ocupavam boa parte do exíguo espaço intra-muros no período português, foram adaptadas, abandonadas e modificadas durante pelo poder colonial holandês, pouco interessado em manter viva a memória de um passado que não lhe pertencia e em tolerar sinais do culto católico.
No fim de contas feitas, há em tudo isto uma grande ironia. Por um lado, os edifícios mais antigos (e bem preservados) de Malaca são holandeses: o Stadhuys e a torre do relógio anexa, de meados do século XVII, inconfundíveis com a sua cor vermelha. Seria um excelente candidato às “7 Maravilhas de Origem Neerlandesa no Mundo”. Mas o período de quase dois séculos de domínio holandês deixou pouco mais do que isso. Por exemplo, a comunidade local de origem holandesa é diminuta. Ora, o caso português é exactamente o inverso. Os holandeses têm um legado morto, nós temos um vivo: não há edifícios bem preservados nem complexo monumental algum que possa servir de maravilha-testemunho de 130 anos de presença oficial. Mas há uma comunidade local de origem portuguesa e que vive maioritariamente num Portuguese Settlement (a uns 4 km do “centro histórico”), que reclama com orgulho a ascendência portuguesa e que fala um crioulo eivado de arcaísmos da nossa língua (chamado papiá kristang). É actualmente uma das atracções turísticas da cidade. É formada, em parte, pelos descendentes dos mestiços portugueses, católicos, que por lá ficaram quando aquela fatia do império asiático português caiu. E que permaneceram activos, com uma identidade própria, e em contacto com outras comunidades idênticas, um pouco por todo o Sueste Asiático e Extremo Oriente, quando a VOC se tornou omnipotente e, depois desta, o Império Britânico. É algo que nos liga àquelas paragens e à nossa História, uma ponte privilegiada de contacto e de intercâmbio cultural e económico, uma porta que se mantém aberta há séculos numa região que, apesar da sua importância actual, pouco ou nenhum interesse tem suscitado nos nossos empresários, nos nossos políticos, nos nossos intelectuais. Basta dizer que não há embaixada portuguesa na Malásia ou em Singapura. É este o legado de Portugal em Malaca. Na minha modesta opinião, é esta a maravilha real, viva, dinâmica, com potencial para o futuro. A outra, a das paredes a cair e meia dúzia de lápides tumulares, é, perdoem-me o vernáculo, apenas uma merdavelha.

 

(a seguir: o texto)

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