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Malaca, Maravilha ou Merdavelha III – o texto

 

Após ter escrito umas linhas opinativas sobre os critérios do concurso 7 Maravilhas de Origem Portuguesa no Mundo e ter tecido algumas considerações acerca da candidatura do “centro histórico de Malaca” ao mesmo, quero terminar com algumas palavras sobre o texto de apresentação que consta na página.
Na minha opinião, um texto destes deveria ser cuidadosamente redigido e primar pela clareza, pelo rigor e pela informação correcta. Talvez começando por identificar de forma nítida os locais, monumentos ou edifícios que integram a candidatura, apresentando informação útil e rigorosa sobre o interesse e valor histórico e patrimonial dos mesmos e, por fim, traçar um quadro sintético sobre a importância e relevo da cidade em questão ao longo dos tempos. Talvez ainda se justificasse uma meia dúzia de referências bibliográficas essenciais ou um pequeno fundo documental em arquivo. Nada disto está lá. Ao invés, apenas um texto com um arranjo atabalhoado de dados desconexos, ou imprecisos, ou errados, ou irrelevantes, ou ainda desnecessários. Quando não disparatados.
O texto é assinado por Pedro Dias, pomposamente identificado como “Professor Catedrático de História de Arte da Universidade de Coimbra”. Talvez fosse preferível e mais útil um pouco mais de informação clara e correcta e um pouco menos de aparato académico, aliás inútil. Teria sido bem mais sensato entregar a responsabilidade dos textos de apresentação a vários especialistas de cada uma das áreas ou cidades, ainda que simples mestres, licenciados ou leigos, em vez de conceder todos eles a um único nome, ainda que dotado de cátedra da mais antiga universidade portuguesa. 

O texto entra, como se costuma dizer, com o pé esquerdo: diz que Malaca mantém as suas instituições tradicionais, nomeadamente o seu rei, que governa o país em alternância com os outros seis, por períodos de cinco anos. É errado: o autor parece ignorar que o sultão de Malaca fugiu em 1511, aquando da conquista portuguesa, e que os seus descendentes fundaram o sultanato de Johor, mantendo assim intacta a linhagem e a herança do antigo sultanato, até aos nossos dias. Hoje Malaca é um estado da Federação Malaia (uma monarquia constitucional), liderado por um governador e não por qualquer rei. É o sultão de Johor (herdeiro de Malaca, portanto), esse sim, que alterna no cargo de “Rei” com outros nove (e não seis) sultões hereditários. Mas não governa, da mesma forma que Isabel II não governa a Grã-Bretanha. Não é informação classificada ou remota: bastaria ir à Wikipedia.
E continua: a presença dos portugueses (...) foi importantíssima para o seu desenvolvimento e para o de toda a região, pois passou a ser o principal entreposto do comércio entre a Índia e a China e as outras regiões do Extremo Oriente. Eis uma sintomática visão eurocêntrica da Ásia, típica de qualquer manual do século XIX. É, além do mais, inexacta: Malaca era já anteriormente uma cidade de grande importância no comércio regional e inter-asiático, e os portugueses limitaram-se a tentar prolongar essa função. E, ao contrário do que o texto sugere, é inegável a perda de influência, de poderio e de riqueza durante o período português, porque novos pólos, rivais e concorrentes dos portugueses, surgiram logo após a conquista da cidade por Afonso de Albuquerque, e a chegada de ingleses e holandeses, nos finais do século, apressou essa tendência.
O parágrafo seguinte faz uma periodização da fortificação da cidade. É incorrecta: Afonso de Albuquerque não fez qualquer vasto programa de fortificação, limitando-se a erguer A Famosa, que já mencionei anteriormente; os dados sobre a década de 1520 e 1530 não são exactos. Na verdade, as primeiras fortificações de pedra foram feitas só após 1568 (data de um cerco e ataque por uma armada do Aceh), pois até então apenas existiam estruturas defensivas em madeira e taipa.
O terceiro e quarto parágrafos falam, de forma confusa, da planta da cidade, da função do perímetro e da dimensão da fortaleza. A sua fonte informativa não é mencionada, mas é facilmente detectável: Manuel Godinho de Erédia e a sua planta de 1604 (ver gravura). Cujo rigor é, acrescente-se, contestado. Por exemplo, as fortificações desenhadas do lado da terra não existiam à data e parecem indicar um projecto a ser levado a cabo, e não o situação real no terreno. Em alternativa, teria sido mais útil mencionar o nome do engenheiro que, na década de 1580, foi incumbido de dotar a cidade de fortificações eficazes, que só viriam a ser construídas muito lentamente: o italiano Giovanni Batista Cairati.
Teria sido de toda a conveniência esclarecer que o espaço “intra-muros” era o centro político, administrativo e religioso de Malaca, era a “cidade portuguesa”. E, sobretudo, acrescentar que o coração económico ficava no exterior, nomeadamente na margem direita do rio, no bairro de Upeh (que o autor prefere chamar pelo nome português de tranqueira que era, na realidade, a paliçada de madeira que a defendia), onde viviam as mais importantes comunidades mercantis asiáticas, como javaneses, chineses e quelins (uma casta de mercadores hindus da costa oriental indiana), mas também do outro lado da cidade, em Hilir (que o autor ignora ou desconhece). Isto porque o vigor e a riqueza de Malaca procediam da capacidade de atracção das comunidades mercantis asiáticas, mais do que qualquer outro factor. Nada disto é dito, nada disto é, sequer, aflorado. Ao invés, o texto faz menção da população malaia e luso-malaia, ignorando a realidade demográfica e a estrutura sociológica da cidade no século XVI e XVII.
Há outro dado fundamental que o autor ignora. O de que a esmagadora maioria das casas no interior da fortaleza era, no período português, de madeira e taipa, com cobertura em ola (folha de palmeira) ou telha. Só alguns edifícios e igrejas eram de pedra, tal como parte da muralha. Este uso de materiais perecíveis é algo em perfeita sintonia com o meio envolvente e com a tradição urbana sueste-asiática, que concedia à estrutura urbana uma permanente mobilidade, precariedade e dinamismo. Por isso, falar em facies claramente português na estrutura urbana de Malaca é algo que roça o disparate, sobretudo porque, logo a seguir, confessa que, à excepção de 3 quarteirões, parece não ter havido qualquer planeamento. Um facies caótico, será? E que teria ele, pergunto eu, de claramente português?
Pior, e para terminar, o texto afirma que em Upeh (ou seja, na tranqueira), a rede viária foi estabelecida de forma ordenada por bairros étnicos, baseada em longas e rectas vias estruturantes, para logo de seguida concluir que a estrutura da povoação do tempo de domínio português ainda existe e o seu traçado está  practicamente intacto. Do ponto de vista urbanístico, esta área da cidade de Malaca é a mais bem conservada de todas as que remontam ao período português na Ásia, só comparável ao interior de Damão (...). Não imagino como foi esta elaborada esta conclusão. Do que conheço da Malaca quinhentista e do bairro de Upeh, feito de casas de taipa e madeira sujeitas a permanente renovação, à acção de incêndios e de ataques de inimigos, é puro disparate. Se a isto somarmos o período de ocupação holandesa e britânica, presumir a existência de um traçado do período português que se manteve inalterado até aos nossos dias torna-se um delírio absoluto. Ou um sinal inequívoco de ignorância gritante. Ou, talvez, uma forma enviesada e infeliz de justificar a candidatura do “centro histórico” da cidade, tapando com o imaginado traçado "português" de Upeh o vazio monumental correspondente. Mas isto é apenas a minha opinião, eu que não sou Catedrático, nem de História de Arte, e muito menos da vetusta Universidade de Coimbra.

É o que tenho a dizer de Malaca. Há mais 26 candidaturas, cuja pertinência gostaria igualmente de conhecer e que aguardo que alguém o faça.

 

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