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Charlatanices e SIDA: uma história de horror


Li muito recentemente o livro de Ben Goldacre, o médico que mantém semanalmente uma coluna no Guardian intitulada Bad Science e que se devota a desmontar charlatanices sortidas em particular «medicinas alternativas» como homeopatetices e afins.

O livro é uma leitura especialmente recomendada mas, na edição que comprei, deixa em suspenso qualquer coisa negra que impediria a inclusão de mais material. Há uns dias, Goldacre publicou no seu blog o capítulo em falta, que pede seja amplamente divulgado. No prólogo ao The Doctor Will Sue You Now, o autor explica que esta história de horror, que justifica porque é necessário denunciar todos estes charlatães alternativos, só agora pode ser publicada: Matthias Rath, o muito bem sucedido vendedor de banha da cobra em questão, processava Goldacre e o Guardian quando o livro foi publicado.

E esta história de horror, em boa parte responsável pelas dimensões que a epidemia de SIDA atingiu na África do Sul, deve ser amplamente divulgada. Sobretudo, dever-nos-ia fazer reflectir sobre aquilo que temos insistido no De Rerum Natura e resumi no Charlatanices e banhas da cobra: activação de ADN: o ressurgimento destes obscurantismos é uma manifestação de que algo está profundamente errado na nossa sociedade mas para além de sintoma é igualmente uma causa do que está errado. Vivemos tempos em que este tipo de patetices, aparentemente inócuas, na realidade são uma espiral descendente que se não for travada pode ter consequências desastrosas. O pior perigo destas charlatanices é o facto de que «envenenam» a mente, isto é, pretendem passar anti-ciência por ciência e apelam a que as pessoas deixem de pensar. São perigosas porque afirmam que o pensamento mágico é mais importante que o trabalho, a verdade, a razão e o respeito pelas evidências. E a razão e o respeito pelas evidências são a fonte do progresso da Humanidade - e a nossa salvaguarda contra todos os que lucram pela deturpação da verdade.
 

Assim, como escreve Goldacre, a sua história de horror não é sobre Matthias Rath ou sobre os restantes protagonistas nem mesmo sobre a catástofre que se abate sobre a Áfirca do Sul. «It is about the culture of how ideas work, and how that can break down. Doctors criticise other doctors, academics criticise academics, politicians criticise politicians: that’s normal and healthy, it’s how ideas improve. Matthias Rath is an alternative therapist, made in Europe. He is every bit the same as the British operators that we have seen in this book. He is from their world.».

De facto, a carreira de charlatão de Rath teve um início «auspicioso» na Europa, pretendendo que os medicamentos utilizados em quimioterapia eram completamente ineficazes, verdadeiros venenos que matavam os pacientes. Segundo ele, milhões de vidas poderiam ser salvas se os doentes de cancro deixassem de ser tratados com a «medicina convencional» e passassem a ser prescritos as suas tretas alternativas. A resposta europeia a estes absurdos foi, na ausência de regulamentação conveniente, necessariamente fraca: apenas um tribunal de Berlim ordenou Rath a parar a publicidade que afirmava que as suas pílulas curavam o cancro - ou então pagar uma multa de 250 000 libras.

Mas se os estragos que este charlatão fez na Europa (e Estados Unidos) nos deveriam preocupar, o que promoveu na África do Sul, onde chegou sob a presidência de Thabo Mbeki, é estarrecedor, demasiado estarrecedor para descrever e recomendo vivamente a leitura do capítulo de Goldacre para perceberem porquê. Basta dizer que a campanha genocida teve início com grandes parangonas nos jornais sul-africanos denunciando uma conspiração das grandes farmacêuticas para matar africanos que vendiam venenos mortais sob o disfarce de anti-virais. «Stop AIDS Genocide by the Drugs Cartel. Why should South Africans continue to be poisoned with AZT?» foi um dos «grandes» títulos utilizados.

Goldacre conclui o capítulo afirmando «The alternative therapy movement as a whole has demonstrated itself to be so dangerously, systemically incapable of critical self-appraisal that it cannot step up even in a case like that of Rath: in that count I include tens of thousands of practitioners, writers, administrators and more. This is how ideas go badly wrong. In the conclusion to this book, written before I was able to include this chapter, I will argue that the biggest dangers posed by the material we have covered are cultural and intellectual.»

De facto, por muito inócua que seja, por exemplo, a água que os homeopatetas vendem como medicamentos ou o lava pés pomposamente designado «hidrolinfa» (e os charlatães que os vendem em Portugal queixaram-se por mail da minha «estreiteza» de espírito), os seus grandes perigos são culturais e intelectuais. O espaço cada vez maior oferecido pelos meios de comunicação a explicações pseudo-científicas e místicas indica que o envenenamento da mente e a contaminação cultural são também cada vez maiores. Joe Kaplinsky pôs o dedo na ferida sobre as causas, «quando o criacionismo [ou as patetadas «alternativas»] pode vestir-se de 'pensamento crítico' deveria ser evidente de que não é apenas com os fundamentalistas cristãos que precisamos preocupar-nos - é com todo um sistema educacional imbecilizante!»

A cura continua a preconizada no manifesto de Sagan contra as pseudociências. Urge cada vez mais reacender as velas de Sagan e estimular o pensamento crítico mas urge especialmente olhar para o que se passa no nosso ensino que asfixia esse pensamento crítico!

 

(em stereo no De Rerum Natura)

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