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Duplicidade intelectual

Em Janeiro do ano passado, alguns docentes e discentes da Universidade La Sapienza em Roma protestaram a presença de Bento XVI  na abertura do ano académico. Os estudantes de Física foram  particularmente veementes no protesto e planearam uma série de eventos para assinalar a coisa que incluíam um concerto rock (Bento XVI considera a música rock «expressão de paixões elementares que, nos grandes concertos musicais, assumiu carácter de culto, ou melhor de contra-culto que se opõe ao culto cristão»), um desfile gay contra a homofobia do Papa e uma Lectio Magistralis «em defesa da ciência contra o obscurantismo católico».

No post no De Rerum Natura em que dei conta do sucedido, todos os católicos que visitaram o espaço de debate manifestaram o seu repúdio pelo que classificaram, entre outros epítetos igualmente simpáticos, de fascismo. O Ludi recorda-nos no seu blog que um dos católicos cá do burgo que mais se desdobra em ataques sortidos à laicidade em geral e aos ateus em particular, foi particularmente duro face ao «claro bloqueio à liberdade de expressão», ao «triste incidente diplomático», «enorme falta de educação e civismo», e  «triste prova de pensamento obscurantista e não dialogante».

 

As reacções católicas nacionais não são muito originais apenas repetem, em tom na maior parte das vezes mais moderado, as que se sucederam em todo o mundo, com a cristianovitimização que se esperaria (documento em formato pdf da Academia Aquinas), muitos rasgos de roupa e carpiduras de perseguição.

Entretanto nos Estados Unidos, há cerca de dois meses que a notícia mais debatida em prime time (uma mera googlada devolve mais de 4 milhões de entradas sobre o tema) é algo análogo mas em que os papéis foram revertidos, isto é, o reitor de uma universidade católica endereçou um convite a um laico - no sentido de defensor da laicidade - para discursar na abertura do ano académico. Acresce que esta personalidade laica é Barack Obama, a quem a hierarquia católica move uma guerra (já não tão) surda desde os primórdios da campanha que o elegeu a propósito principalmente do aborto, embora a posição de Obama em outros temas, como a investigação em células estaminais, mereça igualmente a reprovação vaticânica.

 

A universidade em causa tem uma longa tradição de convidar o presidente eleito a discursar neste evento e uma ainda maior tradição em outorgar-lhe uma distinção. Nada disso obsta a que o convite tenha despoletado o que Peter Seinfels no NYTimes chamou há dois dia de clima próximo da guerra civil, com bispos como Robert W. Finn de Kansas City a ulularem dos púlpitos que os católicos estão em guerra contra os servidores do Demo que não aceitam a posição católica de total repúdio do aborto em qualquer circunstância. O tom mais moderado parece vir do arcebispo que foi de  St Louis* e agora dirige o Supremo Tribunal do Vaticano, Raymond Burke. Burke considera apenas o maior escândalo imaginável que tenha sido convidado pelo reitor da universidade de Notre Dame o presidente, que considera ter uma agenda anti-família e anti-vida (ao contrário do grande defensor de óvulos e espermatozóides G.W. Bush).

 

Os católicos nacionais que se desdobraram em verberações sortidas da «vergonha» que aconteceu em La Sapienza (Bento XVI cancelou a visita com medo dos protestos), desdobram-se agora, depois de recordados do «incidente», em justificações espúrias sobre as supostas «diferenças» que tornam necessário acabar com a palhaçada que seria Obama discursar numa universidade católica. Ou seja, em pouco mais de um ano, protestos à escolha reitoral da personalidade cujo discurso inaugura o ano académico passaram de absolutamente reprováveis a completamente louváveis.

 

*Em 2006, Raymond Burke excomungou os seis membros do conselho de direcção da igreja de St. Stanislaus Kostka e o seu padre polaco, Marek Bozek, por uma questão financeira, mais concretamente por o conselho de direcção recusar ceder a propriedade da Igreja e o controle financeiro da paróquia à arquidiocese. Há pouco mais de um mês, Bento XVI acedeu às pretensões de Burke e expulsou Bozek das hostes clericais católicas.

 

2 comentários

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    Palmira F. Silva 12.05.2009



    Para confirmar o que escrevi acerca da posição da hierarquia católica, seguem-se excertos do Memorando «confidencial» enviado pelo então cardeal Ratzinger a Theodore McCarrick, arcebispo de Washington, tornado públic0 em Julho de 2004.

    Nessa época disputava-se a presidência dos Estados Unidos entre Bush, um evangélico anti-aborto e Kerry, um católico pessoalmente contra o aborto mas respeitando a consciência de quem o escolhia e como tal pró escolha. Ah, supostamente, ou antes, para inglês ver, o Papa era veementemente contra a guerra no Iraque.

    « 2. A Igreja ensina que o aborto e a eutanásia são um pecado grave. A carta evangélica Evangelium vitae, com referência a decisões judiciais ou leis civis que autorizem ou promovam o aborto ou eutanásia, estipula que «existe uma grave e clara obrigação para a sua oposição por objecção de consciência. [...] No caso de uma lei intrinsecamente injusta, como uma lei que permita o aborto ou a eutanásia, nunca é lícito, por conseguinte, obedecer a essa lei ou fazer propaganda em favor dessa lei ou votar a seu favor’» (no. 73). Os cristãos têm uma «grave obrigação de consciência de não colaborarem em práticas, mesmo que permitidas pela legislação civil, que são contrárias à lei de Deus. [...] Esta colaboração nunca pode ser justificada por invocação do respeito à liberdade de outros ou apelando ao facto que a lei civil o permite ou requer»(no. 74).

    3. Nem todas as questões morais têm o mesmo peso que o aborto ou a eutanásia (leia-se, pode-se matar milhares de pessoas que isso não faz mal, o que é mesmo mau é não criminalizar o aborto). Por exemplo, se um católico tiver opinião contrária da do Papa na aplicação da pena capital ou na decisão de iniciar uma guerra, ele não deve ser considerado por essa razão indigno de se apresentar para receber a sagrada comunhão. Pode existir uma legítima diversidade de opiniões entre católicos sobre uma guerra e a aplicação da pena de morte mas não em relação ao aborto e eutanásia

    Ou seja, para Ratzinger os cristãos devem ser contra decisões judiciais e leis que autorizem o aborto e a eutanásia, considerados pecados graves. Aliás é seu dever ser completamente intolerantes com quem não se reger pelo dogma da sacralidade do embrião e com quem reclama o direito a morrer com dignidade.

    Nas recomendações de como devem os católicos votar, explica assim que um católico será considerado culpado por cooperar com o mal, e não poderá receber a comunhão, se votar num candidato político que seja contra a criminalização do aborto ou da eutanásia.

    Em contrapartida, um candidato político que seja (fervorosamente) a favor da pena de morte ou que seja culpado de centenas de milhares de vidas inocentes como «danos colaterais» de guerras injustas deve ser a escolha de todo e qualquer cristão.
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