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Cantar de galo

O post do Vasco que o João recomenda trata de algo que nos últimos dias muito me tem interrogado. Não estou a falar da superabundância de fazedores de opinião mas sim da facilidade com que nos últimos tempos esses opinadores incorrem nas falácias Non Causa Pro Causa. Estas são falácias de causa improvável, isto é, ocorrem quando algo é identificado, sem sustentação, como a causa de um evento.

 

O problema não é apenas a falta de consistência lógica da opinação dos sociológos de sofá,´que torna penoso assistir  a muitos dos debates que enchem o pequeno écran. O grande problema é que o péssimo exercício público da «ciência da argumentação, prova, reflexão ou inferência» está a contaminar o público em geral e tenho sido repetidamente mimoseada, em conversas de café e não só, com exemplos análogos de raciocínios coxos por parte de infectados com a praga.

 

Duas das formas mais comuns de  Non Causa Pro Causa são as falácias Cum Hoc Ergo Propter Hoc e Post Hoc Ergo Propter Hoc,  que assentam na ideia errada de que correlação implica necessariamente causalidade que  a Fernanda já se referiu a propósito de Edward Green e das suas afirmações absurdas sobre o preservativo. A Cum Hoc refere  raciocínios falaciosos que atribuem a causa de algo a outra coisa sem nada a ver mas que ocorreu simultaneamente e a Post Hoc  refere-se à atribuição da causa de de um fenómeno a outro que o antecedeu no tempo.

 

A primeira falácia é normalmente ilustrada com o exemplo de um estudo  que mostrou que no Oeste Selvagem americano havia uma correlação quase perfeita entre o consumo de whisky nos saloons e o números de padres e missas celebradas. De facto, ambos aumentaram, num período de um quarto de século, por um factor de quatro. O estudo poderia deixar a interrogação sobre se o aumento de padres conduziu as pessoas a beber mais ou se o aumento do consumo de whisky levou as pessoas a arrependerem-se e a frequentar mais a igreja. Na realidade, existe correlação mas não causalidade entre estas variáveis e ambas são manifestações indirectas da verdadeira causa de ambos os fenómenos: o aumento da população por um factor de 4.

 

A segunda pode ser ilustrada pelo síndrome do galo, ou seja, atribuir o nascer do sol ao cantar do galo.

 

Cantar de galo é uma boa descrição do texto completamente non sequitur da Maria João Marques, uma ilustração perfeita dos perigos da habituação a este tipo de falácias.  O post, que não tem ponta de raciocínio lógico por onde se lhe pegue, mistura Bela Vista, criminalidade negra, em particular violência juvenil de negros, ausência de pai, Obama, mau gosto de Michelle e a suposta sanha (?) anti-família tradicional (?) do governo Sócrates. 

 

Como escrevia há uns tempos o Desi, «A confusão entre crença e desejo provoca vícios epistémicos. (...) A falsidade, a argumentação tendenciosa, o truque rasteiro, tornam-se então instrumentos cruciais para fingir que a realidade é como desejaríamos que fosse, e perde-se o interesse cognitivamente central de tentar alinhar as nossas crenças com a realidade. Falácias óbvias como a supressão de provas tornam-se comuns: todas as migalhas que militam a favor da causa favorecida são aproveitadas, e todos os dados e argumentos contrários são pura e simplesmente ignorados.» Acho que  não conseguiria descrever melhor o que senti ao ler a referida opinação, que é, acima de tudo, um aviso à navegação sobre a degradação opinativa que doses excessivas de  Non Causa Pro Causa provocam!

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