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As tolices dos arcebispos

Está a fazer ondas esta entrevista à catalã TV3 do cardeal Antonio Cañizares Llovera, arcebispo de Toledo e prefeito da Congregação para o Culto Divino e Disciplina dos Sacramentos.

 

Numa entrevista devotada quasi na totalidade a  carpir a legislação que não criminaliza o aborto, o cardeal comenta en passant o escândalo da pedofilia na Irlanda, coisa pouca que não lhe merece mais de uns segundos de atenção numa entrevista de quase 20 minutos, e mesmo esses poucos segundos são devotados a explicar que não há sequer comparação entre esta minudência e o aborto.

 

Mais concretamente, Cañizares considera que o abuso sexual, torturas e maltratos a que foram submetidos ao longo de décadas milhares de crianças entregues pelo estado a instituições católicas configura condutas condenáveis pelas quais, aparentemente, basta pedir perdão. Mas é irrelevante o que aconteceu «em alguns poucos colégios», em que foram abusados uns meros milhares de crianças,  face aos «milhões de vidas destruídas» pelo aborto.

 

O El pais dá-nos conta  que o governo espanhol já classificou de «muito graves» as enormidades debitadas pelo arcebispo. Mais concretamente,  Trinidad Jiménez, ministra da Saúde e Política Social, considerou as declarações de Cañizares «completamente irresponsáveis e inoportunas», acrescentando aquilo que devia ser óbvio para qualquer pessoa com vestígios de bom senso e com um mínimo de sensibilidade, que não são comparáveis o abuso sexual de menores e o aborto. Parece no entanto que sensibilidade e bom senso não se coaduna com a direcção de arquidioceses, pelo menos em Toledo e Westminster...

 

Adenda: Os comentários têm sido uma fonte de informações inestimável. Por indicação da Inês, cheguei ao artigo do redactor chefe da revista da arquidiocese de Madrid, presidida pelo cardeal Antonio María Rouco Varela, que pergunta se faz sentido manter a criminalização da violação. Outro leitor, deixa-nos um vídeo que diz mais que quaisquer palavras. Vale igualmente a pena ler os comentários...

5 comentários

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    Palmira F. Silva 29.05.2009

    Zé Carioca:

    Continua muita confusão nessa cabecinha, não é? O que o senhor arcebispo disse, escarrapachadinho, é que o aborto é um crime muito, mas muito maior que o abuso sexual que membros do clero irlandês cometeram durante décadas

    Explique-me lá o que tem a ver com crime algo moralmente condenável? Eu acho moralmente condenável a desonestidade intelectual mas nunca me passou pela cabeça que deva ser crime, por exemplo :)
  • Sem imagem de perfil

    Zé Carioca 29.05.2009

    Se a Palmira acha que há aqui confusão faça-me um favor. Esclareça-me se você acha (1) se o aborto deve ser considerado crime ou não; não sei qual é a sua resposta (2) se você acha que o aborto deve ser punido ou não; sei que a sua resposta é não; (3) se o aborto é moralmente condenável ou não; eu estou na dúvida sobre a sua opinião; (4) se acha que o Estado deve financiar um ato moralmente condenável ou não. É que talvez a minha confusão venha daqui.

    Eu não sei se é possível fazer uma gradação de crimes, ou se uma gradação de crimes é sensata. Sei que roubar uma maçã é menos grave que assaltar um banco. Sei que um assassínio de um indefeso merece mais censura e pena que uma rixa entre malfeitores.

    Pelos visto o arcebispo acha que o aborto é crime mais grave que a pedofilia. Eu por acaso tenho dúvidas.

    Talvez o arcebispo tenha razão ou não. Creio (posso estar errado) aliás que a menor gradação na "escala dos crimes", digamos assim, que ele dá à pedofilia não tem a ver com o facto de "colegas" seus estarem envolvidos nesse crime. Porque creio (posso estar errado) que ele achará que o aborto é mais grave que um qualquer outro ato moralmente errado. Ou seja a gradação relativa que ele dá ao aborto é à pedofilia não tem a ver com uma desculpa da pedofilia, mas com uma condenação do aborto acima de qualquer outro ato moralmente condenável. (E eu presumo que você sabe isso, mas pretende não saber; isso talvez seja desonesto, mas não é certamente crime).

    Como disse não sei se é razoável estabelecer uma gradação de maldade entre o aborto e a pedofilia, como faz o bispo. Agora o que sei é que a preocupação que você manifesta com as vítimas da pedofilia (preocupação legítima e louvável) é incoerente com a sua desconsideração com as vítimas do aborto. E tal como você critica o bispo pela opinião dele, eu critico-a assim e acho a sua opinião mais errada.

    Cumprimentos,
  • Imagem de perfil

    Palmira F. Silva 29.05.2009

    Caro Zé Carioca:

    Não há «vítimas» num aborto, excepto para os mais fanáticos que ululam as almas (?) perdidas. Aliás, lembro-me de uma discussão teológica muito interessante sobre a moralidade do efeito duplo de nada fazer para salvar uma parturiente num parto complicado, sem hipóteses de salvar o filho, se houvesse hipóteses de este sobreviver ao parto o tempo suficiente para ser baptizado - salvando-se assim uma «alma».

    Ou seja, a Igreja, tal como no tempo da inquisição, está mais interessada em salvar «almas» que pessoas...

    e continua a não perceber que esta preocupação com as «almas» se deve restringir estritamente ao seu rebanho e não deve ser misturada com o Direito. Ou seja, a Igreja - e refiro-me aos seus responsáveis mor - continua a não perceber que pecados e crimes não são a mesma coisa...
  • Sem imagem de perfil

    Zé carioca 29.05.2009

    Para clarificar e evitar ruído: Os fanáticos que ululam as almas perdida são parvos! As almas não se perdem. Mas as almas, se é que isso existe, não têm nem podem ter relevância no reconhecer ou não a existência de vítimas no aborto.

    Mas as vítimas existem, sim.

    Para clarificar e evitar ainda mais ruído: A posição da ICAR sobre a condenação do aborto mesmo em caso de perigo substancial para a sobrevivência da mãe não é só errada, é inconsistente com outras orientações morais da ICAR.

    Mas as vítimas existem, sim.

    Talvez issoto a ajude a compreender que eu não sou um pagagaio que repete posições de outros.

    Verifico que você não quis responder às minhas perguntas, designadamente sobre a moralidade (independentemente da criminalização) do ato e sobre o seu financiamento pelo Estado. Está no seu direito. E eu no meu de retirar daí algumas conclusões sobre a sua consistência intelectual e honestidade.

    Agora eu lamento que você ache que um ser humano de algumas semanas de gestação não é vítima e que logo não tem direitos alguns , nem merece proteção nenhuma da sociedede. Nenhuma, digo bem. Já que falámos de gradação de crimes e de atos você acha que dar um pontapé num cão merece mais censura que matar um ser humano de algumas semanas.

    (Se isto lhe for útil: eu conheci a sua posição no referendo português sobre o aborto. Os casos que mais contribuíram para a minha opinião têm no entanto outras origens: eu que tenho amigos mongoloides tenho dificuldade em engolir que em países da UE onde eu vivi (França) se permita abortar um nascituro mongoloide até um minuto -- sim, eu disse um minuto -- antes do nascimento. Talvez isto não venha agora ao caso, mas isso pode ajudá-la a perceber a minha posição e a identificar a sua inconsitência).

    Se quiser responder, esteja à vontade; embora hoje eu já não tenha possibilidade de manter este diálogo.

    Passe bem.







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