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jugular

Revisionismo histórico ou esta gente passa-se big time

Nos bastidores da jugular, a João falou-nos no post «Russo responsabiliza Polónia pela II Guerra» através do qual descobri que «A Polónia, ao recusar ceder às exigências de Adolf Hitler, foi em parte responsável pelo início da II Guerra Mundial, afirmou um historiador do ministério da Defesa russo, dizendo que as reivindicações alemãs eram "moderadas"».

 

Achei o artigo deveras estranho em vésperas da celebração dos 65 anos do D-Day, em particular quando ao mesmo tempo Barack Obama visitava o campo de concentração de Buchenwald e denunciava no seu discurso os revisionistas históricos que negam o Holocausto.

 

Resolvi investigar a notícia que apresenta ramificações inquietantes que a breve nota do DN não aborda. Nem fiquei mais tranquila depois de ler o The Moscow Times  que nos informa que o ministro esclareceu que o artigo «Inventions and Falsifications in the Assessment of the Role of the USSR on the Eve and at the Start of World War II» do coronel Sergei Kovalyov do Instituto de Histório Militar não deve ser considerado representativo da posição oficial do seu ministério.  Nem depois de saber que o ministério da Defesa tinha retirado da sua página o referido artigo -  que indicou ter sido publicado apenas para «discussão» - quiçá devido à reacção polaca.

 

De facto, descobri que Dmitry Medvedev criou no mês passado uma comissão para identificar os «revisionistas» anti-Rússia que se entretêm, no resto do mundo e na própria Rússia, a «falsificar» a História. Medvedev parece especialmente preocupado com os historiadores da II Guerra Mundial que insistem em falar do pacto Molotov-Ribbentrop  - ou tratado nazi-soviético ou pacto Hitler-Estaline, um tratado de não-agressão assinado em vésperas da Segunda Guerra Mundial que na prática dividia a Europa em duas esferas de influência, uma alemã e outra soviética e garantia que a União Soviética não reagiria a uma agressão alemã à Polónia, e que, por seu lado, a Alemanha apoiaria uma invasão soviética da Finlândia.

 

O artigo do coronel Kovalev' afirma que esses historiadores estão a ver a História às avessas e na realidade foi o apoio da Inglaterra a Varsóvia que levou a Polónia a «perder todo o sentido da realidade».  Iludida pelas promessas implíticas do apoio ocidental, a Polónia rejeitou as ofertas «moderadas» de Hitler e despoletou a Grande Guerra.

 

Sobre o pacto Hitler-Estaline, o (re-)historiador afirma que «Nenhum representante de uma democracia ocidental tem o direito de discutir nenhum tratado entre a União Soviética e a Alemanha», supostamente porque Neville Chamberlain assinou o acordo de Munique em 1938.

 

Mas a parte mais preocupante tem a ver com legislação na forja, preparada pelo partido Rússia Unida do primeiro-ministro  Vladimir Putin, apoiada por Medvedev, que prevê uma pena de prisão até 5 anos para aqueles que, russos ou não, digam que a União Soviétiva ocupou a Polónia ou os Estados Bálticos ou que de alguma forma diminuam o «brilho» da contribuição soviética para a vitória aliada.

 

Mas os últimos dias têm sido fertéis em ...er... interpretações históricas criativas: ainda esta semana, apoiantes de Silvio Berlusconi lançaram uma iniciativa que pretende a nomeação do primeiro-ministro italiano para o prémio Nobel da Paz. Não estou a brincar, Giammario Battaglia, o promotor, justificou ontem o despautério ao New York Times, afirmando que a mediação (?) berlusconesca da guerra russo-georgiana «salvou» vidas humanas. Para o demonstrar aos incrédulos, a  comissão Berlusconi-for-Nobel irá isolar os factos relevantes do conflito e olhar para eles num «contexto histórico fixo». Talvez o Paulo nos explique o que cargas de água é um contexto histórico fixo, a única fixidez que vejo na história é a gargalhada na fácies dos que tenham conhecimento desta pretensão  totalmente absurda ...

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