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jugular

a religião das forças armadas (pela minha saudinha, nossa senhora me valha)

hoje, quando saí de casa para ir à loja a vida portuguesa, onde decorria uma maratona de leitura de a causa das coisas, de miguel esteves cardoso, caí no meio de uma procissão. apanhei-a nas traseiras do centro comercial do martim moniz, tentei fugir pela rua do terreirinho e apanhei-a de novo na rua do bem formoso.

 

por várias vezes os polícias -- dezenas e dezenas deles que faziam a segurança da procissão nas ruas estreitíssimas da zona, tentaram impedir-me de 'furar', ou seja, de pedir licença para passar às pessoas que acompanhavam o corpo principal do desfile, constituído, para minha enorme surpresa, por militares fardados. suponho que achavam que devia ir de helicóptero para o intendente, ou assim. mas lá cheguei ao meu destino.

 

no regresso, apanhei o fim da procissão, junto àquilo que suponho seja a ermida onde guardam a imagem, e deparei-me com o trânsito pedonal (!) barrado no acesso directo ao poço do borratém, sendo necessário ir à volta, pelo centro da praça. estariam à espera de atentados terroristas? é que só pode.

 

mas não é de todo este extraordinário aparato policial, digno da visita de um chefe de estado, que quero falar, mas do facto de a procissão ser constituída essencialmente por elementos fardados das forças armadas, para ela destacados em camionetas das ditas. vi marinheiros, paraquedistas, força aérea, e até protecção civil. perguntada uma soldada ali presente a razão da presença de toda aquela tropa, respondeu-me que era 'porque a nossa senhora da saúde é a nossa padroeira.' nossa de quem, perguntei. 'das forças militarizadas', respondeu.e mandam-vos vir? 'sim', respondeu ela.

 

não é a primeira vez -- nem será, adivinho, a última -- que fico de boca aberta com a total violação do princípio da separação entre igrejas e estado. tenho aliás bastas ocasiões para me maravilhar com a naturalidade com que se continua a tratar a igreja católica como religião oficial e com o medinho que a maioria das 'forças vivas' da nação tem de debater o assunto. mas assistir, numa altura em que supostamente se estão ou deveriam estar a contar os tostões, a tão extravagante exibição de desrespeito pelo que é de todos, a tão flagrante esbanjamento de dinheiro público (porque, obviamente, enviar centenas de militares a um desfile tem custos) a benefício de interesses privados conseguiu, confesso, espantar-me.

 

é claro que as manifestações religiosas têm toda a legitimidade; é claro que qualquer pessoa tem o direito de manifestar a sua religião e os militares não são excepção. mas aquilo a que assisti ontem nas ruas de lisboa foi a uma manifestação religiosa das forças armadas, ou seja, do estado português, com contingentes de militares fardados a desfilar em procissão, exibindo a sua pertença a uma facção religiosa. isso não só viola fagrantemente o princípio da separação como constitui utilização indevida de meios públicos por parte das chefias militares que dão a ordem para o envio dos destacamentos.

 

e levanta ainda um precedente que os militares deveriam anotar.

 

é que a lei restringe a liberdade de expressão e de manifestação dos militares. permite-lhes que participem em manifestações sem natureza político-partidária ou sindical desde que 'desarmados e trajem civilmente sem ostentação de qualquer símbolo nacional ou das Forças Armadas' ('Os militares em efectividade de serviço podem participar em manifestações legalmente convocadas sem natureza político-partidária ou sindical, desde que estejam desarmados, trajem civilmente e não ostentem qualquer símbolo nacional ou das Forças Armadas e desde que a sua participação não ponha em risco a coesão e a disciplina das Forças Armadas').

 

uma procissão religiosa é uma manifestação 'sem natureza político-partidária ou sindical'. o que quer dizer que os militares poderiam com certeza participar, mas à civil, e de motu próprio. como não foi isso que se passou, e certamente se passa há anos (desculpem, só dei por isso hoje), significa que se militares fardados entenderem participar em manifestações de outras confissões religiosas (hare krishna, muçulmanos, etc), ateias ou noutras manifestações 'não políticas' (seja lá isso o que for), por exemplo na marcha do orgulho gay estão decerto autorizados. 

 

isto dito, gostava de saber quanto custou a operação 'nossa sra da saúde' ao erário público, nomeadamente às forças armadas. e por que raio se considerou necessário um tal dispositivo policial (estariam com medo que alguém assaltasse os militares?).

 

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