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jugular

acordar o acordo, rewindzinho

Não sou propriamente uma entusiasta do Acordo Ortográfico. Na verdade, e confesso-o com alguma vergonha, já que sendo jornalista teria a dupla obrigação de me informar e de me formar, tenho sido uma resoluta ignorante em relação a tudo o que lhe diz respeito. Fiz gala de não querer saber. No Diário de Notícias deram a todos os jornalistas um livrinho com as novas regras: agarrei nele, levei-o para casa e larguei-o em cima de uma pilha qualquer de livros, sem sequer o abrir.

 

As razões deste comportamento são mais ou menos óbvias e abordadas na introdução do primeiro livro que li (realmente li) sobre o acordo, Saber Usar a Nova Ortografia, da tripla Edite Estrela, Maria Almira Soares e Maria José Leitão: é o vínculo afectivo à língua como a conheço, às palavras como as memorizei, à sua estética e contorno, mas também, admito-o, pura preguiça. Dá-me maçada reaprender grafias, parar para pensar no meio de um texto, hesitar na composição de uma frase. As palavras não se escolhem apenas pelo sentido, mas pelo seu som, ritmo, desenho. Gosto de umas e odeio outras; agora que o Acordo vai entrar em vigor e me verei obrigada a conhecer os seus ditames, odiarei umas mais e talvez me reconcilie com algumas.

 

Percebo muito bem Teixeira de Pascoaes e o seu lamento (a propósito da reforma ortográfica de 1911) sobre o fim do y em abysmo e lyrio, como me revolto por cair o p em Egipto quando, ainda por cima, se mantém em egípcio, ou me arrepio por actor, com c, deixar de o ter, ruptura passar a rutura (e assim se confundir com rotura com o) ou, incompreensível para mim, infeccioso, cujo primeiro c sempre li, ser agora infecioso. E fico irremediavelmente decepcionada por decepção passar a deceção. Sei, claro, que me habituarei: não é a primeira vez, longe disso, que a grafia muda e as pessoas se habituam.

 

Aliás, confesso que não alinho na maioria das críticas que têm sido feitas a este acordo, baseadas em simples e tacanho conservadorismo, em mero oportunismo politiqueiro ou, pior, em nacionalismos inflamados e a roçar a xenofobia que não se ensaiam em falsear os factos para tentar marcar pontos, como quando garantem que facto passará a fato quando – e isso até eu já sabia – é um facto, com C, que as consoantes não mudas não caem. Este tipo de argumentação tem a virtude de me conseguir quase reconciliar com a ideia de que vou levar mais tempo a escrever e a escolher palavras, e que vou franzir muitas vezes o sobrolho durante a leitura, indecisa sobre a correcção do que se me depara. Qualquer batalha contra o obscurantismo me conquista, e tanto mais se temo albergar em mim resquícios dele.

 

Além disso, e descobri-o ao ler este livro que é a

a minha primeira incursão na nova ortografia, há coisas no acordo que me agradam. Muito. Por exemplo, o fim das maiúsculas em várias denominações. Sua feroz adversária e sobretudo da respectiva utilização como certificado de importância e vénia (nunca percebi por que motivo governo, ou presidente, ou cardeal haviam de ostentar maiúscula), aplaudo a novidade com entusiasmo. E constato que há várias outras alterações que fazem sentido, tanto porque não havia já realmente justificação para a anterior grafia, como porque simplificam a escrita e diminuem a possibilidade de erro (e nesse sentido gostaria que se tivesse ido mais longe nos hífenes, sem dúvida uma das maiores complicações da língua portuguesa).

 

Não será alheio a esta minha descoberta o facto do livro em causa explicar, de forma muito simples e fácil de apreender, as alterações, dando delas vários exemplos e não se detendo em justificações muito elaboradas de teoria gramatical.

Talvez porque as autoras saibam que há muita gente como eu, que aprende gramática intuitivamente e não por empinanço, pessoas preguiçosas que só querem que lhes façam a papa e não as macem muito com coisas que, por definição, já as maçam bastante.

 

E pronto: só falta render-me. Ainda não foi desta – nem eu nem o meu Mac instalámos no disco esta nova aplicação – mas lá irá. Iremos todos. Que remédio. Até porque se, como Pessoa, vejo no português a minha pátria, posso dizer, como alguém disse do seu país, a minha língua, certa ou errada.

 

(publicado na coluna sermões impossíveis da notícias magazine de 2 de outubro de 2011)

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