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jugular

as marias joões marques, o daesh, o padre degolado, a esquerda e a minha culpa

desde que a pessoa que dá pelo nome de maria joão marques ameaçou revelar pormenores da minha vida privada que lhe teriam chegado por uma vizinha minha que decidira, num acto de pura higiene, nunca mais tomar conhecimento da existência da dita, por mais que esta, demonstrando uma renitente fixação em mim, me mencionasse nos seus prolixos escritos, agora difundidos no observador.

mas hoje fizeram-me chegar um seu texto no dito jornal digital em que a criatura escreve isto:

'Já Fernanda Câncio, que funciona como uma espécie de definidora de tendências da esquerda socialista (por quem é absolutamente reverenciada, talvez pela sua destemida defesa das mais absurdas e ruinosas políticas socráticas), reagiu. Dizendo no twitter que uma notícia, dando conta do reconhecimento de que os atacantes de Rouen eram tropa do ISIS, era ‘fazer a propaganda do Daesh’. Como se trata de uma jornalista – pelo que se pode presumir que vê como um bem as populações estarem informadas do que de relevante se passa no país e no mundo – que, tanto quanto sei, não sugeriu a sonegação de informações sobre os atentados de Orlando, Nice, Paris ou Bruxelas, ficamos desconfiados que o desconforto repentino com as notícias da brutalidade do ISIS se deve à qualidade de religioso católico do degolado e não à seita de assassinos islâmicos.'

dou de barato que a capacidade neuronal da autora não lhe permita perceber que o intuito do daesh é apresentar-se como omnipresente e omnipotente inimigo global usando o sistema mediático das sociedades ocidentais e a respectiva histeria noticiosa como veículo de propaganda -- no que está a ser, como terá previsto, incrivelmente bem sucedido. e que a supracitada debilidade aliada à ignorância e sobretudo ao intuito demagógico a impeçam de reflectir sobre a forma como a propagação acéfala do poderio do daesh está a contribuir para esse mesmo poderio e para contaminar cada vez mais gente e alimentar cada vez mais imitações dos actos de terror. e decerto não vou perder tempo com a caracterização que é feita sobre mim. 

mas escrever, num texto intitulado '(des)culpa ateia', 'que, tanto quanto sei, [fernanda câncio] não sugeriu a sonegação de informações sobre os atentados de Orlando, Nice, Paris ou Bruxelas, ficamos desconfiados que o desconforto repentino com as notícias da brutalidade do ISIS se deve à qualidade de religioso católico do degolado e não à seita de assassinos islâmicos' ultrapassa aquilo que estou preparada para aturar em silêncio. esta imputação de que eu estaria 'desconfortável' com o facto de ser noticiado que um padre foi degolado pelo daesh e que seria esse desconforto a levar-me a reflectir sobre o modo como se tem reagido no ocidente aos ataques é tão repelentemente abjecta que não pode passar em claro.

desde logo, o que não surpreende dados os antecedentes da pessoa, maria joão marques mente. basta procurar, e nem sequer muito, no meu twitter -- que é público e portanto de acesso universal -- para encontrar tuites anteriores sobre as minhas reservas à atribuição instantânea de actos de terror ao daesh (o que, obviamente, não é o mesmo que 'sonegar informações'). e não dá trabalho nenhum, é só chegar ao twitter e fazer busca por 'fcancio+daesh'. acresce um pormenor delicioso, que aliás explica que maria joão marques não tenha querido lincar o tuite que refere: trata-se de um retuite meu de uma notícia sobre o discurso de hollande, ou seja, de uma crítica minha, aliás não a primeira, à forma como o presidente francês, que recordo aos distraídos ser do partido socialista, tem mordido o anzol em matéria de ataques de terror.

a maria joão marques, naturalmente, não lhe interessam minimamente  estes 'pormenores', ou o que seja a verdade (aliás, em eco de pilatos, perguntará: 'o que raio é a verdade e de que é que isso me serve?'); só uma coisa a anima neste texto como na generalidade do que escreve: ódio. 

para maria joão marques, como para tanta gente como ela, os actos de terror que se têm sucedido e este acto em particular, por ter um padre como vítima e uma igreja católica como palco, são oportunidades para atacar aquilo a que ela chama 'a esquerda', 'os ateus', 'os jacobinos' e, como se constata, esta vossa criada que tanto lhe inflama as meninges. a ideia é simples e nada original (é ver a linha trump-le pen): usar o daesh e o medo como trampolins para avançar nos seus propósitos políticos, tentando apresentar 'a esquerda' como culpada/cúmplice/comprometida/amedrontada do e com o terrorismo dito islâmico e apontando qualquer apelo à reflexão e à moderação das simplificações como 'pusilânime' e 'tentativa de escamotear a gravidade da ameaça'.

tudo isto seria apenas tristemente cómico não fosse dar-se o caso de estarmos a falar da morte de pessoas, e de uma organização que claramente visa provocar nem mais nem menos que estas reacções; se não fosse este discurso odiento, que encontramos por exemplo, et pour cause, na retórica de um breivik, que melhor se adequa aos propósitos de daeshs e al qaedas. 

em vez de olhar para a morte deste padre como uma evidência, face à identidade de todas as outras vítimas reivindicadas pelo daesh, de que toda a gente -- incluindo muçulmanos, de longe o grupo com maior número de mortos e feridos causados pelos ataques da organização -- é alvo, as marias joões marques gritam estridentes 'olha um padre morto e a esquerda não diz nada.' 

como todos os que dizem e escrevem o que ela diz e escreve, e que saltam a qualquer notícia sobre ataques violentos com o daesh na boca, maria joão marques faz, com indisfarçável orgulho, parte da primeira linha de propaganda do auto-denominado estado islâmico -- os idiotas mais idiotas da utilidade mais tenebrosa. a utilidade que começa por fazer das pessoas 'tipos' e 'categorias', que é o mesmo que fazer delas coisas. que, como no texto de maria joão marques, nega ao homem assassinado até o seu nome, para o reduzir a uma função simbólica, a de servir de munição para atacar 'a esquerda'.

a pessoa que foi assassinada em rouen tem nome: jacques hamel. as notícias e perfis dizem que era um homem de paz, e que se interessava por promover o diálogo - entre religiões, nomeadamente com a islâmica, e entre as pessoas em geral. estou em crer que ficaria muito triste se soubesse que a sua morte é usada em discursos de ódio como o da auto-denominada cristã maria joão marques, instrumento simbólico na sua pena como o foi na faca dos seus matadores. 

mas isto sou eu, ateia de esquerda, a dizer. se calhar sou culpada de ter como único sagrado as pessoas e a vida e de me meter muito asco a instrumentalização do terror e da morte para atacar adversários políticos. 

 

 

 

4 comentários

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    f. 28.07.2016

    'se bem entendi', diz o josé. aconselhar-lhe-ia rever essa asserção, se o seu intuito fosse de facto entender. mas, já agora, onde é q usei 'galhardamente a pena' para 'denunciar' o atentado de orlando? não q este não merecesse ser 'denunciado', naturalmente, como todos os ataques de terror. mas por acaso ñ m lembro de ter escrito nenhum texto sobre o assunto. refresque-me a memória por favor.
  • Sem imagem de perfil

    José 28.07.2016

    Confesso que não sigo as suas opiniões, na verdade vim parar aqui por indicação de um amigo, sobre a sua reacção à opinião da Maria João.
    Não sei se se pronunciou sobre o caso de Orlando, mas toda a área ideológica onde se situa, trombeteou a sua indignação. Até o 1º ministro falou alto e bom som sobre o "ataque homofóbico".   Presumo que a FC tenha discordado vivamente dessa  publicidade dada ao atentado, a avaliar pela sua concepção de culpa, mas a verdade é que, numa breve pesquisa, não encontrei nada. Esta sua súbita inclinação pela censura parece ter sido uma espécie de epifania recente. E faz lembrar, desculpe lá a referência, uma obra de um tal Eric Blair, sobre o newspeak de um pais imaginário chamado Oceania. Basicamente, a ideia é a de que  que não é dito não é pensado e o que não é pensado não existe.  Mais ou menos como as avestruzes.
  • Sem imagem de perfil

    Susana 29.07.2016


    "sabem uma coisa? nao fui je suis charlie, e nao serei je suis gay. nao tenho nada contra quem o diz, e percebo q as pessoas sintam necessidade disso. mas o q sinto é sobretudo - e já o fora assim em março em bruxelas - um cansaço triste.


    não era preciso atacarem uma discoteca gay para sabermos q os gays - e custa-m sempre e cada vez mais à medida q o tempo passa usar esta palavra por ser tao redutora - seriam sempre alvo privilegiado. ate porq sempre foram e continuam a ser mesmo dentro daquilo a q chamamos os 'valores ocidentais'. 


    se esta tragedia servir para alguma coisa (se tragedias podem servir para alguma coisa) é para sublinhar o obvio: q nao é possivel defender a liberdade e aquilo a q chamamos 'o nosso modo de vida' sem perceber q isso implica respeitar e defender os direitos das pessoas lgbt. perceber q a homofobia assassina é uma das caracteristicas destes energumenos devia servir para todos pensarem no q é realmente e de
    onde vem
    a homofobia. se querem fazer parte disso q inclui o daesh ou se querem resistir-lh e combatê-lo. como disse bush no pos 11 de setembro - e em alguma coisa bush acertou - ou estamos com eles ou estamos contra eles. e estar contra eles implica estar, lado a lado, costas com costas, com as pessoas lgbt.


    (ah, e orlando, lembram-s?, é o nome da personagem de virginia woolf. voltaire em paris, e agora isto. how literary of daesh)."


    Acho que a FC já não se lembra deste post que publicou no próprio Facebook. E acho também que se precipitou ao falar do Daesh, que afinal nada teve a ver com este atentado cometido por um gay reprimido e muito desajustado, que foi humilhado por outros gays com quem se tinha relacionado. 
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