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jugular

contar a morte, descontar a vida

muito comovente ouvir recitar, por céu guerra no congresso do ps, o nome das mulheres assassinadas este ano.

 

mas estou tão cansada de momentos simbólicos sem consequência, de ramos de flores e poemas marejados de lágrimas que só sublinham a indiferença e a continuação do costume do resto do tempo.

 

olho para o secretariado nacional e vejo uma esmagadora maioria de homens. olho para a prática legislativa e vejo o ps a defender que o assédio sexual, evidência quotidiana da violência e da menorização das mulheres, da certificação de que o espaço público é masculino e que as mulheres nele se devem aventurar sempre a medo e sob ameaça (em que cores será preciso fazer um desenho para se perceber que isso condiciona todo o percurso das mulheres na esfera pública?), 'não tem dignidade penal'.

 

as mulheres são mortas, e tantas, porque vivemos num país que as desconsidera quotidianamente, que nem sequer reage quando um pr vai a um país onde as mulheres têm um estatuto legal de inferioridade fazer publicidade a portugal como tendo 'cavalos e mulheres bonitas'. não ouvi uma palavra -- houve? -- em todo o congresso do ps, e muito menos no discurso de costa, sobre essa obscenidade. se calhar não repararam.

 

só reparam na morte? a morte não tem remédio. é na vida que temos de reparar, e agir. porque só isso pode evitar a morte, real e simbólica, das mulheres.

 

nota: acabam de me dizer no twitter que alegre criticou a nojeira de cavaco. menos mal. mas a ausência de ligação entre o que cavaco disse -- e cavaco, por mais que isso pareça incrível, é o representante mais alto do sistema político -- e a lista das mulheres mortas, como com toda a desconsideração e agressão quotidianas de que as mulheres são alvo, é o essencial da cegueira. um país que assiste com um sorriso ou encolher de ombros ou, pior, com total 'normalidade' ao que cavaco disse não pode surpreender-se com ter 34 mulheres mortas este ano ou noutro ano qualquer. enquanto isso não for entendido, enquanto não se perceber que esta cultura de insulto permanente é a cultura em que o homicídio de mulheres por serem mulheres floresce, nunca saíremos daqui. 

 

nota 2: ontem à noite soube que a presidência tinha desmentido a referência a mulheres, bonitas ou não, no almoço de 27 em abu dabhi, e que a sic assumira ter havido 'um mal entendido'. ao mesmo tempo, soube que a intervenção de cavao no almoço está no site da presidência e fui ver. em vez de referência a mulheres bonitas, oiço (em inglês) referência a paisagens bonitas. portanto, um repórter, aparentemente, terá feito confusão entre women e landscapes, o que já de si é extraordinário, e só deu pelo facto passados três dias? mais extraordinário ainda, a presidência da república, perante a reportagem da sic e a imediata reacção nas redes sociais (onde a pr está e onde não colocou até agora qualquer desmentido), não achou necessário reagir durante três dias? e nos media nacionais nenhuma reação (de monta, pelo menos) a tal barbaridade?o desmentido de cavaco, aliás, só surge depois de alegre ter referido criticamente a coisa no seu discurso no congresso. a única explicação para tudo isto é óbvia: se cavaco não disse, nem a presidência nem a sic nem o resto dos media e comentadores sortidos achou impossível que o tivesse dito ou que isso tivesse qualquer gravidade. o facto aliás de ninguém ter duvidado de que cavaco pudesse ter dito aquilo, mesmo entre as pessoas que consideram inadmissível tal coisa na boca de um presidente, diz tudo sobre o que se pensa de cavaco (et pour cause) mas também sobre a cultura generalizada de machismo -- ou seja, de absoluta falta de respeito pelas mulheres -- em que estamos todos mergulhados. 

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