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jugular

da miséria

Há muito tempo que não lia uma coisa assim. Julgava, aliás, na minha ingenuidade pequeno-burguesa de esquerda, que não era possível publicar-se tal coisa no Portugal de 2015. Falo da crónica de Gabriel Mithá Ribeiro de hoje. Numa palavra: ninguém pode discorrer sobre pobreza e discriminação, a menos que a tenha vivido. Como o autor. Para prová-lo, desenrola a sua biografia, desde os antepassados até à sua situação atual, uma ascenção feita a pulso com trabalho e esforço ("ninguém me estendeu a muleta do coitadinho, ninguém me viciou na ideologia dos subsídios"). Hoje, usufrui orgulhosamente de uma bolsa de pós-doutoramento que lhe rende 1495 €, dos quais 1/3 servem para pagar o colégio de um filho. Conclui: "Vivo, portanto, numa invejável abundância financeira". Nos comentários há gente a dar os parabéns pela  "lição de vida". Para mim, é apenas um patético exercício de vaidade, quase constrangedora de ler.

GMR não fala da pobreza e da discriminação racial em Portugal. Prefere falar de si, naquela postura soberba, tão comum e tão fácil, de mostrar com orgulho vaidoso como escapou a tudo isso, enquanto outros (entre eles um "português branco", como não deixa de especificar com inegável desdém) permaneceram na pocilga e, se dela saíram, foi graças a subsídios e outras "dependências parasitárias". Se tivessem trabalhado e estudado - como o autor - tudo teria sido diferente, pois "a sociedade portuguesa sempre colocou à disposição deles e minha salas de aula e possibilidades de trabalhar". Está explicado, em duas penadas, o alegado fenómeno da pobreza em Portugal, cuja veracidade, parece-me, o autor duvida fortemente.

Mas o principal alvo do texto não são os pobres. São os que falam da pobreza e que opinam sobre ela, a trazem para a agenda mediática ou tentam ganhar votos à sua custa. Por dizerem e proporem coisas falsas, erradas, demagógicas? Não: porque não a sofreram - diz o autor - na pele. Mais claro não se podia ser: "era útil que as elites políticas, muito em particular as de esquerda (socialistas, comunistas, bloquistas e demais), fossem relatando as suas experiências de vida". Alguém em concreto? Claro: entre outros, "D. Januário Torgal Ferreira, Bagão Félix, Francisco Louçã, António Costa, Ferro Rodrigues, Jerónimo de Sousa, Isabel Moreira, Jacinto Lucas Pires, João Semedo, Jorge Sampaio, Carvalho da Silva, Pacheco Pereira, Catarina Martins, Rui Rio, Frei Bento Domingues, Sampaio da Nóvoa, Mário Soares, Daniel Oliveira, Mário Nogueira, Joana Amaral Dias, Bruto da Costa, Nicolau Santos, Sérgio Godinho, Rui Tavares, Pedro Abrunhosa, Heloísa Apolónia, Silva Peneda". Ouviram? Isso mesmo: quem fala dos pobres tem que provar que já o foi. Presumo que os apologistas da retomada e da austeridade cor-de-rosa, os Passos Coelho e Portas, os Mota Soares e seus secretários de Estado, os César das Neves e os Fernando "Aguenta" Ulrich, estejam isentos de tal prova. Só os que se dizem que a pobreza em Portugal é um flagelo. Portanto, toca a descascar a vida daquela gente, quiçá fazer um gráfico e uma árvore genealógica de cada um, a ver quanta fome passaram, quanta discriminação sofreram, que dificuldades (sem "muleta do coitadinho" ou "ideologia dos subsídios", claro) enfrentaram. Depois, um atestado a cada um, que lhes permitirá, agora sim, falar com conhecimento de causa. Enquanto isto não é feito - ou seja, enquanto os (alegados) pobres não têm portavozes devidamente credenciados - como se fazem ouvir? Não fazem, deduzo. Como diz GMR, quem tem (ele diz "teve", mas imaginemos que ainda exista alguém assim nos dias de hoje) de viver na miséria é recatado e silencioso enquanto não escapa a esta condição. Logo, quem é pobre não fala porque tem vergonha, quem o não é não sabe o que diz, e quem tem créditos no assunto (como GMR) emite uma espécie de vai trabalhar, malandro! Estamos conversados sobre o que é o Portugal de 2015, não estamos?

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