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jugular

da subtil arte da persuasão

Imaginemos um utente do SMAS de Sintra que tem aversão aos "débitos diretos". Por exemplo, eu. E que uma das regulares cartinhas de aviso de pagamento se extravia. Pode acontecer, não é? Os carteiros enganam-se, por vezes, nas ruas, nos números e há várias etapas desde que a cartinha é remetida até que dá entrada na caixa de correio que estão sujeitas a contingências deste tipo. Nada demais. Uma vez recebi uma da TMN a dizer que, bom, não paguei, pronto, pronto, por esta escapa, como não tinha historial de dívidas concederam-me o benefício da dúvida e enviaram-me 2ª via, vá lá, vai com Deus e não peques novamente.

Ora, o SMAS de Sintra utiliza uma estratégia muito mais eficaz. Nada de benefícios de dúvida: se não paguei é porque rasguei a carta enquanto dava gargalhadas de caloteiro que esbanja água à conta da comunidade de contribuintes e gente honesta. Portanto, para quê rodriguinhos inúteis? É melhor assim: uma 2ª carta, sim (a lei a tal deve obrigar, malditos burocratas), mas intitulada "Aviso de Corte". Logo para aperitivo. E depois, despejar logo o carregador todo de rajada para que não restem dúvidas. Começa por um simpático - mas enganador - "Estimado (a) Cliente, Lembramos V. Exa que estão por pagar (...)". É, portanto, um lembrete de estima. Tanta, que nem omite que são devidos "juros à taxa legal em vigor". Ainda embalado pela simpatia com que é tratado, o munícipe (aqui curiosamente tratado por "cliente"), recebe logo tratamento de choque, nos seguintes termos:

1. "(...) seremos obrigados a suspender o fornecimento" se a dívida não for paga. Entenda-se: o SMAS nem queria, mas é a isso obrigado.

2. "O restabelecimento do fornecimento só será efetuado mediante o pagamento da(s) fatura(s) em dívida e do serviço de fecho e abertura de água no valor mínimo de 45 €", + IVA. Portanto, o SMAS assume logo que, se não paguei, não pagarei.

3. Se ainda assim nada feito, "ver-nos-emos obrigados" (adoro estas vozes passivas) "a rescindir o contrato de fornecimento e a cobrar coercivamente a referida dívida, com todos os incómodos e despesas que, por esta via, pretendemos evitar". Fico sensibilizado por alguém zelar por mim e querer poupar-me a tais coisas.

4. "O custo relativo à emissão deste aviso ser-lhe-à imputado e constará da próxima fatura". Agora lembrei-me das execuções na China e da imputação do custo da bala à família do condenado, porque será?

5. Por fim, informa que "a manipulação não autorizada da Válvula de Seccionamento de Ramal" leva a contra-ordenação com coima entre 1500 e 3740 €. Bazucada final. Just in case.

Termina com um "agradecemos a sua melhor colaboração". Ora, não têm nada que agradecer, por quem sois, sempre às ordens, eu é que agradeço não me terem mandado um buldozzer arrasar-me a casa e levar-me a família toda acorrentada de pés e mãos para as galés.

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