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Devemos proibir os lisboetas de doar sangue? pelo Pedro Morgado

A propósito da recente polémica sobre as doações de sangue, João Miguel Tavares publicou um texto que, pela importância do tema, convém esclarecer.

Pergunta o autor se "há razões médicas legítimas para considerar os homossexuais masculinos um grupo de risco". A resposta é clara: não há. Mas João Miguel Tavares tenta demonstrar que sim e, para isso, confunde repetidamente orientação sexual com comportamento sexual, generaliza sobre os comportamentos sexuais, selecciona dados acerca dos casos de novas infecções para favorecer a sua hipótese e, com tudo isso, contribui para a discriminação de um grupo já severamente discriminado e para a difusão de ideias erradas acerca das vias de transmissão do HIV.

A noção de "grupos de risco" há muito foi abandonada e substituída pelo conceito de comportamentos de risco. Em primeiro, ser homossexual é uma coisa bem distinta de ser "homem que tem sexo com homens". Em segundo, ser homossexual não constituiu risco absolutamente nenhum de contrair HIV porque o risco advém de determinados comportamentos e não da orientação sexual. Em terceiro, a prática de sexo anal passivo desprotegido (que é um comportamento de risco para contrair a infecção) não é exclusiva dos homossexuais.

Acho muito curioso que João Miguel Tavares, não tenha descoberto nas suas pesquisas uma estatística muito relevante: em 2013, a taxa de novas infecções em Lisboa era de 52,6/100.000 hab contra uma média nacional de 13,6/100.000 hab. Se levarmos à risca a ultrapassada teoria dos "grupos de risco" de João Miguel Tavares, então o grupo dos lisboetas também devia ser proibido de dar sangue dado que apresenta um risco de contrair HIV muito superior (quase 5 vezes superior) à média nacional.

Qualquer leitor compreenderá que chamar aos lisboetas um "grupo de risco" é inequivocamente ineficaz e absolutamente disparatado, eliminando sangue "seguro" de dadores lisboetas sem comportamentos de risco e incluindo sangue "inseguro" de habitantes de outras regiões do país com esses comportamentos. É por isso que a avaliação do risco deve basear-se no perfil de comportamentos de cada indivíduo e não na assunção preconceituosa de que o HIV diz respeito a um grupo específico de pessoas.

Acreditamos que o João Miguel Tavares conseguirá reconhecer o disparate de se chamar aos lisboetas um "grupo de risco" embora seja isso que a leitura das estatísticas que ele advoga nos diz. Só não sabemos porque é que tem tanta dificuldade em aceitá-lo no que respeita aos homossexuais.

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