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jugular

E um estrelinha na lapela, ou um "c" de culpa ou de cabra, ou um "v" de vaca, ou... não?

Repesco o que já escrevi sobre a obrigatoriedade da mulher que vai fzer uma ivg ver a ecografia.

Na base de qualquer actividade clínica está a relação terapêutica, cujas características ético-deontológicas estão claramente definidas.

 

A vertente informativa, não directiva e facilitadora da escolha está inerente a qualquer consulta médica desenvolvida com base no modelo biopsicossocial, em particular se o acompanhamento clínico é feito no contexto de uma equipa multidisciplinar e com possibilidades de se desenvolver por etapas - como é, claramente, o caso da interrupção voluntária da gravidez feita por opção da mulher. Nesse contexto, e assumindo que não compete à classe médica determinar as atitudes e regras de qualquer Estado ou comunidade, não posso deixar de sentir como lesivas quaisquer determinações legais que interfiram com o modo como se desenrola a normal relação terapêutica, sobretudo quando se pretende estandardizar o que deve, ou não, ser dito àquela mulher em particular, e como deve ser dito.

 

A ecografia é uma técnica imagiológica não invasiva que, através da emissão de ultrassons, permite a visualização dos órgãos ou massas internas com fins diagnósticos. É, portanto, um meio auxiliar de diagnóstico, amplamente usado em medicina.

 

No que à IVG diz respeito, e de acordo com a actual lei, ela é utilizada para datar a gravidez e saber se ela se inclui na moldura legal das dez semanas. - número 7 do artigo 142º do CP: "Para efeitos do disposto no presente artigo, o número de semanas de gravidez é comprovado ecograficamente ou por outro meio adequado de acordo com as leges artis.".  Subsidiariamente, pode servir também para revelar algum problema clínico e, em particular, fornecer informação médica adicional sobre a viabilidade da gravidez. Parece-me medicamente correcto que toda esta informação deva ser passada à mulher, usando uma linguagem e uma atitude adequadas a cada caso, sempre no sentido de elucidar, informar e apoiar aquela que vier a ser a decisão última daquela mulher que está a ser "ecografada" – sim, porque é da mulher que estamos a falar, não da técnica imagiológica. Se, nalgum momento, essa mulher particular pedir para ver a ecografia, defendo que lhe seja mostrada, de contrário não vejo razão para o fazer.

 

Quando alguém me conseguir explicar de que maneira a visualização da imagem ecográfica configura uma informação relevante para a formação da decisão livre, consciente e responsável da mulher que pondera abortar mudarei, de imediato, a minha opinião. Enquanto isso não acontecer, continuarei a entender que tal prática não tem quaisquer mais valias médicas ou informativas. Acrescento mesmo, para ser completamente honesta, que forçar uma mulher a olhar para uma ecografia é, na minha opinião, não só eticamente reprovável em termos médicos, como invasivo, abusivo e perverso em termos humanos. Em última análise, consubstancia uma forma de abuso de poder por parte do clínico que vai contra o mais elementar princípio da relação terapêutica: a salvaguarda da saúde do indivíduo.

8 comentários

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    Ana Matos Pires 25.06.2015

    Já várias vezes expressei a minha posição em relação ao assunto "taxas moderadoras" na IVG, aqui  p ex. Faço notar, contudo, que o que está em causa no princípio da taxa moderadora é "moderar a ida a um estabelecimento de saúde quando tal não se justifica", o que não é de todo o caso na ivg: a ida da mulher ao estabelecimento de saúde autorizado para que a lei seja cumprida justifica-se por razões de saúde, mais exactamente por razões de saúde pública.


    Discordo da "licença de parto", penso que um certificado de incapacidade temporária para o trabalho em casos clinicamente justificáveis, com a duração adequada a cada caso, resolveria o problema. 
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    Joaquim Amado Lopes 25.06.2015

    De que forma é que "por opção da mulher" é uma questão de saúde pública?
    "a ida a um estabelecimento de saúde quando tal não se justifica" tem a ver com razões médicas. A gravidez não é uma doença e o aborto não é um tratamento.
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    Joaquim Amado Lopes 26.06.2015

    Ana Matos Pires,

    A gravidez NUNCA é uma doença. Pode levar a complicações médicas mas a gravidez em si não é doença. E as vacinas podem, no limite, ser usadas para estabelecer uma analogia com a contracepção no caso de adolescentes ou mulheres com condições médicas que desaconselhem a gravidez mas nunca com o aborto.

    De qualquer forma, estamos a falar do aborto "por opção da mulher". Ou seja, estamos a falar especificamente das situações em que não se coloca de todo qualquer razão médica, pelo que falar em defesa da saúde pública não faz qualquer sentido.


    Quanto à "comichão que faz o ser 'por opção da mulher'", não deveria ser assim tão difícil de entender que a gravidez envolve mais do que a mulher grávida. Envolve também um homem e um feto.

    A Ana Matos Pires pode equiparar o feto a uma excrescência a evoluir dentro do corpo da mulher mas, para muitas pessoas, o feto é mais do que isso. Não podendo ser comparado a um ser humano completamente desenvolvido, deveria ser merecedor de protecção.


    A "comichão" deriva de o "por opção" reduzir o valor de uma vida humana em formação a nada. Mesmo que isso não lhe diga nada, o ser "por opção da mulher" (sem quaisquer razões médicas que o justifiquem) deveria no mínimo levá-la a aceitar que essa "opção" não tem nada que ser suportada pelos contribuintes.

    E assumo que, coerentemente com a sua defesa do "por opção da mulher", a Ana Matos Pires defenda também que nenhum homem que engravide uma mulher deva ser obrigado a suportar financeiramente a opção da mulher por levar a gravidez até ao fim. Afinal, se a decisão de interromper ou continuar a gravidez é única e exclusivamente da mulher, o homem não é de todo responsável pelo resultado dessa decisão.

    Pelo que me diz respeito, discordo da Ana Matos Pires nas duas matérias.






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    Ana Matos Pires 26.06.2015

    Errado, a gravidez pode ser uma doença, um exemplo é o caso de uma mola hidatiforme ou um ovo branco. A comparação é para o pagamento do acto clínico, ponto.
    O importante não é que haja ou não uma razão médica para a realização da interrupção da gravidez, o importante é que fazer alguém abortar é um acto médico. Naturalmente que uma das razões pelas quais era absolutamente necessário despenalizar a IVG tinha a ver com questões de segurança e de saúde pública.
    Para o resto das questões foi peditório para o qual já dei, e ganharam as mulheres portuguesas.
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    Joaquim Amado Lopes 26.06.2015

    Mola hidaforme é um problema clínico que, benigno ou maligno, pode resultar da gravidez. O ovo branco é também um resultado possível de uma gravidez. Não ocorrendo gravidez nenhum dos dois poderia ocorrer mas a "doença" não é a gravidez.

    As cirurgias plásticas também são actos clínicos, tal como a aplicação de botox ou os implantes capilares. Devem todas as cirurgias plásticas, aplicações de botox e implantes capilares ser pagas pelos contribuintes, mesmo quando não há qualquer razão médica que o justifique, apenas uma opção pessoal motivada na esmagadora maioria das vezes por vaidade?

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    Ana Matos Pires 27.06.2015

    A gravidez pode tornar-se uma doença, é só esse o ponto.


    Se quer saber a verdadeira comparação é com o aborto espontâneo, como faz o CRS aqui http://www.abola.pt/mundos/ver.aspx?id=556933 (essa de comparar "vaidade" com interromper uma gravidez nem comento) 
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    Joaquim Amado Lopes 27.06.2015

    "A gravidez pode tornar-se uma doença, é só esse o ponto."

    Não, não pode. Da mesma forma que saltar de um banco não se pode tornar uma perna partida, comer frango não se pode tornar uma intoxicação alimentar e conduzir acima do limite de velocidade não se pode tornar numa multa.

    A gravidez pode conduzir a uma doença. Não pode tornar-se uma doença.


    E a referência à "vaidade" tinha a ver com reconhecer que nem todas as cirurgias plásticas, aplicações de botox e implantes capilares são motivados pela vaidade.


    "ah, esqueci-me de lhe responder à questão do homem que não é perdido nem achado na decisão de continuar uma gravidez, tendo a concordar com o que refere, sim."

    Fiquei sem perceber se acha que o "homem que não é perdido nem achado na decisão de continuar uma gravidez" deve ser obrigado a suportar financeiramente o resultado da decisão da mulher em levar a gravidez até ao fim ou se acha que não deve.

    Gostaria que fosse esclarecida esta última questão mas de resto creio que esta troca de ideias já não tem mais por onde avançar.

    Fique bem.


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