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jugular

em jeito de aditamento

Sempre achei que a História tem mais a ver com o presente do que com o passado. A História-ciência, evidentemente. O passado está lá, inacessível e irrepetível, espécie de figura da Alegoria da Caverna de Platão, da qual nós, presos pelas amarras do tempo, apenas vemos sombras. É a partir dessas sombras que tentamos reconstituir, entender e tornar real algo que se perdeu e que já não existe. No livro lancei mão, a certa altura (e a propósito de Camões em Macau) da metáfora do Jurassic Park e dos dinossauros ressuscitados a partir de material genético de rã, que tapa os "buracos" do ADN obtido no mosquito fossilizado (conhecem a história, não preciso repetir aqui). Em História, as nossas preocupações presentes são o "ADN de rã" que nos permite teorizar sobre o passado e tornar coerentes relatos, testemunhos, vestígios documentais.

Também sempre tive a perceção de que o cinema é um meio privilegiado de deteção desse "ADN de rã", não ao nível da fundamentação teórica de autores e escolas historiográficas, mas do senso comum. No livro, faço eco desta preocupação, ora de forma pertinente (sobre filmes "históricos"), ora de modo mais ou menos disparatado, usando o cinema como mero pretexto ou paralelo para melhor levar o leitor a entender onde quero chegar. E que vem isto a propósito? de uma obra que me escapou, que só vi ontem, e que, portanto, não tive oportunidade de utilizar. Com pena, confesso. Trata-se de "Também a Chuva", produção hispano-mexicana sobre uma equipa que prepara a rodagem de um filme, na Bolívia atual, sobre... Colombo. E que se vê confrontada com a agitação social decorrente da "privatização da água", naquele país (a "guerra da água" em Cochabamba). Os olhares paralelos sobre a brutalidade dos conquistadores espanhóis e a situação atual dos "índios" são muito interessantes, irónicos, reflexivos. Nunca há cedência à "consciência pesada pós-colonial espanhola" nem apologia gratuita dos "colonizados". E há umas ironias amargas. A melhor cena é, de longe, a passada no palácio: os espanhóis são recebidos pelo presidente do município e temem que a turbulência nas ruas faça encalhar as filmagens. "Nada temam", é a resposta. Mas, como bons europeus [paternalistas] que são, dão conta das suas preocupações "sociais", que a água irá subir muito, que a população é pobre, e que 2 dólares de rendimento diário médio é uma miséria. Responde o presidente: "2 dólares... é o que vocês pagam aos atores e figurantes daqui, não é?". O discurso não é moralista, nem heróico, nem unívoco. E os laços entre os últimos anos do século XV e a atualidade são colocados de forma inteligente e irónica. Dolorosa, também. Já não há uma elite de barbudos estrangeiros que impõem a sua lei pela força, há um regime policial (ainda que democraticamente eleito, como se ouve, a certa altura, na televisão) que privatiza um bem essencial ao serviço de multinacionais (estrangeiras) e que lança sobre o povo que protesta o anátema dos "agitadores que querem derrubar o governo constitucional".

No final, dei por mim a pensar como seria bom, um dia, algo idêntico ser feito por portugueses (em produção luso-angolana, por exemplo), sobre o seu passado colonial... e a atualidade, evidentemente. Mas, vá lá saber-se porquê, esse dia parece-me ainda longínquo.

(em estereo)

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