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entusiasmos juvenis

Conheço a Praia das Maçãs desde os 10 anos. Passei lá praticamente todas as férias durante um quarto de século. Vivi num local a poucos metros (sim, poucos, para não dizer "mesmo ao lado") de uma "coisa" que então ninguém por ali sabia o que era ("um cemitério medieval" era a versão mais comum) e que é uma necrópole pré-histórica, com vários horizontes (o mais antigo pode remontar aos inícios do 4º milénio a.C.). Mas algo mais misterioso despertou a minha atenção mais recentemente (digamos, há uns 20 anos), ao ler "Da Fábrica que Falece à Cidade de Lisboa", de Francisco de Holanda: conta o autor que o infante D. Luís (irmão de D. João III) mandou-o chamar a Lisboa e ambos visitaram a serra de Sintra, tendo chegado a um "pequeno outeiro" "junto à foz do rio de Colares", onde estava "um círculo ao redor cheio de cipos e memórias dos imperadores de Roma que vieram àquele lugar; e cada um punha um cipo com seu letreiro ao Sol Eterno e à Lua, a quem aquele promontório foi dos gentios dedicado". E junta um desenho. Nas notas da edição que li (Liv. Horizonte, 1984) estão transcritas impressões de Jorge Segurado, de 1970, que transcreve registos posteriores e dão conta de nada existir no local (pp. 90-92).

Andei, durante muito tempo, a congeminar ideias sobre a incógnita: localização errada e imaginação fértil do autor eram as mais comuns. Foi-me sugerida a hipótese de o terramoto de 1755 ter causado danos na região ou alterado a configuração da costa por ali. A imagem do círculo com 12 cepos pode ser vista em gravuras de Sintra do século XIX, "tiradas do natural", que faziam certamente eco difuso daquela imagem. Uma visita ao Museu de Odrinhas, há uns 10 anos, aquando de uma sessão de "reconstituição histórica" avivou-me o interesse, mas as conversas que tive com funcionários foram inconclusivas: havia vestígios e suspeitas, mas nada de concreto se sabia.

Subitamente, há uma semana, deparei com isto. Fui lá de imediato, na sexta feira passada, no final de uma tarde de praia. Lá está ele. Felizmente que o acesso pela praia não é muito fácil, porque tremo de pensar no que aconteceria se o fosse.

Fotografia0955.jpg

Depois, verifiquei que já fora noticiado na imprensa, há quase 2 anos, e que os trabalhos arqueológicos iniciaram-se há 8, depois de cinco séculos de esquecimento. E que há informação disponível na página do mesmo museu e, até, na Wikipedia. Como se pode viver tanto tempo na ignorância, dispondo de internet e de informação abundante que nos cai em catadupa a toda a hora, não é?

Trata-se de um templo romano do séc. II, com utilização islâmica posterior. Senti um entusiasmo juvenil, ampliado por várias informações complementares. Não era um templo qualquer, mas algo reservado a altas figuras do império romano, o que comprova a importância do local em termos ideológicos e, por consequência, materiais: era o local destinado a celebrar a união da terra (a Serra de Sintra) com o oceano, o Sol e a Lua, ligando, portanto, os cultos locais com a divindade do imperador e o equilíbrio do império. Mais, deduzo que as informações reproduzidas pelos autores clássicos sobre os cultos lunares, o "monte da Lua" e o extremo ocidental da Europa não se referem ao Cabo da Roca (que se vê dali), mas a este promontório, que os romanos reaproveitaram e integraram no seu próprio culto imperial. O responsável pelas escavações, Cardim Ribeiro, afirma que o corpo principal do templo ainda não foi escavado e deverá estar localizado nas imediações. Isto faz-me imaginar o que estará ainda por descobrir. E a importância este local terá tido ao longo de séculos. E aguardo, com expectativa, os desenvolvimentos, esperando cinicamente que o futuro lhe reserve uma sorte diversa da necrópole ao lado da qual vivi durante décadas, onde cheguei a ver motas aos saltos e que hoje está afogada em vivendas geminadas de uso turístico e sazonal. É que, se é para sorte equivalente, melhor será remeter-se ao esquecimento durante mais meio milénio. 

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