Fado Ministerial
Reina em Portugal uma grande incompreensão. Um equívoco, vá lá. Os portugueses, alguns, continuam a pensar que os ministros servem para resolver problemas, fazer reformas, melhorar a vida dos cidadãos. Por exemplo, há quem continue a pensar que Pedro Mota Soares está empenhado em promover a solidariedade, criar emprego ou, imaginem, melhorar a segurança social; que Paulo Macedo está definitivamente a elevar o nível da saúde dos portugueses; ou que Nuno Crato esteja decidido a desenvolver a educação; ou Paula Teixeira da Cruz, em melhorar o funcionamento da justiça. Há outros exemplos, não são difíceis de encontrar. Ora, ele há uns e há outros. Uns dizem que sim mas que a troika não deixou, outros, que a culpa foi o Sócrates, outros que a partir de 2015 é que vai ser a valer, outros ainda, que ya, sim, está tudo melhor, como as estatísticas demonstram. Pois bem, há dois casos recentes e flagrantes que demonstram que, para passar a barreira da crédula suposição (perigosamente vizinha da fé) era necessário que houvesse espinha dorsal, verticalidade e responsabilidade política. Nem era preciso muito, nem grandes discursos, nem PhD.s, nem conversas de treta, bastava um princípio simples que qualquer criança entende: se fui mandatado para uma função e não a cumpro, demito-me. Se fracasso, ponho-me a andar. Se não sei fazer o que pensei que seria, deixo o lugar para quem o saiba. É simples e básico. Mas Portugal é o país dos bodes. Há sempre um diretor geral que paga as favas e cuja demissão lava a honra ministerial. Os erros são sempre imputados ao passado, ao sistema, à crise ou ao exterior, ou diluídos em "apuramento de responsabilidades" de inquéritos ou investigações (invariavelmente "internas") de que ninguém se lembra dois meses depois. Isto só espanta quem, precisamente, continua a pensar que os ministros servem para resolver problemas, cumprir programas e melhorar a vida dos cidadãos. E foi para esses que, perante a dimensão dos seus erros cratos, perdão, crassos, o Nuno e a Paula orquestraram um resmungo a que chamaram "pedido de desculpas", com maus modos e a contragosto. Não foi exatamente à ralé dos professores, alunos, funcionários, juízes, advogados, e muitos, muitos milhares de cidadãos com vidas suspensas, transtornos profissionais e angústias pessoais de que eles não sabem nem sonham. Nada de responsabilidade. É que, em política, responsabilidade chama-se demissão, no mínimo dos mínimos obrigatórios.
Descobri a fonte de inspiração das desculpas ministeriais, sobretudo a parte do "quem se agonia, vá chatear para outro lado", que não ouvi, mas deduzi das palavras de ambos.

