Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

inclusão e exclusão simultâneas

Sempre tive uma vaga sensação de que, à medida que eliminamos barreiras e preconceitos, encontramos sempre novas formas de criar linhas de demarcação ou de reinventar formas de discriminação. As motivações é que diferem. Estou a falar em termos sociais e, mais concretamente, no quotidiano do espaço público. Ontem deparei-me com um exemplo interessante.

A Praia das Maçãs é uma localidade, mas também, e naturamente, uma praia. Estreita. Noutros tempos, havia espetáculo dia-sim-dia-não com pessoas que não respeitavam a cor da bandeira (invariavelmente amarela, à cautela) e faziam ouvidos moucos - por negligência pura ou por bravata - aos avisos dos nadadores-salvadores e que se embrenhavam demasiado nas águas revoltas do Atlântico, nadando para "fora de pé". Depois não conseguiam regressar e era sempre um drama. Lembro-me de vários episódios, alguns com desfecho trágico. Nessa altura, os ditos nadadores-salvadores (que eram então sempre tratados pelo nome arcaico de "banheiros") desdobravam-se em cautelas para minimizar problemas: havia uma "zona de banhos" (as placas que lá estão ainda são as mesmas), no centro da praia, e duas "zonas perigosas", nas margens, para evitar arrastamentos para as rochas. E quando a maré subia ou havia alteração da ondulação, lá vinha o apito de aviso. Ou vários, porque gente teimosa e negligente sempre houve. De maneira que sempre me habituei a reagir com alarme ao "apito". Era sinal de perigo potencial para alguém.

Os tempos mudam. Ontem à tarde, os "banheiros" apitaram muitas vezes. Mas não era sinal de perigo. Pelo menos, do perigo que eu imaginava. Era outra coisa: sensivelmente metade da praia (logo, "metade do mar") está reservado ou indicado como de "prática de surf", demarcado com umas bandeiras verdes ("SolFun", uma empresa de surf local). Logo, e como eram 5 da tarde e hora de aula, era preciso arranjar espaço para a dita. Consequentemente, apitou-se furiosamente para desviar os banhistas para a direita, que ficaram acantonados numa estreita faixa de mar. As velhas placas de "zona de banhos" não distavam entre si mais de uns 20 m. O resto é "zona de surf". Numa Praia Grande há espaço para todos. Ali, é constrangedor. Valeu o facto de ser sábado, estar vento e o número de banhistas ser relativamente reduzido. Escusado será dizer que o pouco espaço livre e sobrante do areal estava devidamente ocupado por futebolistas de ocasião, porque essa é uma praga velha a que ninguém liga e que a ninguém parece incomodar (exceto a mim, e há muito tempo).

Provavelmente a escola de surf paga para fazer tal uso e usufruir de tal exclusividade, comparticipa nas despesas de manutenção ou limpeza da praia ou sustenta os salários dos "banheiros", à semelhança do concessionário. Sem ela, possivelmente, a praia não disporia das boas condições que possui hoje, entre acessos, higiene e duches. Não sei. Sei é que, em simultâneo, está anunciado que se trata de uma "Praia Acessível" (como a da Adraga), ou seja, dispõe de acessos e de equipamentos para pessoas com deficiência física e mobilidade reduzida. Pessoas que há 30 anos não tinham tal possibilidade. A praia da Praia das Maçãs é hoje, portanto, e simultaneamente, uma praia mais igualitária e mais discriminatória, mais pública e mais privada, mais inclusiva e mais exclusiva.

P.S. e fui novamente ao Alto da Vigia espreitar o templo romano e o ribat. Não fiquei nada tranquilo, pela quantidade de gente que por lá andava a tirar selfies  no meio das ruínas e com o oceano como pano de fundo. Não sei o que está previsto fazer para proteção do local, mas temo o pior num futuro não muito distante.

3 comentários

Comentar post

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

Links

blogs

media