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notazinha descobrideira a Duarte Nuno Braga

Vai não volta, a questão reaparece: o alegado "descobrimento" do Brasil por Duarte Pacheco Pereira, dois antes da viagem de Pedro Álvares Cabral. Desta vez é o primeiro romance de Duarte Nuno Braga ("A Confissão do Navegador"). Não li. Pelo que sei, acaba de ser lançado mas o DN já entrevistou o autor. Pouco tranquilizante, a peça. Assim, sem mais (ou "sem ver", como se costuma dizer), adianto umas coisinhas:

 

1. Raio de mania esta, a de aparecer sempre um qualquer iluminado que pretende (ou a imprensa assim o anuncia) "reescrever a História". A nossa. Há tanta coisa para estudar, tanta coisa mal conhecida, tanta coisa a reavaliar e a compreender, a divulgação histórica é algo tão incipiente e tão mal-amado por cá, por que diabo temos sempre que nos fixar em cagadelas de mosca ampliadas em, ui, "corrigir a História dos Descobrimentos"?

 

2. A possível viagem de Duarte Pacheco Pereira em 1498 é uma coisa debatida há décadas; se ocorreu ou não, é uma curiosidade, um pormenor, uma nota de rodapé. Duarte Leite, Luciano Pereira da Silva e, mais recentemente, Francisco Contente Domingues disseram de sua justiça. Admitindo que ocorreu, há ainda o problema de saber se foi ao Brasil ou à América do Norte. Uma coisa gira, nada mais. Mas é preciso dizer que a nossa obsessão com esta espécie de "síndrome da virgindade" de saber "quem foi o primeiro" (seja ao Brasil ou à Austrália) é uma paloncice neocolonial, típica do tempo já passado em que as potências europeias usavam a História para as disputas hegemónicas entre si. Hoje, na comunidade científica (sim, porque a História tem pretensões dessas, lamento dizê-lo), é apenas tema de conversa nos coffee breaks dos colóquios, nada mais.

 

3. O autor "vem da área das tecnologias, é licenciado em Engenharia Eletrotécnica", diz a peça. Não quero ser preconceituoso (não conheço o autor nem a obra, fica aqui o disclaimer), mas no dia em que eu decidir escrever um livro sobre circuitos integrados ou software, é bom que me prepare para ter magotes de gente a morder-me as canelas, porque as calinadas serão decerto mais do que muitas. Ah espera, isso são coisas "científicas", para experts, enquanto "História" é aquela banalidade acerca da qual toda a gente pode largar duas postas, pois claro, já me  esquecia. Mas se até o Rodrigues dos Santos escreve barbaridades "históricas" e vende milhões, não é mesmo?

 

4. Por fim, os dados da entrevista. Maus augúrios. Vários tiros, e todos na água. Vejamos:

a) "o manuscrito esmeraldo de situ orbis"; erro: não se conhece "o manuscrito", mas apenas duas cópias tardias e com prováveis erros de transcrição. O original, com desenhos e mapas, foi ainda assinalado por Diogo Barbosa Machado no séc. XVIII mas desapareceu, possivelmente no Terramoto; e que interessa isto? Q.B. Exemplo, numa das passagens há quem leia "posto que seja assaz fora" e quem leia "posto que seja assaz fria" (a tal terra americana onde terá chegado).

b) "dá indicação ao rei D. Manuel I de que fora descoberto o Brasil": não sei onde foi o autor buscar isto. O Esmeraldo é dedicado ao rei (a quem trata por "César Manuel") mas foi escrito entre 1505 e 1508, vários anos depois da viagem de Cabral, portanto. Além disso, Pacheco Pereira diz que foi o próprio rei que o terá  mandado a tais paragens e não menciona o Brasil em lado nenhum.

c) "e com todas as informações geográficas do território": gostava de saber quais são; não preciso de todas, bastar-me-iam algumas. Uma, pelo menos.

d) o documento "esteve escondido quase 400 anos". Ohh já cá faltava o aromazinho de mistério do inevitável "segredo" e da "revelação" da coisa "escondida". Bom, não esteve escondido coisa nenhuma: como disse acima, o manuscrito original era conhecido nos inícios do século XVIII (estava na biblioteca do marquês de Abrantes), depois perdeu-se-lhe o rasto. Conhecem-se duas cópias tardias, sobre as quais foram feitas as edições: a primeira em 1892, outra em 1905 com reimpressão em 1975, outra na década de 60 (Academia Portuguesa de História, se bem me recordo), e uma final pela mão de Joaquim Barradas de Carvalho (a cujo estudo dedicou a vida e a tese de doutoramento). Os motivos pela publicação tardia? Há vários possíveis: Pacheco Pereira caiu em desgraça depois da morte de D. Manuel, chegou a ser preso e pensou em passar-se para Castela (sim, é verdade), o Esmeraldo é, antes de mais, um roteiro da costa africana - novidade em 1505, com interesse a esmorecer rapidamente nas décadas seguintes - , é uma obra inacabada e, finalmente, um manuscrito inédito não é propriamente coisa que cause espanto, pelo a menos a um historiador (já a um engenheiro eletrotécnico não sei).

 

Quem quiser saber mais sobre o Esmeraldoleia-o (aviso já que é um roteiro, logo de leitura a dar para o bocejante), assim como os estudos de Barradas de Carvalho sobre o autor e a obra. Há também um artigo de Teixeira da Mota no Mare Liberum nº 1 muito interessante, assim como uma coisinha de Jean Aubin, para além dos autores indicados acima. Até eu próprio, imaginem, escrevi um artigo sobre o assunto, no longínquo ano de 1988. Mas palpita-me que Duarte Nuno Braga não leu nada. Escreveu um romance, ok, pode ser bom, pode ser excelente literatura. Mas pela amostra da entrevista, parece-me que de História não terá grande coisa.

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