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O sangue e a banalidade do mal

João Miguel Tavares discorre no Público de hoje sobre "sangue, gays e discriminação". Tenta dar um ar científico aos argumentos que apresenta, que diz que não podem ser refutados com "bandeirinhas arco-íris".

Vamos por partes:
- em Espanha não se coloca qualquer questão sobre sexo entre homens no questionário a dadores/as de sangue; não houve qualquer tipo de problema com a recolha de sangue no país vizinho; diz que não foi das bandeirinhas;
- a ideia de que há "grupos de risco" na transmissão do VIH já fez parte da "ciência" que, como sempre, é feita por pessoas, por vezes tão ou mais ignorantes sobre questões sociais como o João Miguel Tavares; entretanto, identificou-se que o que seria relevante seriam os "comportamentos de risco" e é com base nisso que se trabalha a prevenção, ainda que com o lastro pesado da anterior noção de "grupos";
- o João Miguel Tavares continua nos grupos, mas não é o único. O Presidente do IPST, Hélder Trindade, também continua. E pelos vistos o Ministro da Saúde também continua, uma vez que não houve qualquer tipo de tomada de posição que o distancie das afirmações de Trindade no Parlamento, o que só reforça a ideia de que o retrocesso nesta política foi uma orientação do Ministro e do Governo;
- está toda a gente a achar que os testes feitos ao sangue não são suficientes, o que põe em causa a crença na qualidade do sangue recolhido; para quem não perceba esta parte (que não exige ciência particular), as respostas às questões dadas são as respostas que se quiser dar. É evidente que muitos "homens que têm sexo com homens" e muitas outras pessoas já deram sangue sem responder com veracidade a alguma pergunta do questionário. E mais uma notícia: os questionários variam muito de acordo com os pontos de recolha, independentemente das orientações do IPST. Pobre sangue se a sua qualidade dependesse das respostas ao questionário.
- a pergunta "sendo homem, teve sexo com homens?" é ineficaz: o objetivo é triar o sexo anal (desprotegido) mas a pergunta não é incisiva e pressupõe que sexo entre homens envolve necessariamente sexo anal (o que é uma noção de sexo à Bill Clinton) e pressupõe ainda que não há sexo anal de homens com mulheres e de mulheres com mulheres (pronto, já estou a imaginar o João Miguel Tavares, com a sua teoria avançada da pilinha e do pipi, bem como o Hélder Trindade a ficarem confusos nesta parte). 
- se se pretende minimizar os testes de sangue recolhido, reduzindo a recolha com base em questões que façam uma triagem, então convém que essas questões sejam incisivas para não eliminar quem não se quer eliminar e para eliminar quem se quer eliminar. Não, não são. Aparentemente é chocante para a moral vigente fazer uma pergunta sobre "sexo anal" mas não é chocante fazer uma pergunta a eliminar todos os gays;
- e agora as bandeirinhas: mesmo que fosse eficaz, resta saber se seria proporcional: uma questão discriminatória tem um efeito de estigmatização que tem um custo significativo; é obrigação do IPST garantir que ela é necessária e também garantir que não existem formulações alternativas que não sejam estigmatizantes e que atinjam o objetivo; uma vez mais, em Espanha, esse país longínquo, a questão não é colocada e não há problemas com a qualidade do sangue recolhido.
- o problema dos Joões Miguéis Tavares é acharem que não têm preconceitos e que a ciência não é feita por pessoas com preconceitos e pode ser discutida sem pensar em "filosofia, política, direitos de minorias ou sociologia". A mesma ciência que nos atirava para uma patologia mental no início dos anos 90, a mesma ciência que "estabeleceu" diferenças nos cérebros entre homens e mulheres para justificar o sexismo, a mesma ciência que foi à procura de (e encontrou, que encontra sempre quando procura com muita força) diferenças entre "raças". 
- não existem "homens que têm sexo com homens", existem muitos "tipos" de "homens que têm sexo com homens" e sobretudo muitos comportamentos diferentes no "grupo"; não perceber isto é não perceber nada sobre discriminação, sobre gays e sobre sangue; mas isso não impede ninguém de decidir expressar o apoio à discriminação numa coluna de opinião de um diário generalista, que a banalidade do mal nunca precisa de expertise.

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