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jugular

o trator de 3 rodas

Quem conhece As Farpas de Eça/Ramalho sabe do que falo: no fascículo de junho/julho de 1872 fala-se do salva-vidas. Uma lancha voltara-se na foz do Douro e 14 homens haviam morrido. O salva-vidas estava lá, tinha uma comissão atribuída e um fiscal que recebia o seu salário, mas não tinha tripulação. O texto é de uma ironia profunda e cruel: o salva-vidas como metáfora de todo um país imobilizado e apodrecido, dotado de burocracia ineficaz e inútil e incapaz de cumprir a sua função básica e elementar.

Há dias, a propósito dos celebrados sorteios da "fatura da sorte", uma notícia apareceu nos jornais, mais ou menos discreta, que respondia a uma pergunta que terá passado pela cabeça de muita gente: irá o Estado sortear os automóveis penhorados pelo fisco? A pergunta não é de todo descabida, mas a resposta, infelizmente, é dececionante. Não, provavelmente não irá. E porquê? Porque não tem nada de jeito para sortear. Nada? nada. Mais precisamente, a viatura mais valiosa que possui, obtida em penhoras, é um trator... a que falta uma roda.

Li e ri. Ora pois, se o salva-vidas é uma metáfora do Portugal de 1872, o trator de 3 rodas pode bem ser a do de 2014. Da retoma, da recuperação, da saída da crise, do crescimento anunciado e apregoado da economia, do fim do ajustamento, do milagre económico de que falou o ministro da Economia há dias. Tem uma bela cor verde, está desejoso de voltar ao serviço, de ser produtivo, de contribuir para a saída do marasmo. Terra arável também não falta. É verdade que anda a gasóleo e não a energia solar, a cortiça ou a vinho do Porto mas, e ao contrário do salva-vidas, não será difícil arranjar tripulação. Aliás, é o que não deve faltar, pelas estatísticas de mão-de-obra qualificada e desempregada. E vale 25 mil euros, que não é coisa pouca. Não é muito, mas é qualquer coisinha. Digamos que é um valor dentro das nossas possibilidades. Tem é um problema irritante: falta-lhe uma roda. Dizem os arautos da desgraça - aqueles que se recusam a ver a retoma que aí vem e que se comprazem no bota abaixo - que, sem ela, nada feito. Ah. Não liguem. O trator de 3 rodas há-de andar, funcionar, lavrar orgulhosamente os campos e garantir a saída para a crise. Devagarinho, dentro das suas possibilidades, mas certamente que sim. Ainda que, bom, esteja penhorado, mas isso é um pormenor, tal como a falta da 4ª roda. Como é que estou seguro de tudo isto? Porque, tal como no ano passado, perante a seca, a ministra da agricultura dizia "ter fé" que iria chover, hoje o ministro de estado Paulo Portas também disse "acreditar" no aumento das exportações e, portanto, "achar" que 2014 vai ser um ano de crescimento. Uma crença irrevogável, decerto. Acreditem.

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