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Obrigatório ler

Vítor Gaspar por Maria João Avillez é uma boa leitura para o primeiro fim de semana pós-troika. O livro está na 2ª edição e vem envolto numa fita vermelha, descartável e ameaçadora: nela surge Vítor Gaspar, com cara de Vítor Gaspar, a preto e branco e de braços cruzados, a dizer «Obrigatório Ler». Provavelmente, o receio de mais um aumento de impostos terá levado muita gente a colocá-lo nos Tops de vendas. Desse ponto de vista, pode não ter valido de muito comprar o livro, mas vale muito a pena lê-lo, a começar pelo texto de Maria João Avillez na contracapa: «Caía o dia e soprava um ar gelado sobre o Terreiro do Paço. Estávamos a 6 de Dezembro de 2011 e era a primeira vez que via Gaspar. Há um tempo que perseguia uma intuição simplicíssima: o ministro das Finanças iria marcar o país e deixaria nos portugueses uma impressão forte». O ministro das Finanças, que tinha como objetivo declarado cortar além da Troika, haveria de deixar nos portugueses «uma impressão forte». De facto, o que seria de nós sem a «intuição simplicíssima» de Maria João Avillez?

Desde esse pôr-do-sol gelado em que se conheceram, Maria João Avillez nunca mais largou Vítor Gaspar e Vítor Gaspar nunca mais conseguiu largar Maria João Avillez. E aqui temos então o resultado de dois anos de entrevistas. Maria João Avillez começa pelo fim: pela famigerada carta de demissão em que ficou a ideia (errada) de que Gaspar apoucava as qualidades de liderança do primeiro-ministro. Gaspar esclarece: «Liderança é por vezes definida como sabedoria e coragem, combinadas com desinteresse próprio, o que naturalmente julgo que são características de Pedro Passos Coelho». Sabedoria. Coragem. Desinteresse próprio. Devia-nos ter vindo logo à cabeça Pedro Passos Coelho.  

Depois, Gaspar é convidado a recuar aos seus tempos de estudante: «Conheceu Cavaco Silva numa sala de aula, como seu professor, não foi?». Foi, foi: «dava aulas por um livro da sua autoria, um compêndio muito bem organizado, que seguia com muito rigor». Não sendo manifestamente Cavaco, quais foram então os autores que influenciaram as posições políticas do nosso entrevistado? «Não fujo à sua pergunta e desse ponto de vista confesso que me considero muito próximo da posição de David Hume, Frank Ramsey, Amartya Sen, Adam Smith, Immanuel Kant, Friedrich Hayek, Isaiah Berlin, Karl Popper ou Michel Foucault». Ainda bem que Gaspar não foge às perguntas.

Por estranho que pareça, ao longo dos anos Vítor Gaspar foi colecionando alguns amigos. Um deles é o famoso economista Jorge Braga de Macedo, homem com «um humor absolutamente extraordinário» que «produz ideias a uma velocidade estonteante». Recentemente ofereceu um livro ao próprio Gaspar com a seguinte dedicatória: «Para o Vítor Gaspar: still crazy after all these years». Qual dos dois será o «crazy» da dedicatória? A dúvida é legítima.

Politicamente, Gaspar revela que foi eleitor de Mário Soares, aliás como quase todos os portugueses (pelo menos uma vez). Confessa também que «nunca olhou para o PSD». Simplesmente, nas vésperas da assinatura do acordo com a troika, apercebeu-se que o negociador do PSD, Eduardo Catroga - que enquanto ministro das Finanças de Cavaco Silva representou Portugal em múltiplas reuniões com atores internacionais -, «para desempenhar bem o papel que estava a fazer, precisava de informação sobre a forma como funcionavam os vários atores internacionais». Toma então a iniciativa de «conversar com o Eduardo Catroga». Catroga deve ter ficado eternamente grato: Gaspar foi para as Finanças e ele acabou na EDP.

Mas se Gaspar nunca tinha olhado com atenção para o PSD, já não se pode dizer o mesmo em relação a Paulo Portas, que, nos tempos do Independente, «chamava ao então muito jovem Vítor Gaspar o Mister Wonderful…». Gaspar lembra-se que «chegou a considerar-se a possibilidade de nos encontrarmos» e admite mesmo que «o engraçado é que essa possibilidade levou-me a ter uma curiosidade um pouco maior do que o habitual em saber as características da pessoa com que eu talvez me fosse encontrar…». Contudo, o entrevistado não parece muito satisfeito com o que veio a descobrir de Paulo Portas, anos mais tarde, no Governo: ao contrário do que se terá passado com o PSD, colocou-se «a conveniência de que houvesse um secretário de Estado do CDS/PP para garantir a representação da coligação na equipa das Finanças». A escolha recaiu no Dr. Paulo Núncio, «alguém que considero de muito mérito e grande qualidade para a função que desempenha», que é, afinal, a de «garantir a representação da coligação na equipa das Finanças». De resto, Maria João Avillez ainda quis saber a partir de quando é que Paulo Portas foi posto ao corrente da medida da TSU que o fez aparecer muito indignado nas televisões a seguir ao 15 de setembro de 2012. Gaspar responde: «Em Julho». Dois meses antes, portanto. Só «não tenho presente o dia e a hora». 

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