Saltar para: Post [1], Comentar [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

Pedagogia

comcept.jpg

Comcept – Comunidade Céptica Portuguesa [Diana Barbosa, João Lourenço Monteiro, Leonor Abrantes e Marco Filipe], Não se deixe enganar – Guia de sobrevivência no mundo moderno. Lisboa, Contraponto, 2017, ISBN 978-989-666-148-9, pref. de Carlos Fiolhais e David Marçal.

 

Pedagogia é uma palavra, infelizmente, cada vez mais mal-amada e olhada com crescente sobranceria nestes tempos em que todos sabem tudo e largam sentenças (em português, “acham”) sobre qualquer coisa. E é uma pena. Ensinar quem não sabe e aprender com quem conhece são duas orientações que deviam nortear a nossa existência neste mundo. Aprender, aprender sempre. Pois eu digo que aprendi muito a ler este livro, e recomendo vivamente (para não dizer ferozmente) a todos que façam o mesmo. Já o fiz, aliás, e mais do que uma vez, quando deparo com determinadas conversas sobre transgénicos ou acerca dos malefícios dos micro-ondas. É um verdadeiro manual de iniciação científica sobre dúvidas correntes que nos invadem o quotidiano, os murais, as notícias e os fóruns. Um verdadeiro guia sobre crendices, mitos, desinformação, temores e terrores da era global, que busca – e alcança plenamente – um único objetivo: informar o que diz a ciência acerca de cada um deles.

O principal mérito desta primeira obra do Comcept é o de conseguir esclarecer evitando juízos de valor ou considerações morais ou religiosas. A homeopatia é uma burla? Não, apenas não tem qualquer fundamento científico (independentemente das intenções de quem a pratica ou recomenda); o mesmo para tantas ideias-feitas, mitos generalizados, práticas “curativas” (alternativas ou não) e alarmes. Vacinas, pulseiras magnéticas, chemtrails, organismos geneticamente modificados, acupunctura, suplementos alimentares, radiações wi-fi, que diz a ciência acerca de tudo isto? Há riscos? Como surgiram e como se propagaram os temores? É tudo falso, vigarice, superstição, engano? Não. Apenas existe – ou não – fundamento científico. Ponto final.

O segundo mérito do livro é o de colocar os pontos nos ii no que é ciência e no que é pseudociência. O que as distingue? Como se reconhece esta última? Que argumentos utiliza? Como se “camufla” e propaga? Que canais privilegia? No final, um pequeno curso de “introdução ao conhecimento científico” e informações preciosas acerca da validade, utilidade e rigor da ciência, os passos que dá, os riscos que corre, os problemas que enfrenta.

O terceiro mérito deste Não se Deixe Enganar é conseguir ir muito além do jargão-científico-para-cientistas, explicando conceitos, dando exemplos e fazendo analogias, conseguindo obter um discurso consistente, fluido e claro, mesmo para leigos (como é o meu caso). Pessoalmente, foi gratificante constatar a forma como sai dos campos tradicionalmente tomados por “científicos” e se aventura nos meandros da História – tantas vezes olhada, como as ciências sociais e as chamadas humanidades, com desdém paternalista tanto por gurus como por aprendizes da ciência - e nos exemplos de “pseudo-história”, como o das pirâmides submersas dos Açores, do yogi de Beja (pp. 138-139) ou da “teoria dos Astronautas Antigos” (pp. 156-159); a história do “Prof. Wilhelm Selhus” e do seu método de “veracidade” (p. 160) é magnífica.

Pelo meio, escrita atraente, clara, concisa, bem-humorada e, sim, divertida. Muito. E interessante, também. O leitor tropeça a toda a hora com pormenores relevantes, enquadramento adequado, informação útil. Por exemplo, eu cá desconhecia a forma como a medicina tradicional chinesa fez a sua aparição no Ocidente e foi promovida por Mao como arma política (pp. 108-109, 117-118). Ignorava igualmente qual a origem da chalaça do “monóxido de di-hidrogénio” (p. 55) ou a história do dr. Ignaz Semmelweis (p. 102).

Agora que estou perto de esgotar os elogios, passo às críticas. Só mais este: rigor de informação, referências em nota de rodapé e em bibliografia final, cuidado em apresentar o quadro mundial e a especificidade nacional. Estas informações são especialmente úteis, entre outras situações, pela evocação da legislação portuguesa sobre medicinas alternativas ou sobre o uso de suplementos alimentares.

Agora é que é. A primeira crítica é muito simples: não gosto da capa e detesto o título. Compreendo as razões que explicam ambos, mas isso não me convence a gostar. Pronto. Segunda: o esquema geral podia ser mais claro e ordenado, porque o que existe presta-se a alguma confusão e sobreposição, sobretudo quando se anda à procura do assunto X e já não sabemos onde está. Talvez um índice final resolvesse o problema. Terceira: há uma insistência em certos temas (movimento antivacinas, medicinas alternativas) e uma predominância da Química; não é grave, mas percebe-se o peso desigual que, por vezes, desequilibra. Por exemplo, quando se fala nas origens da medicina moderna, talvez fosse útil gastar mais uns parágrafos a explicar desenvolvimentos paralelos (a “teoria dos miasmas”, por exemplo). Quarta: há ajustes a fazer em termos de fusão dos conteúdos, porque detetam-se as arestas resultantes do facto de ter sido escrito por várias mãos; exemplo: a saga de Andrew Wakefield (o vígaro que aldrabou o estudo sobre os efeitos da vacina tríplice no autismo, com consequências trágicas) é reportada por duas vezes, nas pp. 68 e 149; um remissivo seria mais útil. Quinta: apesar do louvável esforço em incorporar a História no discurso do texto, há limalhas a aparar; exemplo significativo é o da história do yogi de Beja (p. 139). Para comprovar ou refutar a história, o primeiro passo a dar não é o das “análises de ADN e radioisótopos” sugeridas; isso são passos largos, a dar quando e se se justificar (tanto mais que não devem ser – acho eu – baratas). Em História, começa-se por coisas mais básicas. Fontes e enquadramento histórico que atestassem, sugerissem ou tornassem plausível tal eventualidade são o ponto-chave da questão. Sexta: aconselharia alguns ajustes e maior atenção prestada aos casos reportados, nomeadamente em Portugal. Exemplos: complementar a parte sobre OGM com o caso ocorrido em Portugal há uns 10 anos, com a destruição de um campo de milho transgénico; atualizar e incluir os recentes produtos para a coluna vertebral e dores reumáticas baseados em ímanes, que inundam o espaço televisivo português; também gostaria, confesso, de ver chamados os bois pelos nomes: Calcitrin, Cogumelo do Tempo e outras banhas da cobra afins. Ainda, dois pormenores formais: Francisco Barbarroxa não era “imperador romano do século XII” (p. 160), mas sim imperador do Sacro Império Romano-Germânico (ou seja, autoproclamado herdeiro ocidental do outro) e a expressão correta, em português, para by default não é “por defeito” (p. 200) mas sim “por omissão”, apesar da banalização da tradução literal. No final, há uma sensação de “saber a pouco”, mas trata-se certamente de uma impressão pessoal. Há questões que sempre me intrigaram e que gostaria de ver abordadas com maior pormenor. Exemplo: a permeabilidade às banhas da cobra (seja o calcitrin, seja a astrologia) é transversal, não depende de grau académico ou de estrato socioprofissional; um político sabe que os seus votos não dependem da posição dos astros, mas pode recorrer à homeopatia; um médico sabe qual a eficácia das vacinas mas pode viver condicionado pelas informações acerca do ascendente do seu signo.

Carl Sagan é mencionado mais do que uma vez. Eu recordo-o também, tanto na série Cosmos como, principalmente, num depoimento que proferiu acerca das teorias “dos Astronautas Antigos” que viam pistas de aterragem (extraterrestres) nas célebres Linhas de Nazca. Disse ele: “atravessam a galáxia, percorrem anos-luz pelo espaço sideral, e ao chegar à Terra, que vemos, Hurricanes? Spitfires? É inacreditável que “eles” precisassem de pistas de aterragem”. Vi isto quando era adolescente e nunca me esqueci, uma lição básica de ciência em duas frases. E desde então percebi que a divulgação do conhecimento científico é um fator essencial para a a erradicação da ignorância. Este trabalho da Diana, do João, da Leonor e do Marco, que deveria ser presença obrigatória em casas e escolas e um best-seller em vez de tanta trampa que se vê por aí, é um excelente contributo para esta causa.

Comentar:

Se preenchido, o e-mail é usado apenas para notificação de respostas.

Este blog tem comentários moderados.

Este blog optou por gravar os IPs de quem comenta os seus posts.

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media