Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

Por que não foram bombardeadas pelos Aliados as vias férreas para Auschwitz?

 

A SIC Notícias emitiu uma importante entrevista dada ao jornalista Henrique Cymerman, pelo Papa Francisco, onde questionado pelo entrevistador sobre o papel de Pio XII relativamente ao Holocausto, ou Shoah, este desvia a atenção – mal ou bem – para o papel dos Aliados durante a II Guerra Mundial, criticando o facto de estes não terem bombardeado as vias férreas conduzindo ao campo do extermínio de Auschwitz-Birkenau, não impedindo assim a continuação dos massacres e do extermínio nazi. Duas pessoas diferentes falaram-me dessa afirmação, elogiando o Papa por apresentar um argumento, sobre o qual que nunca tinham pensado. Ora, não se trata de uma questão nova, pois desde o final da guerra e a descoberta dos campos do extermínio nazis foi frequentemente colocada e discutida, nomeadamente no seio da historiografia sobre o Holocausto. Num livro editado no ano passado, Portugal, Salazar e o Holocausto, da autoria de Cláudia Ninhos e de eu própria, essa questão é abordada, pelo que publico alguns excertos sobre o tema.

 

A chamada «solução final do problema judaico»

Com o triunfo da posição da SS e da RSHA sobre as outras facções, através da conferência de Wannsee, de Janeiro de 1942, foi posta em marcha a «solução final», em Chelmno e Maidanek. Os motores diesel ali utilizados viriam a ser substituídos pelo Zyklon B, também usados nos outros campos da «operação Reinhardt» de Belzec, Sobibor, Treblinka e Auschwitz-Birkenau, erguido partir de Novembro de 1941 A partir de Wannsee e não mais viriam a ser tomadas decisões sobre matar ou não os judeus, mas, sim, sobre quando e por qual ordem estes deveriam ser assassinados. Dessa forma, não tendo sido o momento da decisão de levar a cabo o Holocausto, a conferência de Wannsee marcou o ponto da decisiva transição entre as deportações quase genocidas e um claro programa político oficial de extermínio.

O certo é que a 25 desse mês de Março, se iniciaram, em toda a Europa ocupada pela Alemanha, as operações genocidas e no Verão a terrível máquina de extermínio já estava plenamente em marcha. Na Polónia, os guetos foram dissolvidos e os seus ocupantes, tal como os judeus de França, Bélgica e da Holanda, começaram a ser deportados para os campos de extermínio. Nas semanas seguintes, cerca de 90.000 judeus, primeiro, homens jovens programados para o trabalho, e, depois, mulheres e crianças, foram enviados do Estado-fantoche da Croácia para guetos no distrito de Lublin e para os campos a Leste. Em 22 de Julho, iniciaram-se as deportações dos judeus de Varsóvia para Treblinka e, em 5 de Outubro, Himmler ordenou a deportação de todos os judeus dos territórios ocupados para Auschwitz. Com o início do funcionamento das câmaras de gás no campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau, em Junho de 1942, os nazis tinham passado à fase aberta do genocídio planificado e sistemático, cujo ponto culminante e derradeiro viria a ser o massacre de meio milhão de judeus húngaros, executados ao ritmo de 10.000 por dia, no Verão de 1944.

Em Dezembro de 1942, cerca de 75% das vítimas do Holocausto já tinham sido mortas e apenas nesse ano foram assassinados 2.700.000 judeus, mais do que em todos os outros anos de vigência do Terceiro Reich. O historiador Raul Hillberg observou o facto de os nazis terem assassinado cerca de 100.000 judeus, no período entre a tomada do poder e o fim de 1940, mas que, no ano seguinte, já tinham morto 1.100.000 judeus, em resultado da guetização, dos massacres periódicos na Polónia e dos assassinatos perpetrados pelos Einsatzgruppen e outras unidades alemãs a leste. Até Março de 1942, contudo, menos de 10% das vítimas do nacional-socialismo tinha morrido, ocorrendo os massacres, sobretudo de judeus e prisioneiros de guerra soviéticos, em Chelmno e na URSS. No entanto, no período entre o começo das mortes em Belzec, em meados de Março 1942, e meados de Fevereiro de 1943, mais de metade de todos os judeus e outras vítimas do nazismo já tinham sido mortos, podendo-se dizer assim que a conferência de Wannsee terá certamente tido um papel galvanizador relativamente aos crimes e aos seus perpetradores.

 

O conhecimento do Holocausto pelos Aliados

Os crimes nazis que envolveram um número tão grande de vítimas dificilmente poderiam ter permanecido secretos, apesar dos cuidados que os perpetradores nazis do genocídio e seus cúmplices tiveram em escondê-los. Para se tentar ver o que foi, ou não, feito, ou se pretendeu, ou não, fazer para salvar vítimas, há que saber em primeiro lugar a partir de quando o mundo, e sobretudo os países neutrais e os aliados, tomaram conhecimento dos assassinatos em massa, nomeadamente de judeus. Em 1980, num pioneiro, excelente e exaustivo livro, intitulado The Terrible Secret, ao tentar perceber quando se começou a ter a noção que, dos assassinatos em massa na Polónia e URSS, se tinha passado ao extermínio total dos judeus da Europa, Walter Laqueur concluiu que, na Alemanha, os massacres começaram a ser conhecidos na segunda metade de 1941, através dos testemunhos de oficiais e soldados da Wehrmacht.

O governo soviético também terá sabido quase de imediato dos massacres sistemáticos dos Einsatzgruppen, na Galícia oriental, Rússia branca, Ucrânia e nos países bálticos. Após algumas semanas, o mesmo terá acontecido nas capitais ocidentais. Jornalistas estrangeiros souberam do massacre de Kiev (Babi Yar), em 29-30 de Setembro de 1941, bem como dos assassinatos em massa na Transnístria, na Roménia, enquanto a abertura do campo de extermínio de Chelmno, em 8 de Dezembro, foi conhecida em Varsóvia, em menos de quatro semanas. No entanto, o governo polaco no exílio e depois os próprios dirigentes judeus foram frequentemente acusados de exagerar o que se estava a passar.

Também os países neutrais, as organizações internacionais e sobretudo o Vaticano receberam informações de todo o lado. Entretanto, desde 6 de Janeiro de 1942, uma nota assinada por Molotov, dirigida a todos os governos aliados, dava conta das «monstruosas vilanias» e «atrocidades» praticadas pelas autoridades alemãs nos territórios soviéticos». A nota fazia três escassas referências aos judeus e, com a excepção de uma nota emitida em 13 de Dezembro, a narrativa soviética era a de que os invasores eram bárbaros, sem que houvesse menção ao facto de os judeus estarem a ser sujeitos a um «tratamento especial». A Londres e Washington chegaram também notícias das suas embaixadas, legações e consulados e serviços secretos na Europa. Estas fontes de informação elas próprias hesitaram em acreditar na ideia de genocídio, embora se tivessem multiplicado as notícias na imprensa britânica e norte-americana.

Há que fazer referência à distinção levada a cabo pelo historiador Yehuda Bauer, entre informação e conhecimento, sendo este último fundamental para a tomada de uma acção. Efectivamente, como diz este historiador, «Saber habitualmente vem através de uma série de fases: primeiro, a informação tem de ser disseminada; depois, tem de se acreditar nela e ela deve ser internalizada, ou seja, tem de ser estabelecida alguma ligação entre a nova realidade e um possível processo de acção». Ora, relativamente ao Holocausto, como escreveu um dos primeiros jornalistas a chegar ao campo de concentração de Buchenwald, com as tropas aliadas, em Abril de 1945: «mesmo que se veja, não se pode compreender».

Walter Laqueur observou que o facto de alguma informação ter sido mencionada diversas vezes em relatórios secretos ou na comunicação de massas não quer forçosamente dizer que ela tivesse sido aceite ou compreendida, até porque números grandes transformam-se em estatísticas e estas não têm impacto psicológico. Laqueur, no seu livro pioneiro, fez referência ainda ao papel dos serviços secretos britânicos na difusão, ou não, de informações sobre o Holocausto junto dos Aliados ocidentais. Através dos seus serviços de intersecção e decifragem do MI6, de Bletchley Park, os britânicos conseguiram, em 1941, quebrar os códigos da Abwehr e da SS, conseguindo ouvir mensagens rádio enviadas pela RSHA para Berlim, com menções a massacres.

Laqueur não pôde então – o seu livro saiu em 1980 – consultar os arquivos dos serviços secretos britânicos, pois ainda não estavam disponíveis à leitura. Foi isso que fez o historiador Richard Breitman, que, num livro recente, deu conta da descoberta pelos descodificadores dos serviços secretos britânicos das mensagens de rádio alemãs, em particular da Polícia de Ordem, transmitidas a partir dos territórios soviéticos ocupados. Algumas destas mensagens, distribuídas por diversos departamentos britânicos responsáveis pela condução da guerra, foram enviadas a Churchill, nomeadamente num relatório realizado por um oficial de decifragem, segundo o qual já era «suficientemente claro» o «facto de que (os alemães) estavam a matar todos os judeus que lhes caíam nas mãos».

Breitman concluiu que, em Agosto de 1941, alguns dos analistas britânicos das mensagens interceptadas já tinham então chegado à conclusão de que pelo menos os judeus soviéticos estavam a ser exterminados, embora essa hipótese não tivesse então chegado ao Foreign Office (FO), nem provocado grandes efeitos. A situação mudou de certa forma, quando Chruchill denunciou junto da opinião pública, num discurso emitido pela BBC, em 24 de Agosto de 1941, que as mais terríveis crueldades estavam a ser levadas a cabo realizadas nas regiões da União Soviética ocupadas pelas forças alemãs. Acrescentava Churchill que «literalmente dezenas de milhares – de execuções a sangue frio» estavam a ser «perpetrados pelas tropas da polícia alemã sobre patriotas russos que defendem a sua terra natal». Nesse discurso, onde afirmou estar-se «na presença de um crime sem nome», Churchill não mencionava que grande número dos mortos eram judeus.

Bletchley Park emitiria, em 27 de Agosto, o primeiro de uma série de relatórios «muito secretos», especificamente preparados para Churchill, que o recebeu novamente de Stuart Menzies, no seu encontro diário com o responsável do MI6, em 7 de Setembro. No relatório, estava incluída a observação do analista, Grey, segundo a qual a polícia alemã estava «a matar todos os judeus que caíssem nas suas mãos» e, por isso, propunha-se não continuar a relatar as carnificinas de forma detalhada, a não ser que isso fosse solicitado. O historiador Yehuda Bauer questionou se, nesse Verão de 1941, aliás catastrófico para os Aliados em termos da guerra, o governo britânico poderia ter feito alguma coisa para salvar as vítimas, caso tivesse concluído então que se estava perante um genocídio – termo que à época ainda nem sequer tinha sido usado para caracterizar o que os alemães estavam a fazer.

Ou seja, mesmo se quisessem – e sabe-se hoje que não foi sua intenção -, poderiam os britânicos ter feito algo, ou pelo menos ter prevenido os judeus das ameaças que pendiam sobre eles, no Outono de 1941? Bauer lembra que os judeus dos territórios ocupados não tinham acesso a aparelhos de rádio através dos quais pudessem ouvir mensagens de Londres, além de que muitos já tinham sido mortos e os sobreviventes sabiam o que faziam os alemães, sem poder actuar contra isso. Por outro lado, será que alguém teria então acreditado nos britânicos, quando mesmo muitos dos visados tiveram dificuldade em crer de que se tratava de um extermínio. Em suma, a informação estava disponível, mas faltava o conhecimento - a compreensão daquilo que a informação significava.

Nos EUA, a primeira notícia pública sobre o que se estava a passar na Frente Leste terá surgido na imprensa, em Julho de 1941. A nível do governo norte-americano, foi comunicado, em 7 de Outubro de 1941, e enviado ao Coronel Donovan, então «coordenador da Informação» e chefe da OSS, um longo memorando da Divisão Europeia do State Department, intitulado «Polónia sob a Ocupação Alemã», onde eram repetidamente utilizados os termos «extermínio», «eliminação» e «liquidação». Além disso, afirmava-se ali que a política nazi tinha o objectivo de fazer desaparecer os judeus da Europa.

O papel do Vaticano

Na Europa ocupada pelos alemães e nos países satélites, o Núncio papal em Bratislava, Giuseppe Burzio, foi um dos primeiros a informar o Vaticano sobre a sorte de 80.000 deportados judeus da Eslováquia para a Polónia, em Março de 1942, quando a «operação Reinhardt» estava a começar. No mesmo mês, os dirigentes judeus Gerhard Riegner e o já referido Richard Lichtheim, respectivamente representantes do Congresso Mundial Judaico e da Agência Mundial Judaica em Genebra, foram recebidos pelo Núncio apostólico em Berna, Filippe Bernardini, ao qual apresentaram um memorando sobre o destino dos judeus europeus nos países ocupados pela Alemanha. O memorando terá certamente chegado ao Vaticano, que já tinha entretanto recebido, desde o início do ano, muitas notícias sobre o extermínio dos judeus, em particular transmitidas por prelados alemães, polacos ou italianos.

O papel do Vaticano relativo à perseguição aos judeus foi muito debatido, a propósito da acção ou inacção do Papa. O que não está sujeito a dúvidas é o facto de ter sido ele o primeiro, ou um dos primeiros, a saber do destino dos judeus deportados, quer através da Igreja da Polónia e da Alemanha, quer de inúmeros católicos a nível europeu. Em Maio de 1942, um padre italiano, Piero Scavizzi, que viajava frequentemente num comboio-hospital para a Polónia, enviou uma mensagem a Pio XII, onde dizia que a luta contra os judeus estava a ser «implacável e em intensificação constante, com deportações e execuções em massa, tendo o massacre de judeus sido quase completo na Ucrânia, seguindo-se o mesmo com os da Polónia».

No final de Agosto, foi a vez de o bispo metropolitano de Lwov, Andrei Sheptyskyi, e de o cardeal francês Eugene Tisserant informarem o Papa do que se passava. Em Roma, numa cerimónia na Basílica de S. Pedro, em 4 de Junho de 1942, o cardeal Salotti condenou as perseguições religiosas descritas «em termos não poder duvidar-se se referia Alemanha», conforme transmitiu a Embaixada de Portugal ao MNE, mas nada disse sobre a perseguição aos judeus. Pelo menos foi essa a informação por escrito, ainda em Roma, do ministro plenipotenciário dos EUA junto da Santa Sé, Myron C. Taylor, que entregou, em Setembro, uma nota detalhada ao cardeal secretário de Estado Maglione.

Através de notícias chegadas de duas testemunhas credíveis (“arianos”), Taylor havia sabido da liquidação do gueto de Varsóvia e da existência de campos de extermínio na Polónia, um dos quais em Belzec. Taylor acrescentou que os judeus deportados da Alemanha, Bélgica, Holanda, França e Eslováquia eram enviados para leste para serem massacrados, enquanto os “arianos” eram enviados para campos de trabalho forçado. Perguntava à Santa Sé como poderia a opinião pública do mundo civilizado impedir essas barbaridades. A resposta foi uma confirmação de que também o Vaticano tinha recebido tais informações de diversas fontes e que aproveitaria todas as oportunidades para mitigar o sofrimento dos “não-arianos”.

Por seu lado, revoltado com a exclusiva preocupação do Papa relativamente a possibilidades de Roma ser bombardeada e com o silêncio papal sobre o que estava a ocorrer a Leste, o representant diplomático britânico no Vaticano, Francis d'Arcy Osborne, escreveu a Maglione, instando o Vaticano a reagir contra a campanha de extermínio dos judeus, levada a cabo por Hitler. A resposta de Maglione foi que o Papa não podia condenar «atrocidades particulares» nem verificar a veracidade dos números de judeus mortos transmitidos pelos Aliados.

Notícias vindas da Polónia

A partir de Maio de 1942, outros relatórios alarmantes chegaram a Londres e a Washington. Um deles, datado de dia 11, foi remetido pelo Jewish Socialist Bund (União Geral dos Operários Judeus da Polónia) ao governo polaco no exílio em Londres, que, duas semanas depois, deu publicamente conta da morte de 700.000 judeus polacos às mãos dos alemães. Além de referir as deportações e o método de morte por gás, utilizado  em Chelmno, o Bund fazia um apelo angustiado a uma reacção imediata dos Aliados. Nos EUA, por volta do mesmo período, a emissora CBS referiu uma declaração do Congresso Mundial Judaico, segundo o qual as mortes de judeus já ascendiam a mais de um milhão de judeus, desde o Outono de 1939.

Através de Lisboa, chegava entretanto a Londres outro relatório diplomático secreto, de 20 de Julho de 1942, da autoria de um oficial britânico pertencente a um grupo de outros militares caídos numa armadilha em Varsóvia, que haviam conseguido escapar e se tinham refugiado no gueto judeu desta cidade, em meados de Junho, antes de conseguirem fugir para Portugal e Londres. Esse oficial inglês deu o seu testemunho a um norte-americano, de passagem pela capital portuguesa – terá sido Gerald Mayer, antigo jornalista da NBC – que, por sua vez, transmitiu a notícia de que a Alemanha estava a exterminar sistematicamente na Polónia e havia assassinado em massa, perto de Minsk, mulheres e crianças em camiões de gás.

O Conselho Nacional Polaco e representantes judeus da Polónia continuaram a enviar informações sobre as barbaridades cometidas pelos alemães aos governantes britânicos e norte-americanos, pedindo para que fizessem algo para travar o terror e os massacres. O primeiro-ministro Churchill terá então chegado a pedir à Royal Air Force que se pronunciasse sobre a viabilidade de fazer desaparecer do mapa uma cidade alemã, como punição explícita pelas atrocidades nazis, mas o governo rejeitaria a ideia. Depois, nos cinco últimos meses de 1942, chegaram aos EUA e à Grã-Bretanha, novas informações sobre os crimes nazis, através de três fontes alemãs e de um mensageiro da resistência polaca.

Dando alguns exemplos de testemunhas, que transmitiram aos Aliados informações sobre Auschwitz, Raul Hillberg referiu o caso do tenente SS Kurt Gerstein, que descobriu, em primeira mão, que se massacrava judeus em Auschwitz. Ao regressar à Alemanha, no comboio Varsóvia-Berlim, em 20 de Agosto, Gerstein entrou em diálogo com um passageiro, que soube ser um cônsul sueco, barão Goran von Otter, ao qual contou os horrores que tinha presenciado na véspera. O cônsul relatou esse encontro ao chefe da Legação da Suécia em Berlim, mas o teor das informações apenas seria transmitido às autoridades aliadas depois da capitulação da Alemanha. Outras fontes de informação sobre os massacres de judeus foram o cônsul sueco em Stettin, Karl Vendel, na realidade um agente de Intelligence sueco, enviou ao seu governo um relatório sobre o extermínio de judeus no Governo-Geral da Polónia, que não chegou aos Aliados.

Outra informação transmitida por uma fonte alemã, datada de 30 de Junho, foi uma da autoria do industrial de Breslau, Edouard Schulte, com empresas perto de Auschwitz. O relato chegou a Benjamin Sagalowitz, da Comunidade Judaica de Zurique, e, através deste, a Gerhart Riegner, representante do Congresso Mundial Judaico, em Genebra, o qual, após dar conta ao seu colega Paul Guggenheim, informou três figuras-chave do Comité Internacional da Cruz Vermelha, Susanne Ferrière, Lucie Odier e Carl J. Burckhardt. Por seu lado, na sua mensagem, enviada em 8 de Agosto, às autoridades inglesas e norte-americanas, Gerhard Riegner dava conta da ameaça iminente de morte a leste que pendia sobre milhões de judeus.

O Departamento de Estado norte-americano enviou um resumo para o Gabinete de Serviços Estratégicos (OSS), onde a mensagem de Riegner foi considerada «um boato precipitado inspirado em medos dos judeus». Por isso, não autorizou que dela fosse informado o rabi Sephen Wise, Presidente do Congresso Mundial Judaico americano, em Nova Iorque. Em Londres, no dia 8 de Outubro, o subsecretário do Ministério dos Negócios Estrangeiros britânico, Sir Alexander Cadogan, soube, através de Victor Cavendish-Bentinck, presidente da comissão mista de informações do governo, que só após o final da guerra se poderia utilizar duas das fontes de informação sobre os crimes nazis. Uma das fontes era a gravação de declarações de prisioneiros de guerra alemães, feita pelos britânicos e a outra provinha das já referidas mensagens interceptadas pelos serviços secretos ingleses.

Ian Karski e a Declaração Aliada

Da Polónia, continuavam entretanto a chegar mais notícias terríveis. Em 15 de Novembro, foi a vez de redes de resistentes polacas anunciarem numa mensagem, chegada doze dias depois a Londres, que dezenas de milhares de pessoas, em particular judeus e prisoneiros de guerra russos, tinham sido enviados para esse campo, «com o único objectivo da sua exterminação imediata nas câmaras de gás». No dia 28 de Novembro, chegava a uma base da Royal Air Force (RAF), perto de Londres, o resistente polaco, com o pseudónimo de Karski. Havia abandonado a Polónia, no início Outubro, trazendo informações que já tinham chegado anteriormente de forma resumida, sobre execuções de judeus pelos nazis, e uma cópia das mesmas tinha sido entregue a Alexander Easterman, membro da secção britânica do Congresso Mundial Judaico. Mascarado de polícia letão ou ucraniano, Karski conseguira infiltrar-se no campo de campo de concentração de Izbica Lubelska, que ele julgara ser Belzec.

Depois havia redigido um relatório, que corroborava o conteúdo do telegrama de Riegner e confirmava as mensagens da SS e da Polícia alemã, decifradas pelos serviços secretos ingleses. Richard Breitman mostrou que esse «relatório Karski» foi determinante para dar credibilidade às informações transmitidas, em Agosto de 1942, por Gerhart Riegner, acerca das quais continuavam a ser levantadas dúvidas nos EUA. O relatório fazia a cronologia das execuções na Polónia, desde o Outono de 1941, e dava conta dos preparativos para a deportação do gueto de Varsóvia, em Julho de 1942, aventando a hipótese quase certa de que os destinos dos judeus seriam Treblinka, Sobibor, perto de Lublin, e Belzec, na Galícia oriental, além de identificar já os campos de extermínio da «operação Reinhardt».

O Bund, organização socialista judaica polaca, fazia apelo aos Aliados para que fossem tomadas quatro medidas. Eram estas: a elaboração de uma declaração aliada anunciando que um dos objectivos da guerra era impedir o extermínio dos judeus; uma ofensiva de propaganda junto dos alemães revelando quais os oficiais alemães implicados nos massacres e um aviso de que, caso o genocídio prosseguisse, o povo alemão era considerado colectivamente responsável e haveria represálias, através de bombardeamentos. Em 2 de Dezembro de 1942, Karski transmitiu os apelos angustiados que tinham sido feitos através dele, do gueto de Varsóvia, aos dois representantes dos judeus polacos no Conselho Nacional Polaco, sediado em Londres.

Após encontrar-se duas vezes com Eden, no início de Fevereiro de 1943, Karski deslocou-se aos EUA, onde se encontraria com Rossevelt, em 28 de Julho desse ano, e parece ter tido mais resultados positivos do que na Grã-Bretanha. Se a proposta no sentido de bombardear alvos alemães na Polónia, como represália, seria, como se verá, rejeitada pelos aliados ocidentais, Karski conseguiu, no entanto, que o Departamento do Tesouro, chefiado por Henry Morgenthau Jr., mudasse a política de passividade do Departamento de Estado relativamente ao massacre dos judeus.

Entretanto em 8 de Dezembro de 1942, Londres transmitiu a primeira versão de uma declaração conjunta dos governos inglês, norte-americano e soviético, a reconhecer a realidade da «Solução Final» e a confirmar as execuções em massa de judeus, embora sem referir a existência das câmaras de gás e dos fornos crematórios. No próprio dia 8, Roosevelt concordou com a emissão de uma declaração conjunta dos Aliados sobre o assunto. Aprovada pelo gabinete de guerra britânico, após algumas alterações, o texto tornou-se na declaração conjunta, emitida, a 17 de Dezembro, assinada pelos governos aliados e pelo Comité nacional da França Livre, segundo a qual os judeus da Europa estavam a ser exterminados e avisando que os responsáveis por esses crimes não escapariam ao castigo.

Em 23 de Março de 1943, a resistência civil interna na Polónia deu conta ao governo polaco no exílio da construção, em Auschwitz-Birkenau, de um novo forno crematório, com capacidade para queimar 3.000 vítimas por dia, na sua maioria judeus. Em 5 de Abril de 1943, o embaixador norte-americano na Suécia, Hershel Johnson, enviou um telegrama para Washington, a dar conta que, dos 450.000 judeus de Varsóvia, já só restavam 50.000. Por seu turno, um dia antes do início do levantamento do gueto de Varsóvia, em 18 de Abril de 1943, um mensageiro da resistência polaca chegado a Londres informou sobre a sua estadia na Polónia, nomeadamente em Oswiecim [Auschwitz]. Descrevia as condições deste campo, a Ignacy Schwarzbart, membro do Conselho Nacional Polaco e representante do Congresso Mundial Judaico, que transmitiu um relatório com as informações mencionadas para a sede da sua organização, nos EUA, onde o governo, tal como o britânico, já as tinham então.

A (não) resposta aliada ao Holocausto, 1944-1945

Relativamente à resposta aliada ao Holocausto, Richard Breitman concluiu que, embora tivessem provavelmente reconhecido à época o significado moral e histórico da política nazi relativamente aos judeus, tanto Churchill como Roosevelt não teriam agido à altura dessas circunstâncias. Durante a guerra, os dois governantes ter-se-iam preocupado mais com considerações estratégicas militares e diplomáticas, do que com a tomada de decisões para salvar judeus. Dos dois dados do Atlântico, os responsáveis pela política externa dos Aliados ocidentais falharam na tentativa de pôr um fim ao Holocausto e, apenas em 1943, devido à iniciativa de Ian Karski, e não durante todo o tempo em que Bletchey Park decifrava mensagens da polícia alemã, passou finalmente a haver uma reacção nos EUA.

Esta, porém, não se manifestou em todo o Executivo, mas apenas no Departamento do Tesouro, responsável pelo início da reviravolta na política norte-americana no sentido do salvamento e apoio aos refugiados, aceite por Roosevelt, ao contrário do que aconteceu com a Grã-Bretanha. Um exemplo revelador da falta de acção britânica é o facto de Victor Cavendish-Bentinck não ter explorado as informações sobre os massacres vindos de Bletchley Park, ao mesmo tempo que considerava pouco fiáveis as fontes polacas, particularmente judaicas. Apenas a partir de 1943, deu conta por escrito que os nazis tinham a política de eliminar mulheres, crianças e velhos, poupando da morte apenas os homens capazes de trabalhar. Isto deveria ter feito concluir que haveria milhares de mortos, mas nada fez.

Os «protocolos de Auschwitz»

Em 1944, as notícias sobre os massacres de judeus chegavam de todos os lados aos Aliados, mas Martin Gilbert deu conta que até à evasão de quatro judeus de Auschwitz, no primeiro trimestre desse ano, num período em que ali morriam 12.000 judeus por dia, essa enorme fábrica da morte tinha permanecido quase desconhecida. Esse historiador estava a referir-se aos chamados «protocolos de Auschwitz», que chegaram aos Aliados, através dos judeus esclovacos Rudolf Vrba (Walter Rosenberg) e Alfred Wetzler, que haviam conseguido escapar e Auschwitz-Birkenau, em 7 de Abril, quatro dias depois de, sem o saberem, a força aérea norte-americana ter fotografado esse campo e os seus fornos crematórios.

Os dois fugitivos chegaram à Eslováquia, no dia 21, e, quatro días depois, contaram ao judeu polaco Oskar Krasníansky, da comunidade judaica de Zilina, o que sabiam, nomeadamente que um milhão de judeus húngaros iriam brevemente ser mortos. Yehuda Bauer estudou o percurso dos «protocolos», tentando saber quando chegaram à Suíça e a Budapeste, onde - lembre-se - a deportação em massa dos judeus húngaros começara, em 14 de Maio de 1944, após a ida do primeiro combóio da provícia húngaro para Auschwitz, no final do mês anterior. As informações inseridas nos «protocolos» propriamente ditos, cuja redacção terminou em 27 de Abril, só chegaram a Budapeste ou à Suíça, no início de Junho, ou seja, com um atraso de um mês.

Segundo observou Bauer, de nada serviram ao salvamento dos judeus húngaros, embora esse historiador não deixou de considerar o conhecimento dos «protocolos» essencial para a realização de operações de salvamento de judeus, dada as informações necessárias para uma acção desse tipo que eles transmitiram. Assinalou, em particular, que era necessário que se acreditasse nas informações e a veracidade dos «protocolos» tornava-as credíveis junto dos Aliados ocidentais, pelo que os homens que os divulgaram - Kastner, Weissmandel, Petõ, Krasniansky e Saly Mayer, delegado do Joint Distribuition Committee na Suíça – contribuíram para tentar salvar judeus. Do lado dos Aliados, ainda segundo Yehuda Bauer, não se verificaram durante todo esse período final da guerra grandes esforços para o salvamento das vítimas dos nazis. Foram, nomeadamente, rejeitados planos de salvamento dos judeus húngaros, embora a libertação dos campos de extermínio a algumas iniciativas, em particular na Hungria ocupada, tivessem implicado o ganho de dezenas de milhares de vidas das vítimas.

Entretanto no Outono de 1944, o governo britânico deixara claro que não daria ordens para bombardear Auschwitz-Birkenau, afirmando que, para o salvamento dos judeus e outras vítimas do nazismo, o maior contributo seria a vitória dos Aliados na guerra. Essa questão do bombardeamento das vias férreas com destino a Auschwitz, que nunca chegou a acontecer, fez e faz ainda correr muita tinta na historiografia sobre o tema. Por seu lado, Walter Laqueur observou que as democracias deveriam ter parado Hitler no início da sua campanha de agressão à URSS e que, a partir do Verão de 1942, já nada haveria a fazer para salvar a maioria dos judeus do Reich e da Europa Central.

É certo que, segundo ele, algumas das vítimas se poderiam ter salvo, se as informações sobre o extermínio tivessem sido mais amplamente difundidas, enquanto outros poderiam ter escapado à morte, se os países satélites e aliados do Eixo tivessem sido ameaçados ou os povos da Europa livre tivessem sido chamados a ajudar em grande escala os perseguidos. No entanto, Laqueur referiu diversos factores que não possibilitaram reacções ou as atrasaram, desde o medo paralisante, por um lado, ao optimismo dos que, pelo contrário, não quiseram acreditar nos sinais, ou, em terceiro lugar, a ignorância de muitos outros, ou ainda mistura de todos estes factores.

Por seu turno, Richard Breitman colocou dúvidas sobre a possibilidade de bombardeamento, sem que isso provocasse a morte de muitos dos prisioneiros que se encontravam em Auschwitz. Assinalou que a primeira proposta de que esse complexo de campos fosse bombardeado partiu do governo polaco no exílio, em Agosto de 1943, quando os bombardeiros britânicos não tinham capacidade técnica para chegarem com o armamento adequado até o sudeste da Polónia. As possibilidades de bombardear Auschwitz aumentaram consideravelmente em princípios de 1944, depois de os Aliados terem estabelecido bases e equipamento apropriado em Itália (em Foggia)..

Mesma opinião que Breitman manifestou Gerhard Weinberg, acerca da possibilidade de interferência da parte dos Aliados no processo de matança através de bombardeamentos. Observou que isso só se tornou possível após o desembarque aliado na Normandia e da tomada dos aeroportos da Itália central, quando os britânicos e norte-americanos passaram a ter bases para atingir, por via aérea, qualquer território nas mãos dos alemães. De qualquer forma, no seguimento das fugas de vários prisioneiros de Auschwitz - em especial de Rudolf Vrba e Alfred Wetzler -, na Primavera de 1944, foram revelados junto dos Aliados, como se viu, muitos mais pormenores sobre as carnificinas que ali eram levadas a cabo. De novo, alguns representantes judeus propuseram formas de pôr termo às operações de extermínio em Birkenau.

Breitman deu conta que Churchill reagiu às informações sobre Aushwitz-Birkenau, em 11 de Julho, comentando por escrito, numa carta dirigida a Eden, não haver dúvida de que se estava provavelmente a assistir ao maior e ao mais «horrível crime cometido em toda a história do mundo». Raoul Hillberg afirmou que Churchill teria então dito a Eden que «obtivesse da força Aérea tudo o que pudesse», mas que as autoridades britânicas e norte-americanas excluíram a hipótese de bombardear as linhas férreas, por falta de informação topográfica. Mas essa acabaria por ser totalmente descartada essa possibilidade. Churchill ameaçou os responsáveis, dizendo ser «muito claro que todos os que participaram neste crime que possam cair nas nossas mãos, incluindo os que apenas obedeceram a ordens para levarem a cabo a carnificina, deveriam ser condenados à morte, depois de a sua culpabilidade nos homicídios ter sido provada».

Breitman concluiu que o bombardeamento das câmaras de gás de Auschwitz-Birkenau, no Verão ou no Outono de 1944, teria sido uma expressão mais forte e convincente da preocupação com o massacre dos judeus e ciganos europeus, do que qualquer outra actuação até ali levada a cabo pelos EUA e a Grã-Bretanha. No entanto, o mesmo historiador observou que mais do que a rejeição de bombardear Auschwitz, foi o tempo já perdido pelos governos ocidentais, entre o Outono de 1941 e o início de 1944, ano em que foi fundado o Conselho dos Refugiados de Guerra, que contribuiu fundamentalmente para o fracasso das operações de salvamento.

O massacre dos judeus da Hungria, em 1944

Relativamente à Hungria, em consequência da invasão e da ocupação alemã da Hungria a comunidade judaica húngara, que tinha sobrevivido relativamente intacta aos primeiros quatro anos e meio da guerra, foi sujeita ao maior e mais concentrado processo de destruição das comunidades judaicas levada a cabo pelos alemães contra os judeus. E isso aconteceu na véspera da vitória aliada e sob os olhos dos Aliados, quando os terríveis detalhes da Solução Final já eram conhecidos. Os cerca de 825 000 judeus - incluindo os conversos definidos como judeus pela lei racial húngara de 1941 - e dezenas de milhares de refugiados judeus procedentes de outros países ficaram em grave perigo.

Com a chegada de Eichmann e do seu Sondereinsatzkommando a Budapeste, no próprio dia 19 de Março, instalando o seu Q.G. no luxuoso Hotel Majestic, foi de imediato organizado um plano de deportação dos cerca de 437.000 judeus das províncias da Hungria, com a ajuda de húngaros. No final de Março, foram obrigados a usar a estrela amarela, o que facilitaria depois as prisões e as deportações e, em Abril de 1944, as autoridades húngaras ordenaram aos cerca de meio milhão de judeus a viverem fora de Budapeste a sua concentração em certas cidades, onde foram encarcerados em guetos. Em meados de Maio, em coordenação com a Política de Segurança e o SD alemães, sob a chefia do coronel SS Adolf Eichmann, as autoridades húngaras começaram a deportar sistematicamente os judeus e, em menos de dois meses, quase 440.000 foram conduzidos da Hungria para a Polónia, em 145 comboios e, no final de Julho, já apenas subsistiam os judeus de Budapeste.

Informado da rapidez com que os judeus estavam a ser chacinados na Hungria, Churchill terá dito que se tratava provavelmente do «maior e mais horrível crime jamais cometido na História do mundo». Mas ao ser-lhes pedido, após o início das deportações, com a partida dos primeiros comboios para Auschwitz, em 15 de Maio, que bombardeassem a linha férrea com destino esse complexo de campos de concentração, trabalho forçado e extermínio, os Aliados recusaram alegando, entre outros factores, não poderem desperdiçar força aérea em «alvos secundários». Da mesma forma os aliados também pouco ou nada fizeram para travarem as deportações, quer as forças soviéticas, quer as forças internas clandestinas na Hungria, Eslováquia e Polónia, quer, durante a primeira fase das deportações, os países neutrais, Suíça, Suécia, Espanha, Turquia e Portugal.

 

Bibliografia

Laqueur, Walter, The Terrible Secret : Suppression of the Truth about Hitler's "Final Solution", Boston , Toronto, Little Brown, 1980

Bauer, Yehuda, Repenser l´Holocauste, Paris, Éds. Autrement/Frontières, 2002

Breitman, Richard, Os Segredos do Terceiro Reich que os Aliados Sabiam, Lisboa, Âncora Editorial, 1998

Friedländer, Saul, Nazi Germany and the Jews, 1939-1945. The Years of extermination, Harper Collins, 2007

Karski, Ian, O Meu Testemunho Perante o Mundo. O Relato único do homem que denunciou o Holocausto e que o mundo ignorou, Lisboa, Bizâncio, 2011.

 

24 comentários

Comentar post

Pág. 1/2

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • f.

    olá. pode usar o endereço fernandacanciodn@gmail.c...

  • Anónimo

    Cara Fernanda Câncio, boa tarde.Poderia ter a gent...

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media