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putas e santinhos

A história foi-me contada por um velho amigo, há já algum tempo. Um certo senhor chinês emitiu, em contexto social (melhor dizendo, institucional), a sua opinião acerca de Portugal e as diferenças com o seu país natal; mais especificamente, o facto de os portugueses gostarem muito de santinhos. Afirmou, portanto, que “em Portugal, muitos santos, santos, muitos. Na China, não há santos. Na China, só putas”. Perante o súbito silêncio de quem o ouvia, e percebendo que havia ali um mal-entendido, achou por bem repetir que “na China não há santos, só putas”. E como a cara de espanto dos convivas se acentuava, desenvolveu: “Putas, putas, muitas putas. Na China, só putas, não santos”. E fechou os olhos em pose estática, para se fazer compreender melhor. Embaraço geral. Subitamente, alguém mais sensível às diferenças fonéticas entre as línguas percebeu que o senhor queria dizer “budas”. Sim, na China há muitos budas, só budas, não há santos, é um facto.

Isto ocorreu há uns anos. Se fosse hoje, se fosse no domingo passado, o senhor chinês teria provavelmente menos dificuldade em fazer-se entender, porque talvez alguém que o estivesse a ouvir achasse que Portugal também está cheio disso. Até um primeiro-ministro assim, imaginem. Nem buda, nem santo, porém: puta mesmo. Foi isso que os amarelinhos dos colégios, como se viu por alguns dos cartazes que empunharam, queriam chamar a António Costa, mas não o fizeram porque é uma palavra feia e aquela gente, ninguém duvida, é muito respeitadora; sobretudo dos seus privilégios, do sagrado direito à “liberdade de escolha” e de colocarem os filhos em colégios particulares à conta do erário público, mas acredito que também da autoridade e dos preceitos da Santa Madre Igreja, sim, respeitadores de tudo isso. Obviamente, também de linguagem adequada. Nada de asneirices. “Fulano, és uma puta” sairia da boca de um qualquer esquerdalho ou comuna, nunca de gente bem educada como esta. Na verdade, seria uma falácia (“Passos – ou Portas –, és um cabrão” seria bem mais verosímil, como há anos gritavam os estudantes espanhóis, “Maravall, cabrón, viene al balcón!”), mas isso não importa agora.

 

N’a Crónica dos Bons Malandros do Mário Zambujal há uma passagem interessante que demonstra este respeitinho com a linguagem, quando o subchefe da polícia pergunta às mulheres a profissão e elas dizem “putas, senhor subchefe”, e ele responde “então isso diz-se assim? Meretrizes, queria a senhora dizer”. Ora nem mais. E mais adiante, “ando há 26 anos nesta vida e ainda não houve um filho da puta, perdão senhor subchefe, de meretriz, que se ficasse a rir da Lina Despachada”.

Pois bem, quem diz “meretriz” diz “rameira”. “Puta” não, embora as haja de todas as cores e feitios, em Portugal e no mundo, como cantam os Ena Pá 2000. As do interior chupam no prior, as do litoral chupam no industrial, etc. Ora, segundo a amarelagem, Costa é isso mesmo, uma rameira, porque não querem dizer puta. Se algum deles fosse à China, talvez contasse aos seus anfitriões que “em Portugal, não há putas, só rameiras. Rameiras, muitas rameiras”. E, se calhar, acrescentaria um caso concreto e politicamente relevante. Esclareça-se que Costa não é uma rameira qualquer. Primeiro, porque é um homem e a palavra não tem masculino. Chamá-lo de “rameiro” confundiria muitos icterícios presentes com a peça de Almeida Garrett, coisa inconveniente, sobretudo para quem não prima pelo rigor no português e escreve cartazes a dizer que tem os filhos “destabilizados”. Segundo, porque é uma rameira (ou meretriz, ou puta mesmo) especial, como diziam os cartazes: “Costa – rameira da esquerda”. Portanto, não de esquerda, mas a rameira da esquerda. Ou seja, alguém de quem a esquerda usa e abusa (e esperemos que pague convenientemente) de forma exclusiva.

Isto é estranho para quem é chefe de um governo, secretário-geral do respetivo partido e líder do primeiro acordo político à esquerda. Ora, chamá-lo de rameira da esquerda não faz sentido. Fá-lo-ia se vendesse os seus serviços a alguma coisa que não liderasse, a algo que fosse estranho aos interesses que está obrigado a defender ou incompatível com a função que desempenha. Por exemplo, à direita. Se os esquerdalhos tivessem, em tempos, escrito “Passos, puta da Alemanha” ou “Portas, puta da Troika” faria obviamente – estou a falar em teoria, claro – mais sentido. Assim, não. Talvez concubina – mantendo o género feminino, que é sempre o primeiro passo a dar quando se quer menorizar e humilhar alguém – fosse mais correto. “Costa, concubina da esquerda”, melhor, hein? Costa deita-se com a esquerda, Costa dorme com a esquerda, Costa fode com a esquerda. Já “Costa, esposa da esquerda” não, que horror, isso seria um intolerável paralelo com um sacramento, um elogio e não um insulto. Mas não foi isso. “Rameira” (ou meretriz, ou puta mesmo) foi o que saiu. Na verdade, o que o Homo amarelicus queria dizer é que Costa se vendeu à esquerda. Ironia interessante, porque o que está em causa é mesmo dinheiro, muito, o dos contribuintes, o que financia os ditos colégios. Costa vende-se à esquerda porque a esquerda compra e vende tudo (grande jeito para o negócio tem esta abrilada), sobretudo o país. Costa é a rameira, a grande rameira (nem sei como ninguém o chamou de Babilónia, que aquilo é decerto gente versada em cultura bíblica) e, pelo que deduzo, Jerónimo e Catarina são os chulos, os mestres do proxenetismo lusitano. A geringonça é, portanto, um infecto bar de alterne. “Em Portugal, não há santos à esquerda, só putas, muitas putas” seria a versão mais correta. À esquerda, esse saco sem fundo onde cabem as maiores malfeitorias que alguma vez se fizeram à nação.

Não sei se ocorre algum alinhamento astral por esta altura. Mas no firmamento nacional, garanto que sim. Eis a declaração política do ano, proferida há meses por Arnaldo Matos, esse grande líder das massas – no pun intended –, na Luta Popular, órgão do MRPP: a de que “isto” [a geringonça] “não é política de esquerda, isto é tudo um putedo! E é contra este putedo todo que se têm de erguer o povo trabalhador, a classe dos operários e os verdadeiros comunistas”. Agora podemos acrescentar “e os colégios privados”. Como é bom entender a harmonia do Universo, não é mesmo?

 

(publicado originalmente na Geringonça a 8 de junho)

 

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