Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

jugular

Quem sabe, sabe e o arquiteto é que sabe.

Alguns terão ficado surpreendidos quando, há uns anos, o arquiteto José António Saraiva admitiu a hipótese de vir a receber o prémio Nobel da Literatura. Hoje sabemos que na altura o arquiteto não pecou por excesso mas por defeito. A diversidade temática das crónicas de Saraiva na revista do Sol revela um conhecimento enciclopédico, merecedor não apenas do Nobel da Literatura como até, eventualmente, do Nobel da Economia ou da Medicina. Está ainda fresco, na memória de todos, o seu recente ensaio de anatomia sobre pêlos e calosidades.

Na última crónica, o arquiteto debruça-se sobre o ofício da Publicidade, mais uma «área em que, passe o autoelogio, julgo que tenho algum jeito». Saraiva olha para a publicidade a partir de um ângulo particularmente original: «Os publicitários têm de superar um problema que nunca vi referido. Ao publicitarem um produto, precisam de convencer os consumidores de que aquele é o melhor produto do mundo, que não há nada igual». De facto, não é todos os dias que vemos referido que os publicitários precisam de convencer os consumidores de que aquele é o melhor produto do mundo.

José António Saraiva fala, como sempre, com conhecimento de causa. Para ele, a arte da publicidade não tem segredos: «Quando cheguei ao semanário Expresso, a chamada 'assinatura' do jornal era O jornal dos que sabem ler». Dez anos depois do 25 de abril e já com a taxa de analfabetismo a descer, Saraiva teve a capacidade de perceber que «o slogan o jornal dos que sabem ler já não fazia sentido». Contratou então uma agência de publicidade, mas «Quando veio a proposta, apanhei uma tremenda desilusão: Se vir no Expresso a notícia de que aterrou na Terra um disco voador, deve acreditar, porque o Expresso é um jornal de confiança». O atual diretor do semanário Sol achou aquilo «um disparate total»: «associar a imagem do jornal à fantasia dos discos voadores minava por completo a sua credibilidade». Este reputado especialista em pêlos e calosidades jamais poderia permitir que a fantasia dos discos voadores minasse a credibilidade do seu jornal.

Refeito de mais uma «tremenda desilusão» com profissionais especializados, o arquiteto Saraiva pôs de novo a sua cultura geral em ação: «Este desconforto moeu-me durante vários dias. Até que, numa viagem de comboio para o Porto, ocorreu-me subitamente a ideia salvadora: um grande cartaz com esta frase a toda a largura: Acredite, se ler no Expresso». Genial. Ligou imediatamente ao patrão a dar a boa nova. «Estava-se ainda na idade da pedra dos telemóveis», e o arquiteto era portador de «um admirável tijolo», não menos pesado do que o saco do próprio Expresso. Balsemão ficou praticamente sem palavras com a chamada do arquiteto: «Perguntou-me apenas se punha uma vírgula ou não entre o 'acredite' e o 'se ler no Expresso'».  

Além do «Acredite, se ler no Expresso», claro, para Saraiva, as duas frases publicitárias mais «impactantes» de sempre são «Bosch é bom!» e «OMO lava mais branco». «Por mais tempo que passe, sabemos a que marcas reportavam», talvez porque, à semelhança do clássico «Acredite, se ler no Expresso», são frases que já vêm com o nome da marca. «Este é o segredo dos grandes anúncios». Quem sabe, sabe e o arquiteto é que sabe.

 

PS: Era inevitável que estas brilhantes incursões multidisciplinares começassem a prejudicar as faculdades de analista político do arquiteto. Hoje, no Sol, retoma a “política à portuguesa” para escrever o seguinte: «Em 1999, o PS alcançou 43 % nas europeias e 38% nas legislativas (perdeu 5 pontos); e o PSD passou de 31 % para 40% (subiu 9 pontos). Em 2009, o PS obteve 27% nas europeias e 28 % nas legislativas; já o PSD passou de 32% para 39%.» Ora, em 1999, nas legislativas, o PS elegeu os famosos 115 deputados, o que não seria possível com os 38% do arquiteto. Por outro lado, em 2009, Sócrates ganhou as legislativas a Ferreira Leite, o que também não teria sido possível se o PS tivesse tido 28% e o PSD 39%, como pretende o arquiteto. Saraiva conclui em seguida que «Não é possível tirar quaisquer ilações de umas eleições para outras». Assim, de facto, não é possível.   

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

Arquivo

  1. 2018
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2017
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2016
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2015
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2014
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2013
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2012
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2011
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2010
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2009
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2008
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2007
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D

Links

blogs

media