Saltar para: Post [1], Comentários [2], Pesquisa e Arquivos [3]

jugular

sermão ao (in)clemente

antes de mais, quero certificar que também eu, apesar de não cristã, aceito manuel clemente como pessoa (de um modo geral aceito as pessoas, mesmo as que usem sapatos horríveis, como pessoas, e já fui mesmo vista a falar pessoalmente com cactos). 

 

isto assente, também me vejo na contingência de assegurar que não estou minimamente chocada com as afirmações do patriarca de lisboa sobre achar que 'com certeza que se devem fazer referendos sobre os direitos das minorias'.

 

não só porque já o ouvi falar mais vezes e julgo ter conseguido determinar com maior ou menor precisão o que pensa e como pensa, como porque é dirigente da igreja católica, que também julgo ter percebido o que é há cerca de umas décadas, e porque, por fim, foi sempre para mim óbvio que a proposta de referendo do psd é um favor feito à facção mais conservadora da sociedade portuguesa que se aglutina em redor daquilo que considera 'os valores católicos' -- e que, como tão bem manuel clemente explanou nesta entrevista, consistem sobretudo em discriminação e perseguição, mesmo e sobretudo de sorrisinho melífluo afivelado, de tudo aquilo que não se conforme com a sua visão do que é o bem e o belo. 

 

ainda assim, creio que vale a pena dizer (ou melhor, relembrar) uma ou duas coisas a propósito do que clemente disse. primeiro: o que é uma família e o que é a sociedade. para clemente, a poligamia (um homem que coabita e tem sexo com várias mulheres) merece o nome de família, mas uma pessoa sozinha (mulher ou homem) com filhos ou um casal do mesmo sexo com filhos não é uma família, não merece 'o direito' de ser denominada como tal nem de ser como tal tratada 'pelo direito': ´é outra coisa que requer outro nome e até outra contemplação jurídica.'

 

isto porque, diz o patriarca de lisboa (lisboa, note-se) 'a sociedade é também o conjunto de costumes, tradições, ideias força e valorizações genericamente assumidas' e é 'uma involução igualizar relacionamentos sociais e dar-lhe o conteúdo e até uma formulação jurídica e normativa equiparados quando efectivamente são questões diferentes'. e prossegue: 'quando eu digo que um conjunto de pessoas opta por algo que não é o que a sociedade valorizou até aqui, deve ser respeitado na sua decisão pessoal, embora não lhe caiba a mesma normatividade que ao conjunto da sociedade, senão a dada altura nós já não sabemos o que é a sociedade'.

 

ora bem. sabe manuel clemente o que é a sociedade e o que ela valoriza? vejamos: de 1990 para 2012, o número de casamentos baixou de 71654 para 34099. no mesmo período, o número de casamentos não católicos (entre pessoas de sexo diferente) passou de 27,5% para 62% -- os casamentos católicos baixaram de 51963 para 12945. vou repetir: 12945. outra vez: 12945. sendo certo que nem todos os nubentes de casamentos católicos são católicos (conheço vários que não o são), é o chamado arraso. 

 

prossigamos: em 1990, a percentagem de crianças nascidas fora do casamento era de 14,7%; em 2012 é 45,6%. dos quais, 32,8 com coabitação dos pais. sem coabitação dos pais, a percentagem passa de 5,4% em 2000 para 12,8% em 2012. o número de famílias monoparentais (entendidas como um progenitor que vive com crianças) passou de 203.654 em 1992 para 423.518 em 2012: mais que duplicou em 20 anos. o crescimento é maior nas famílias monoparentais masculinas (de 31.437 para 63.553) que nas monoparentais femininas (200.505 para 359.965). 

 

temos de concluir pois que a sociedade valoriza coisas muito diferentes das que manuel clemente imagina que ela valoriza -- e tem 'opções' que na sua maioria ele considera que não têm nada a ver 'com o que a sociedade valorizou até aqui'. (e nem vou puxar da sondagem da pitagórica que há duas semanas certificava ser a maioria dos portugueses a favor da co-adopção em casais do mesmo sexo e da adopção por casais do mesmo sexo).

 

está portanto provado que manuel clemente não faz a mínima sobre o que é a sociedade portuguesa e o que ela valoriza. mas sabe sequer o que é o seu rebanho e o que ele valoriza? leia-se por exemplo anselmo borges hoje no dn, sobre o resultado do famoso inquérito papal na alemanha. ou o inquérito da própria conferência episcopal que certifica que de 80% dos inquiridos que se definiram como católicos só 34,6% vão à missa todos os domingos (um dos deveres essenciais de um católico e que o define como tal de acordo com as regras internas da organização igreja católica), menos que os 35,5% que se definem como 'católicos nominais' ou 'ocasionais' -- um estado que o antecessor de clemente, josé policarpo, considerou ser 'mais grave do que o ateísmo racional e militante' ('este deus ‘inútil’ daqueles que, mesmo admitindo que ele existe, vivem como se não existisse, é um estádio da evolução cultural mais grave do que o ateísmo racional e militante'), tendo vincado: 'a igreja tem de assumir claramente que não coincide com a sociedade, embora, entre nós, o elevado número de baptizados não praticantes ou, porventura, não crentes, possa ainda alimentar essa confusão.'

 

ou seja, praticamente metade dos portugueses que se definem como católicos de católicos só têm mesmo a definição. o que atira o rebanho de clemente -- aquele que supostamente segue a doutrina e liga a mínima para o que ele e os colegas dizem -- para menos de 30% da população. não quero ser chata, mas parece-me que estamos perante a chamada 'opção minoritária' (como de resto policarpo admitiu) -- e a diminuir de cada vez que clemente pestaneja (e provavelmente ainda mais quando fala). assim, está claramente na altura, seguindo a doutrina de clemente, de saber se faz sentido continuar a tratar 'com a mesma normatividade' privilegiada que até aqui uma organização que tem vindo a perder de forma acelerada a sua influência na sociedade e cuja doutrina e perspectiva sobre o mundo e o bem parece criar uma cada vez maior rejeição até entre os poucos que a valorizam.

 

isto, claro, 'nunca pondo em causa os direitos humanos adquiridos', como diz clemente -- não vamos, como sucedeu até ao século xx às confissões não católicas por imposição do poder político que se assumia oficialmente católico (a liberdade de culto só foi estabelecida em 1911, com a república), impor que as igrejas não tenham porta para a rua ou, como sucedeu aos evangélicos na madeira em 1846, destruir e pilhar as suas instituições e exilar os seus crentes. também não estamos a ponderar referendar o direito dos católicos, ou sequer dos padres, a adoptar crianças. mas, perguntemo-nos, que sentido faz tratar de forma diferente aquilo que é igual?

 

a igreja católica é uma organização religiosa como tantas outras, que pretende ter direito não só a um tratamento mais favorável como a permitir-se dar indicações sobre 'o profundo sentir' dos portugueses e aquilo que estes consideram bom e mau, como a dar indicações de cátedra sobre o que deve ser a 'normatividade' civil -- ou seja, as leis republicanas -- pelas quais a sociedade se deve reger. fá-lo arrogando-se representar a maioria dos portugueses -- quando realmente representa quanto muito 30%, e apenas conseguiu mover, naquela que foi até agora a sua maior batalha política (perdida, por sinal), o combate à legalização do aborto, um máximo de 1,5 milhões de pessoas -- pouco mais de 10% da população. será interessante como lobby eleitoral para este ou aquele partido, mas não é decerto representativo 'dos portugueses'.

 

a verdade é inclemente para clemente -- e, mesmo continuando a aceitá-lo rigorosamente como pessoa, não temos pena. nenhuminha. 

24 comentários

Comentar post

Arquivo

Isabel Moreira

Ana Vidigal
Irene Pimentel
Miguel Vale de Almeida

Rogério da Costa Pereira

Rui Herbon


Subscrever por e-mail

A subscrição é anónima e gera, no máximo, um e-mail por dia.

Comentários recentes

  • Fazem me rir

    So em Portugal para condenarem um artista por uma ...

  • Anónimo

    Gostava que parasses de ter opinião pública porque...

  • Anónimo

    Inadmissível a mensagem do vídeo. Retrocedeu na hi...

  • Anónimo

    "adolescentes e pré-adolescentes pouco dados à int...

  • Anónimo

    apos moderaçao do meu comentario reitero

Arquivo

  1. 2019
  2. J
  3. F
  4. M
  5. A
  6. M
  7. J
  8. J
  9. A
  10. S
  11. O
  12. N
  13. D
  14. 2018
  15. J
  16. F
  17. M
  18. A
  19. M
  20. J
  21. J
  22. A
  23. S
  24. O
  25. N
  26. D
  27. 2017
  28. J
  29. F
  30. M
  31. A
  32. M
  33. J
  34. J
  35. A
  36. S
  37. O
  38. N
  39. D
  40. 2016
  41. J
  42. F
  43. M
  44. A
  45. M
  46. J
  47. J
  48. A
  49. S
  50. O
  51. N
  52. D
  53. 2015
  54. J
  55. F
  56. M
  57. A
  58. M
  59. J
  60. J
  61. A
  62. S
  63. O
  64. N
  65. D
  66. 2014
  67. J
  68. F
  69. M
  70. A
  71. M
  72. J
  73. J
  74. A
  75. S
  76. O
  77. N
  78. D
  79. 2013
  80. J
  81. F
  82. M
  83. A
  84. M
  85. J
  86. J
  87. A
  88. S
  89. O
  90. N
  91. D
  92. 2012
  93. J
  94. F
  95. M
  96. A
  97. M
  98. J
  99. J
  100. A
  101. S
  102. O
  103. N
  104. D
  105. 2011
  106. J
  107. F
  108. M
  109. A
  110. M
  111. J
  112. J
  113. A
  114. S
  115. O
  116. N
  117. D
  118. 2010
  119. J
  120. F
  121. M
  122. A
  123. M
  124. J
  125. J
  126. A
  127. S
  128. O
  129. N
  130. D
  131. 2009
  132. J
  133. F
  134. M
  135. A
  136. M
  137. J
  138. J
  139. A
  140. S
  141. O
  142. N
  143. D
  144. 2008
  145. J
  146. F
  147. M
  148. A
  149. M
  150. J
  151. J
  152. A
  153. S
  154. O
  155. N
  156. D
  157. 2007
  158. J
  159. F
  160. M
  161. A
  162. M
  163. J
  164. J
  165. A
  166. S
  167. O
  168. N
  169. D

Links

blogs

media