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Stan Lee e as esquinas da memória

Stan_Lee.jpg

A memória é uma coisa estranha. Stan Lee morreu anteontem e eu, como tanta gente, apressei-me a anunciar e a lamentar o facto no Facebook, como todos fazemos de forma mais  ou menos rotineira. Todos os dias há notícias idênticas, todos os dias desaparecem pessoas cuja perda lamentamos. Mas depois fiquei a pensar de onde me vinha o especial pesar. Ainda demorei algum tempo, estava visível, mas muito bem arrumado nos arquivos da minha memória; digamos que catalogado algures numa esquina. Stan Lee era, para mim, o Homem-Aranha, mas o fascínio era enraizado, remoto e muito anterior aos filmes e ao Marvel craze recente.

Começou assim. Estávamos em 1978. Não havia internet e a banda desenhada, sobretudo os comics norte-americanos, era coisa mais ou menos menosprezada, só apreciada por jovens e crianças e alguns fanáticos. Super heróis da Marvel? Em Portugal, nada, só bem mais tarde. Havia - descobri depois - uma revistas brasileiras da Bloch, de regularidade muito incerta, que circulavam sobretudo nas casas e quiosques de livros usados. Eu tinha 11 anos e o Diário Popular, que o meu pai comprava religiosamente todos os dias, começou a publicar as histórias do Homem-Aranha, em tiras diárias. Ao sábado, eram três, e a cores. Grande bónus. Inicialmente não liguei, mas a partir de certa altura despertou o meu interesse e comecei a ler. Num momento obscuro, penso que já em 1979, decidi começar a recortar e a coleccionar as tiras. Recuperar as antigas, desde o início, foi uma tarefa árdua. O meu tio tinha uma oficina de bate-chapas e eu ia lá com alguma regularidade. Grande emoção: nessa altura, os jornais eram o material usado na pintura dos automóveis e descobri que ali havia, sobretudo, Diários Populares. Muitos, e à mão. Não sei se terá servido para burilar a minha nascente veia de historiador, mas passei ali muitas horas a catar e a salvar preciosas tiras do uso e da irreversível destruição. As mais raras era as do "Dr. Destino", as primeiras; já as do "Dr. Octopus" eram mais banais e cheguei a ter repetidas. Umas a preto e branco, outras a cores, as de sábado, as mais cobiçadas.

Colecionei as tiras recortadas do Homem-Aranha durante muito tempo. Guardei-as religiosamente, devidamente ordenadas, durante outro tanto. Redescobri-as ontem, depois de procurar, na memória e no sótão, a sua localização. É um belo molho de dezenas de tiras, talvez centenas. "Stan Lee + John Romita", lê-se em todas elas. Só mais tarde soube que o primeiro era o criador dos mais importantes super-heróis da Marvel e o segundo, um dos desenhadores. Nem sequer fora o primeiro. Esse chamava-se Steve Ditko, mas o desenhos eram toscos. Li muitas histórias da Marvel, mas o Homem-Aranha sempre foi o meu favorito. Este. O do John Romita. Nunca consegui ler a versão original (e completa, porque me faltam tiras) que foi publicada no Diário Popular. Nunca soube se havia muita ou pouca gente a ler, e se outros putos, como eu, liam, recortavam e colecionavam. E se arrumaram tudo algures, na memória e numa cave ou numa gaveta. A certa altura, a publicação acabou e foi substituída pela Guerra das Estrelas. Que sabe se algum dia terei disponibilidade para digitalizar tudo e colocar online, talvez num blog de tralhas de baú. O melhor de se terem passado 40 anos é isto: a memória é minha, mas posso partilhá-la com o mundo. Stan Lee morreu e esta é uma gota no oceano das suas memórias.

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