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Eu, escravo, me confesso

No dia 23 de Novembro fui renovar o meu caduco bilhete de identidade. Rectius, fui trocá-lo – a ele e a mais uma carrada de documentos – pelo cartão do cidadão. Por distracção e estupidez, enganei-me (ligeiramente) na morada que indiquei. Em vez do direito, afiancei (assim mesmo) que era no esquerdo que morava – a minha mnemónica política deixou-me mal. Segundos depois de a senhora que me atendeu ter carregado no “enter” definitivo – e ela, quando me pediu para conferir os dados, avisou-me do carácter apocalíptico da coisa –, veio-me à memória (por mnemónica alternativa) que o meu lar-doce-lar era à direita e não à esquerda. A medo, disse-o (disse-lho). Ela olhou para mim como eu merecia ser olhado, pois se tinha tido o cuidado de me avisar. Mas tudo bem – não seria morte de homem –, haveria de receber uma carta em casa a avisar que o cartão estava pronto e, nessa altura, poderia emendar o erro. Quatro ou cinco dias, disse ela.

Chegado a casa, lembrei-me do óbvio: a carta iria parar à casa da minha vizinha. Nada de preocupante, bastava-me pedir-lhe para me fazer o favor de, assim que recebesse a carta, a depositar na caixa do correio ao lado. Por escolha do destino, nessa semana não a apanhei uma única vez. Passados cerca de dez dias, liguei para a conservatória e expliquei o caso. Que não havia nada a fazer, sem papel não iria ter direito ao cartão que me prova cidadão. Aproveitando a oportunidade, a senhora verificou se o tal do cartão já tinha chegado. Que não, estranhamente. Que não.

"– Só um bocadinho…"

(bocadinho)

"– Olhe, temos aqui um problema, o seu pedido está, desde o dia 23, bloqueado nas finanças, é melhor ligar para lá. Isto está tudo cruzado, sabe?"

Assim fiz, ciente que me deitava na cama que tinha feito. Ali, explicaram-me que “o sistema” havia instituído aquele bloqueio para obrigar o contribuinte a ir às finanças actualizar a morada (normalmente desactualizada nas finanças) e não havia previsto o caso de contribuintes [burros, digo eu] que se enganavam na morada que indicam na conservatória. Ou seja, como a morada das finanças é a correcta e a da conservatória é a errada, havia que corrigir o erro na fonte. Sucede que, como já disse atrás, depois do fatídico “enter”, ali (na conservatória) não havia nada a fazer. A única possibilidade seria esperar pela carta que iria para a caixa de correio da minha vizinha para, dela munido (da carta), emendar a mão.

O problema é que a carta não virá (olhó rabo na boca da pescadinha), pois se o processo só será desbloqueado nas finanças caso eu lá vá actualizar a morada – a tal que nestes serviços não está errada. Ou seja, para resolver o problema, teria de declarar nas finanças que moro no esquerdo e não no direito (o que é falso), ao contrário do que lá consta. O desbloqueador activa-se, eu recebo a carta, vou à conservatória alterar a morada – do esquerdo para o direito – e regresso às finanças para voltar a alterar a morada – da errada (que eu declararia – erro sobre erro para emendar o erro) para a certa. O problema é que isto bule com outras questões fiscais, que não vale a pena detalhar, mas que não são difíceis de adivinhar quais sejam – isenções de IMI e quejandos, pois se eu vivo no direito.

O problema vai resolver-se, depois de alguns taratatis e taratatás, algumas voltas e revoltas; mas tudo seria bem mais fácil se o tal “enter” inicial não tivesse aquele carácter teimoso e inflexível – coisa própria da natureza humana, mas que devia estar alheado dos sistemas informáticos, que nada têm de humano e nos deviam dever obediência. Tudo seria bem mais fácil se o homem que inventou a máquina a conseguisse convencer que ela está para nos servir e não ao contrário. A ordem natural das coisas não seria alterada e os escravos não seríamos nós…

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