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Viver um eterno presente – a propósito de uma recensão crítica de António Araújo

Vou dedicar-me aqui a um exercício “politicamente incorrectíssimo”, que é raro em Portugal. Criticar directamente a recensão de um livro, sem o fazer atrás das costas ou utilizando um meio típico – o silenciamento. Vem isto a propósito da recensão muito crítica publicada por António Araújo do livro, Os últimos Presos do Estado Novo, de Joana Pereira Bastos (Oficina do Livro, 2013). Não fazia tenção de eu própria fazer uma recensão crítica deste último livro, apesar dos erros factuais e de o considerar frágil no que se refere à investigação e com lacunas relativamente às fontes e à bibliografia, aliás como refere – e bem - António Araújo.

Devo esclarecer que já tive ocasião de escrever à autora, dizendo-lhe o que pensava da promoção do referido livro, numa notícia da Lusa, segundo a qual a própria dizia que em Portugal a Historiografia – e presume-se o jornalismo – não tinha até hoje dado importância à acção das oposições civis ao regime ditatorial (já agora, passe a publicidade, tenho no prelo precisamente um livro sobre esse tema, que aborda as oposições aos regimes ditatoriais – militar e civil – em Portugal, entre 1926 e 1945). Como eu escrevi à autora, existe uma vastíssima bibliografia historiográfica e jornalística sobre o tema, muitas obras de testemunhos da autoria das próprias pessoas que viveram os acontecimentos e antologias de testemunhos. Para só dar um exemplo, refiro a obra importantíssima do meu amigo, já desaparecido, Miguel Medina, Esboços, Antifascistas relatam as suas experiências nas prisões do fascismo (2 vols.,1999 e 2001), aliás referida por António Araújo. No entanto, acima de tudo, embora deixando claro que o livro de Joana Pereira Bastos, muito longe disso, não é o primeiro (nem o último, felizmente) sobre o tema, quero afirmar que considero a sua publicação muito bem-vinda. Que mil livros sobre o tema, e todos os outros, «floresçam», mesmo se passíveis de crítica! E outra coisa, ninguém é dono de um tema, que será sempre abordado e interpretado de forma diferente por cada um e à medida que o tempo passa. E ainda bem.

Ora vejo agora uma recensão crítica de António Araújo sobre o livro, com a qual em parte concordo, mas que me deixou verdadeiramente abismada por, de novo, ao referir bibliografia sobre o tema, não mencionar, entre muitos outros, o meu livro, História da Pide (2007) e o da minha colega Dalila Mateus, A PIDE/DGS na Guerra Colonial (2004), ambos com origem em duas teses de doutoramento. Claro que o autor da recensão poderá dizer que não mencionou o primeiro, porque o livro recenseado recorre ao ele. Mas o que eu achei verdadeiramente extraordinário é o recenseador citar os livros de Zita Seabra, Foi assim, e Tempos de Transição, coord. M. Braga da Cruz e Rui Ramos, para referir que houve um «agravamento na tortura no marcelismo».

Acha António Araújo que estes autores concluíram por eles, ou recorreram também eles a bibliografia, dado que não investigaram o tema? Para não falar do meu trabalho, onde de facto concluí isso, já agora convinha dizer que já muito antes esse facto tinha sido percepcionado: para só dar um exemplo, Mário Soares, di-lo no Portugal Amordaçado, livro escrito, como se sabe ainda em pleno “marcelismo”.  E já agora, gostaria de esclarecer que a tortura do sono em Portugal começou a ser praticada pela PIDE muito, muito antes de 1959. Quanto à influência da CIA, cujo Manual Kubark é de 1963, há que dizer que houve troca de experiências entre essa agência norte-americana e a PIDE, a partir de 1956/57, mas já antes disso a tortura do sono era utilizada sobre os presos políticos portugueses.

O grande problema em Portugal é que parece que estamos permanentemente a viver um eterno presente. Ou seja, pensamos sempre que antes de nós nada houve, nada aconteceu e que não houve nenhum trabalho e nenhuma investigação. Depois, é frequente, como é o caso em apreço, um procedimento selectivo dos que são citados em detrimento dos autores que se opta por silenciar, e por isso parecem deixar de existir. Penso que tudo isto é de facto um mau, péssimo «serviço prestado ao conhecimento da nossa História recente» e «o que, é mais grave, um mau serviço à própria memória das vítimas da ditadura» (António Araujo, «Ípsilon», Público, 7/6/2013, p. 29). Já agora, aproveito para publicitar mais um livro sobre o tema, recém editado - Joaquim Monteiro Matias, Memória da Tortura e da Resistência (Círculo de Leitores, Maio de 2013), ontem apresentado na Fundação Mário Soares.

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