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Da melancolia ao trabalho de luto. Leituras de Verão

 

 Melancholia, de Albrecht Dürer (British Museum)

 

Paul Ricoeur, La mémoire, l´histoire, l´oubli (Paris Éd. du Seuil, 2000)

Volto regular e sistematicamente a este livro do filósofo Paul Ricoeur, do qual traduzo aqui alguns excertos. Um grande autor é aquele que se lê sempre de forma diferente e onde se encontra sempre algo de novo, seja para a nossa própria história, seja para a História colectiva. E, na leitura deste livro, sobre a memória, a história e o esquecimento, de repente fiquei “agarrada” à parte em que o autor distingue a melancolia do trabalho de luto (pp. 87-111).

Melancolia, ou humor melancólico (bilis negra), no sistema da medicina grega antiga, tem como sintomas a depressão ou ansiedade (ou o medo). Melancolia é porém diferente do luto, embora por vezes o luto se possa inclinar para a melancolia. Enquanto na melancolia há uma diminuição do sentimento de si, uma desvalorização da auto-estima, no luto, não. No luto, o universo parece empobrecido e até vazio, enquanto na melancolia, é o próprio «eu» que fica desolado: cai sob os golpes da sua própria condenação, do seu próprio rebaixamento. Ora, as próprias queixas viradas contra si próprio não servirão ao invés para mascarar as queixas visando o objecto de amor?

Qual é então o trabalho fornecido pelo luto? Segundo Freud, «a prova da realidade mostrou que o objecto amado cessou de existir e toda a libido tem de renunciar à ligação que a prende a esse objecto». Lendo Freud, Paul Ricoeur diz que o que faz do luto um fenómeno normal, embora doloroso, é o facto de «uma vez terminado o trabalho do luto, o eu ficar de novo livre e desinibido». E por esse lado o trabalho de luto pode ser aproximado ao trabalho da memória. O trabalho do luto é o custo do trabalho da memória; mas a trabalho da memória é o benefício do trabalho de luto. O trabalho do luto aproxima-se da tristeza sublimada. Sublimação que transforma a complacência à tristeza em tristeza sublimada – em alegria. O desgosto é assim a tristeza que não fez o trabalho de luto. E a alegria é a recompensa da renúncia ao objecto perdido e o penhor da reconciliação com o seu objecto interiorizado. Assim como o trabalho de luto é o caminho obrigatório do trabalho da memória, a alegria pode também coroar o trabalho da memória, no horizonte do qual está a memória «feliz».

Individualmente, já todos nós nos confrontámos com essa situação, bem como com a melancolia e o luto. Saindo, porém, da nossa memória individual para a colectiva, para a situação actual da generalidade dos portugueses, neste período de crise, ocorre-me pensar que a passividade actual também poderá estar relacionada com uma situação de melancolia paralisante, de auto-desvalorização e falta de auto-estima em que todos, mais ou menos, nos deixámos cair. Paul Ricoeur mostra como as feridas do amor-próprio nacional se aparentam a um objecto de amor perdido. É certo que, para as fissuras do seu “amor-próprio”, os portugueses tiveram uma grande ajuda com o discurso único, vindo de cima, de que «vivemos acima das nossas posses» e que agora temos de pagar por isso (fosse essa narrativa deliberada ou não, embora eu me incline para a primeira hipótese).

Então, para sairmos disso, talvez fosse bom não continuarmos enredados na «melancolia» e fazermos um «trabalho de luto», que nos liberte, e que começa por um trabalho de memória do passado recente, mesmo que esta seja – e é-o – plural. E aqui entra a História, também com a sua pluralidade de interpretações. Enquanto a memória é o «reconhecimento» do traço vivido de um «real já passado», a História é o «conhecimento», que opera através da distância que permite ao investigador libertar-se do passado, através de duplo trabalho de recordação e de luto. A escrita histórica estabelece uma distância com o seu objecto de referência, mas, na medida em que é mais distante, mais impessoal na sua relação com o passado, pode ter um papel de equidade e temperar a exclusividade das memórias particulares, não servindo qualquer uma deles. Na realidade, como diz Goethe, «Escrever a história é um modo de nos livrarmos do passado». Eu acrescentaria…, de nos livrarmos de um passado (recente) infeliz, na medida em que, ao fazer o luto do passado, o trabalho da História preserva a memória e contribui para transformá-la numa memória pacificada e justa, uma memória feliz, condição de uma relação actuante com o presente e o futuro, bem como de solidariedade entre as gerações.

 

 

 

 

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