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jugular

Metáfora ao inferno de vida de milhares de anónimos que morrem à "sorte" de uma "CONSPIRAÇÃO" de misérias.

Manuseação da consciência da selva fechada. Paisagem desfigurante do corpo perdido. Tornozelos esfolados pelas silvas rasteiras. Núpcias de uma perdição anunciada. De novo os tornozelos. Riscas denunciadoras. Sangue seco, integração de partículas da pele na floresta cativeira. Troncos ríspidos, aglomerados, sufocantes. Não deixam espaço ao espaço breve necessário à expiração. Troncos velhos, altivos, observantes da velha perdida. Perdida neles. Gargalhada florestal. A natureza é um manto verde cuja densidade o tornou negro. O olhar do olho sobrevivente procura referências no céu. Floresta de copas dançantes. Dança programada dos ramos terminais. Esfregam-se uns nos outros. Roubam a possibilidade de céu. A velha corre. Arbustos comunicantes tosquiam-lhe os joelhos, feios de velhos, apodrecidos. Escorre sangue desde os joelhos até aos tornozelos. Linhas de sangue que ironizam a possibilidade de um mapa. Chuva torrencial. A velha abre a boca gretada. Os pingos evitam-na. Frio, vento, trovões, elementos sensoriais, co-autores da catástrofe que se abala sobre um só corpo. E de uma velha. Corre. Precisa da bomba para a asma. A humidade acelera essa urgência. Meteu-se em caminhos que não recebem visitas, antes as matam, devagar, devagarinho, até se apoderarem das pobres e desfigurá-las em humo e tirarem, triunfantes, vantagem da sua morte. Cai. Direita, esquerda, em frente, tudo para trás, na diagonal? - Interroga-se sobre o trilho da salvação, mas, caída na terra gelada, é por ela gelificada. O treçolho está ferido da geada e nasceu no olho sobrevivente. Come uma folha. Pensa que come, mas não o faz. A realidade e a ficção começam a unir-se no cérebro da velha que já deixou num ramo carnificina o lenço negro. Comer. À sua volta cogumelos. Não pode comer. São venéficos. A fome é mais uma guerra ganha pela floresta da sua perdição. Chora alto, grita com as poucas forças que os seus pulmões permitem. O assobio longínquo do vento é a resposta traidora, triunfante, terrífica. Goza com ela. - Grita velha, quase alimento, diz-lhe a concha infinita em que se esvai. Não desiste. Caminha. A roupa cola-se-lhe ao corpo com tanta força que as varizes escondidas são toda a sua imagem. As mamas roçam a cintura de avental, a corcunda perdeu a aldeia. - Desiste, velha - ouve-se. Não sabe quanto tempo passou desde que se vai despedaçando nas entranhas daquele abismo florestal. Horas, muitas, já pode ter a presciência sofredora que são já dias que tem que contar. Dias que anunciam o fim mais anónimo que se pode ter. Dias de fome, de usurpação, de ulceração. Os ácidos estomacais ajudam a tarefa da floresta inimiga e vêm fazendo o seu trabalho. Queimam a carne, as paredes dos órgãos da velha, da velhinha, que finalmente cai. Ali fica, sem forças, a ver formigas grandes comerem pedacinhos dos seus esfacelamentos inferiores. Quer abanar as pernas, mas não pode. É mais inerte do que a terra que a sepulta. Vê o princípio da sua qualidade de alimento. Dores brutais calam os trovões. Geme, chama por Deus, mas Deus está no Céu e dali não se vê o céu. O manto verde que seria belo numa fotografia aérea é um reino com donos ferozes e impiedosos. Ali não se entra. Geme, mais e mais. Há um bicho nocturno que trepa pela sua narina. Vai corroendo o interior do seu nariz peludo e faz uma estrada em direcção ao cérebro. A mulher carcomida tenta apanhá-lo com um dedo, mas repara então que eles já não têm pontas. O frio curandeiro de alguma das dores é também uma constrição. Comeu-lhe as pontas dos dedos. Que feias as mãos da velha, com dez calos anelares, vasos sanguíneos sobrepostos povoam o resto dos restos da mão do resto da velha. O bicho alcança o cérebro. A chuva corta-o por fora. Dores brutais, assassinas, assolam a inocente prenda da matéria orgânica. Vomita a sua própria ausência. Os ácidos do seu estômago esburacado. Queimam-lhe o céu da boca que sangra em direcção à garganta e que a sufocam. A floresta delira. Um outro delírio: feliz. Feliz com a sua presa. Chuva, vento, verrugas cortadas nos ramos caídos, cérebro cozinhado, mãos sem dedos, humidade sufocante, sangue preso nos brônquios, tornozelos comidos com vagar, assim morre a velha; assim a sepulta a floresta, ganhando mais alimento. Assim se ri a natureza.

Morre o resto da velha sem direcção.

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