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jugular

A tirania de um príncipe numa oligarquia não é tão perigosa para o bem público como a apatia dos cidadãos numa democracia*

Pelas razões que se tornarão aparentes ao longo do post, recupero um post que escrevi há ano e meio, adaptando-o ligeiramente à espuma dos dias.

 

No final do século V a.C., Atenas viveu uma profunda crise económica e política devido à longa guerra do Peloponeso. À rendição de Atenas, em Abril de 404, seguiu-se um golpe oligárquico apoiado por Esparta. A oligarquia que, com o apoio das tropas espartanas, fez cair a democracia ateniense ficou conhecida como a Tirania dos Trinta. Embora a democracia tenha sido formalmente restaurada pouco depois, em 403, o populismo retórico da aristrocracia fez crescer a insatisfação dos cidadãos com a crise económica. A aristocracia culpou a democracia pela crise vivida e exigiu um governo forte que permitisse o retorno à antiga glória e ao poder atenienses. Com a confiança no regime seriamente abalada, no início do século IV a.C. os cidadãos deixaram de participar na Res Publica o que levou a que fossem remunerados os que condescendessem a comparecer às sessões da Assembleia. A Assembleia tornou-se assim o ponto de confluência dos ociosos, dos demagogos e dos cidadãos que nela viam apenas uma forma de subsistência. Décadas de demissão da cidadania por parte dos atenienses e de retóricas ocas por parte de quem queria o poder pelo poder tiveram como consequência que, no final do século IV a.C., a tirania oligárquica vingasse.

 

Another religious right bites the dust

A campanha presidencial de 2008 teve um ênfase inédito no tema religião, tão inédito que Ralph Reed, o estratega do GOP que ajudou a construir a Christian Coalition na década de 90, afirmou que «Tem havido mais fermento religioso nestas eleições que em qualquer outra desde 1960 e não espero que isso termine agora». No entanto, como a eleição de Barack Obama mostrou,  Reed, o primeiro director-executivo da Coligação Cristã na altura e agora em travessia no deserto devido ao seu envolvimento no caso Abramoff, a teia de corrupção e extorsão que abalou os Estados Unidos em 2006, estava a ser vítima de «wishful thinking».

 

Alguns dos pré-candidatos republicanos a 2012, concretamente Mike Huckabee e Sarah Palin, parecem não entender que é contraproducente dirigir a campanha para a religião. No caso de Palin, esta não tem outro remédio porque os religious right são a sua base exclusiva de apoio mas nem os seus mais fervorosos apoiantes conseguem esquecer a total vacuidade e ignorância da senhora. Mike Huckabee quer-se reafirmar como «Christian leader» mas os acontecimentos recentes são exemplo do que acontece quando se baseia a actuação política em «valores» cristãos e não na razão/valores seculares.

 

Guerras culturais

 

Sean Hannity é um dos spin doctors da Faux News tão falada hoje em dia pela crítica que a sua violenta campanha contra Barack Obama mereceu de fontes governamentais. Todas as oportunidades de vitimizar os conservadores cristãos são aproveitadas avidamente pela estação e claro que a campanha da delegação de Nova Iorque da COR (Coligação para a Razão), que pretende mostrar aos habitantes da Grande Maçã que mais de um milhão dos seus amigos e vizinhos são pessoas de «bom carácter» sem deuses, não escapou às atenções. Assim, sem pingo de vergonha na cara, o piedoso Hannity tentou inflamar  a sua audiência para mais uma guerra cultural afirmando que um grupo cristão nunca poderia levar a cabo uma campanha destas:

Can you imagine the outrage if a Christian group put pro-God ads in the New York City subways? What outrage.

Na realidade, como explica o Subway Sights, há anos que o metro de Nova Iorque está inundado de anúncios de todos os flavours do cristianismo, cada um oferecendo o seu caminho, o da Bayer, para a salvação. Mas, claro, a verdade ou a simples constatação dos factos é algo completamente arredado da Faux News, em particular nos últimos tempos, tão entretidos que andam em outras guerras...

 

nyc

 

 

Da irracionalidade política e suas consequências

Há uns tempos escrevi um post na jugular que aborda o que se pensa ter sido a primeira guerra da propaganda, com os resultados, catastróficos, que podem ser apreciados em San Giminiano na Toscana. Esta forma de combate político medieval, assente na maledicência e destruição do trabalho do oponente, deu um contributo não despiciendo para que a cidade que era um dos mais florescentes centros italianos à época seja hoje uma pequena vila medieval com interesse apenas turístico.

 

Naquele que se pensa ser o primeiro cartaz de propaganda da História,  os apoiantes do papado romano acusavam os seus rivais seculares, os gibelinos, de promoverem o «pecado» considerado mais herético, «o agir contra natura, desarmonia, e falta de sentimento de comunidade». Por outras palavras, os guelfos, assentes na mitologia então dominante, lançavam um boato infundado sobre os seus oponentes políticos e acusavam-nos de fomentarem o colapso civilizacional.

 

Os últimos episódios da politiquice nacional, em que, à falta de ideias, se ululam, com estridência e grandes rasgos de vestes, acusações análogas - com o intuito de obnubilar a discussão e induzir enviesamento cognitivo no eleitorado -, fizeram-me recordar estes métodos de propaganda política. Em particular, fizeram-me recordar as consequências deste tipo de irresponsabilidade política.

 

Lançar suspeições totalmente infundadas em todas as direcções e esperar que pelo menos algumas peguem, não é debate político admissível no século XXI, muito menos na grave situação em que o país se encontra. Que ficará certamente certamente mais grave se continuarmos o que comentadores sortidos se devotaram ontem em todas as televisões: discussão de boatos e teorias da conspiração em vez de debate de ideias. Se não pretendermos pôr em causa o futuro do país, importa recentrar no que é realmente importante. E importa sobretudo recordar as lições da História e ter presentes as torres de San Giminiano...

 

em stereo no SIMpleX

Contingências: o efeito Sarah Palin

Um estudo das inúmeras sondagens realizadas no âmbito das eleições presidenciais norte-americanas indica que não foi a crise financeira, «guerras» culturais ou afins que propiciaram os resultados esmagadores de Barack Obama. A escolha de Sarah Palin como candidata a vice-presidente no ticket republicano tirou quaisquer hipóteses de vitória a McCain. De facto, a partir do momento em que as ...er... idiossincrasias (cognitivas, éticas e religiosas) da senhora começaram a ser conhecidas, as sondagens de McCain reflectiam quasi exclusivamente o grau (baixo) de aprovação de Palin pelo eleitorado. Numa altura em que se repetem os momentos Sarah Palin na política nacional, o artigo termina com uma lucubração auspiciosa (para mim, claro):

 

«Even so, bringing Sarah Palin to the foreground allows us to consider factors that attending only to fundamentals forces us to neglect: rhetoric, perceptions of candidates’ fitness for office, and the contingency of things

Distopias - os Babbitts nacionais

Num post magnifíco, a Irene reproduz alguns dos argumentos da «utopia dos valores» que me fazem votar PS nas próximas eleições e que tentarei elaborar em próximos posts. Foi por uma questão de valores, utópicos alguns certamente, que sempre votei à esquerda, mas num primeiro post importa recordar que nestas eleições se discutem igualmente valores distópicos, manifestos em «discursos pessimistas, raramente "flertando" com a esperança».

 

E como a distopia dá título ao post, nada melhor que invocar Sinclair Lewis, o primeiro escritor americano a ser galardoado com o Nobel da Literatura, que ficou conhecido pelas suas distopias intemporais que, paradoxalmente ou não, continuam a ser excelentes caricaturas das sociedades actuais. De facto, em vésperas de eleições, algumas das intervenções laranja recordam-me o Babbitt (1922) - uma sátira à cultura de «massas».  Ou antes, fazem-me pensar nos Babbits nacionais, figuras insípidas e convencionais, rodeada de outras figuras insípidas e convencionais, que vivem em negação, perdidos entre dois mundos e não aceitando que o mundo que gostariam de impor aos outros está morto para sempre.

 

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