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jugular

um lugar para se sentar

Ficou-me gravada na memória, a afirmação. É, talvez, a única, mas merece: questionado acerca do lugar relativo que ocuparia na Assembleia da República - ou seja, onde se posicionaria no espectro partidário -, caso fosse eleito deputado nas eleições de 2005, Manuel Monteiro, então líder do novo Nova Democracia, deu uma resposta magnífica: "sento-me onde houver lugar". Na altura foi motivo de chacota, como sinal de uma destilação apurada por parte de um personagem escorraçado do CDS por Paulo Portas e em busca de protagonismo a todo o custo, sem ideias consistentes para além de um euroceticismo indefinido e demagógico. Não foi eleito, o Nova Democracia definhou e o putativo deputado não chegou a aquecer nenhuma cadeira do hemiciclo. É o que acontece a partidos construídos em torno de uma figura de proa, sem projeto político nem base de apoio e que medram à sombra de uma visibilidade volátil. Perdido o momento X, esboroam-se rapidamente e as traças que esvoaçavam em torno daquela luz efémera partem em busca de novos focos.

Existe um novo Manuel Monteiro por aí. A sua luz é, contudo, muito mais fulgurante: foi bastionário da Ordem dos Advogados, ganhou uma enorme popularidade à conta de uma presença regular nos púlpitos mediáticos, popularidade essa extorquida à custa de uma demagogia sem limites, frases bombásticas e postura iconoclasta e histriónica, contra a "classe política", os partidos e a corrupção. Receita fácil e de efeito garantido, como se sabe. Só assim é que um seu émulo chamado Paulo Morais obtém a visibilidade que se lhe conhece. Tal como Manuel Monteiro, também foi eleito eurodeputado, mas ao contrário deste, disse logo que ia sair de Estrasburgo (mas não saiu) e, logo que pôde, desembaraçou-se do partido que o colocou lá. É o que fazem os parasitas, na natureza. Em Portugal, é um líder em ascensão. Entretanto, fundou - coisa inesperada, não? - o seu próprio par(t)ido.

António Marinho e Pinto. O seu partido chama-se Partido Democrático e Republicano. Este "seu" não é mera composição gramatical. É mesmo dele. Basta ir à página (e cuidado com outra, muito semelhante e terminada em simply-webspace.com.pt, que contém um vírus; não estou a brincar). Vídeos de Marinho e Pinto, fotos de Marinho e Pinto, declarações de Marinho e Pinto. Alguns "fundadores" adicionais, todos séniores, todos devidamente assinalados como "doutor" ou "professor" mas sem informação biográfica ou política ou textos. Um deserto de ideias e de documentos políticos além de uma "declaração de princípios" e, inevitável, uma "PDR/TV" com intervenções do chefe. O PDR é o seu reino vazio.

A imprensa de ontem anunciava o que parecia mais do que certo: "Marinho e Pinto é hoje eleito líder do PDR". Não foi. Na mais transparente tradição democrática, e perante o surgimento inesperado de uma segunda lista que, segundo o mesmo, era formado por "hordas da Igreja Maná", "todos brasileiros", mandou pura e simplesmente encerrar a loja. Assim mesmo, o presidente não eleito de um partido suspendeu a Assembleia Geral destinada, precisamente, à eleição dos seus dirigentes e mandou toda a gente para casa. Não há nada mais democrático. Quem não acreditar, que leia os pormenores edificantes. Já todos vemos novela no horizonte, a superar a do Juntos Podemos. Marinho e Pinto não é Manuel Monteiro. É muito pior. O "sento-me onde houver lugar" não passa de um mero deslize de linguagem perante o "o PDR fará coligações até com o Diabo se for útil ao país". Por "país" entenda-se ele próprio, Marinho e Pinto.

Ah! E não me venham com comparações com o LIVRE/Tempo de Avançar. Uma plataforma que congrega um partido já constituído com setores políticos afins e que reúne propostas e pessoas em torno de um projeto, com informação, debate, programa, partilha, eleições primárias e democracia participativa inédita em Portugal só por evidente ignorância ou má-fé pode ser comparada a um arraial sem banda nem orquestra, sem música nem participação, apenas o ego insuflado de um Generalísimo. Ainda não perdi a esperança que os eleitores lhe recusem o lugar que pretende ocupar na Assembleia da República. E cuja localização, adiante-se, ser-lhe-ia, como a de Monteiro, completamente indiferente.

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