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jugular

for sale

Um dos aspetos mais interessantes das reações aos sucessivos anúncios (diários) de Trump é a forma como se tenta racionalizar, por vezes mesmo, digamos, "intelectualizar" tudo aquilo. Os comentadores das nossas televisões fazem-no com alguma frequência, afirmando que se trata de uma estratégia deliberada "de choque", quase de bluff, com o objetivo de maximizar o efeito de surpresa e de ganhar espaço negocial para os passos futuros. Alguns assinalaram, em tom de quase triunfo ("estão a ver?"), o "recuo" de T. na imposição das taxas alfandegárias ao México e ao Canadá. Cheguei mesmo a ouvir alguma acomodação, a roçar a satisfação, de que o estilo de T. até poderia ser benéfico por permitir um "abanão", por exemplo, no impasse na guerra na Ucrânia.

Eu compreendo este tipo de raciocínio mas discordo dele. Aliás, parece-me perigoso. Compreendo porque é uma forma de criar alguma racionalidade no meio de tanta desorientação. Já em 2016 aconteceu o mesmo, quando se vulgarizou alguma normalidade no meio do choque e da surpresa. Não era possível o que o homem ameaçava, era retórica, campanha, fogo de vista, certamente que acabaria por "entrar nos eixos", tudo isto misturado com chacota e riso. O riso é uma boa forma de espantar os medos. Eu também me recordo de inúmeros episódios ridículos, de T. e de Bolsonaro, à hora de jantar nos dias do confinamento, dos disparates, da ignorância e da alarvidade. Infelizmente, o riso não mata e quando, finalmente, acordámos do pesadelo em novembro de 2020, enquanto saíamos lentamente da pandemia, veio o 6 de janeiro, e percebemos que aquilo era mesmo a sério. 

Em novembro passado não acreditámos neste regresso. E o que se passa agora quebra todos os limites do que julgámos possível. Porém, avisos não faltaram, e o "Projeto 2025" estava lá para quem o quisesse ler. Dou os meus parabéns a quem, em nome dos palestinianos, zurziu em Biden e considerou que não havia diferença substancial entre T. e Kamala Harris. Devem estar eufóricos com o que aí vem. E quem acha que T. está a "fazer frente" a Putin e a obrigá-lo a negociar também demonstra uma perspicácia a toda a prova.

Anteontem prestei atenção às declarações de T. acerca de Gaza (já posteriores à piadinha da Riviera): que quer comprar o território, que os EUA vão controlá-lo, que as pessoas que lá vivem estariam mais confortáveis noutro lugar, que o Egito e a Jordânia iriam colaborar. Tudo uma questão de "dinheiro". Entretanto já vieram mais palavras - é um corropio diário - sobre o "desencadear o inferno" se o Hamas não libertar os reféns, mas foram aquelas que me fizeram perceber o óbvio. Tão óbvio que quase assusta. Está ali tudo. T. não tem estratégia oculta nenhuma, nem plano de Relações Públicas de "choque". É mesmo o que parece, um misto de força bruta e de dinheiro, de ameaça e de negócio. Tudo se compra, a bem ou a mal. A apologia da ignorância arrogante. T. nunca leu História, não imagina o que seja a complexidade do Médio Oriente ou, sequer, o enorme imbróglio da Palestina  e de Israel. Tudo se reduz a um raciocínio simples, infantil e primário, de dinheiro e força. Tratados, Direito Internacional, diplomacia, são complicações "liberais", quiçá woke. Só há bons e maus, como nos westerns e tal como pensam os seus apoiantes. Nós e os outros. Deus e Satã. Há quem considere isto um "plano revolucionário", "frontalidade" ou, como também li há dias por cá, "sinceridade esmagadora". Eu prefiro chamar-lhe o triunfo da estupidez.

The times they are a-changin’

Quando este blogue definhou, há uns 5 anos, o mundo não era muito diferente de quando nasceu, uma década antes. Já não tínhamos Obama, Sócrates ou Cavaco, mas sim Costa e Marcelo. Tivemos a Síria e uma crise migratória, sim. E já havia Trump, é um facto, desde aquela manhã de novembro de 2016 em que acordei, incrédulo, com a rádio a anunciar que Hillary tinha perdido a eleição. Alguma coisa estava a mudar, e para pior. Depois, e durante 4 anos, oscilámos entre a repulsa e a chacota, mas a aberração parecia ter acabado em 2020, e concluímos que tudo não passara de um episódio de insanidade temporária coincidente com uma pandemia inédita. Anos surreais, encerrados com vacinas e um grand finale a 6 de janeiro do ano seguinte.

Afinal, não. The times they are a-changin’ e o mundo mudou muito desde 2008, ano do início do Jugular. Se por aqui alguém então escrevesse que em 2025 um partido de extrema-direita, xenófobo e populista, teria 50 deputados na Assembleia da República, que a Rússia estaria a invadir a Ucrânia e que o presidente norte-americano proporia evacuar os palestinianos de Gaza, ocupar militarmente o território e transformá-lo numa Riviera, quem acreditaria?

Hoje, as autocracias progridem em todo o mundo. Os EUA elogiam adversários e ameaçam aliados. A extrema-direita ganha terreno em toda a Europa e não tardará a chegar ao poder na Alemanha e em França. Uma nova ordem mundial está em marcha. O fascismo vem aí mas parece-nos um chavão gasto e delirante. O homem mais rico do mundo procede ao assalto das entidades federais nos EUA e nós achamos que é um fait-divers. Trump quer a Gronelândia, o Canadá e o Panamá e nós rimo-nos da piada. O mundo está cada vez mais próximo, mas a inundação tóxica de dados misturados com informação falsa e pura mentira causa-nos confusão e desnorte, depois habituação e, por fim, indiferença e torpor. A aceleração do tempo provoca-nos vertigens. Não é possível viver em permanente sobressalto de indignação, todos nós temos uma vida para gerir e resolver. Preferimos, afinal, celebrar os 40 anos de Ronaldo ou os êxitos da seleção de andebol, porque são sinais de uma sanidade que não queremos perder.

The times they are a-changin’. Pela primeira vez, preferíamos que não. Já pressentimos que, se está a ser mau, o que virá aí vai ser pior. Em 1964, Bob Dylan lançou a canção como um aviso e um lembrete a quem não se apercebia que o mundo estava a mudar rapidamente. Seis décadas depois, o alerta continua a fazer sentido, mas agora em sentido contrário: em vez da adaptação à mudança, hoje é preciso inventar formas de conter a mudança, de modo consciente e ativo. We better start swimmin’ or we’ll sink like a stone.

E porque the times they are a-changin’, é também tempo de ressuscitar este blogue.

Uma paella Magalhânica

Estamos em plena temporada de comemorações da viagem de Fernão de Magalhães. O arranque ocorreu no passado dia 20, assinalando 500 anos da partida da armada que haveria de realizar a primeira circum-navegação do mundo. Na véspera, estreou nos cinemas portugueses “Elcano & Magallanes” (por cá chamado de “Uma Aventura nos Mares”), uma animação espanhola sobre a viagem, na qual Magalhães é gordo, bonacheirão e coxo e Elcano o jovem herói destemido por quem a princesa “indígena” se apaixona. O vilão é, naturalmente, o embaixador português. No dia seguinte, o Canal História passou os dois primeiros episódios de “A Primeira Volta ao Mundo”, uma série documental igualmente espanhola aguardada com alguma expectativa e que mereceu destaque na imprensa portuguesa.

Começo por dizer duas coisas: não tenho nada contra “produtos” e abordagens heterodoxas que escapam ao cânone erudito e académico na evocação destes eventos, porque sei que é preciso cativar o interesse do público leigo, e não defendo que Portugal deva gastar milhões em estratégias idênticas para defender o “nosso” Magalhães e mostrar a “nossa” versão do tema. Em poucas palavras, prefiro uma boa série espanhola a uma má série portuguesa; porque o que define a qualidade não é o polimento que o meu ego patriótico recebe mas sim a capacidade de conciliar o rigor histórico com as exigências da divulgação. “A Primeira Volta ao Mundo” presta um mau serviço, fundamentalmente, porque é incapaz dessa conciliação, subjugando aquele a esta última.

A série parte das duas premissas habituais da agenda espanhola: colocar em relevo a forma excecional, vanguardista e visionária como Carlos I e a sua corte acolheram e financiaram o projeto de Magalhães e destacar a figura e o papel de Sebastián Elcano em todo o processo. Para esse efeito, lança mão de um formato arrojado, traçando paralelos com a realidade dos nossos dias e misturando depoimentos atuais com os dos protagonistas da saga. Porém, o resultado é desastroso e confuso.

O primeiro episódio chama-se “uma startup no século XVI”, na qual o rei é “Presidente da Empresa”, Magalhães, “Diretor Geral”, Juan de Cartagena, “Diretor Comercial e Diretor Financeiro” e Elcano, “Diretor de Operações”, entre outros personagens. Tudo como deve ser (e foi, segundo a série) uma verdadeira startup de sucesso. Presumo que o cenário estaria completo se a Web Summit ocorresse em Sevilha em vez de Lisboa. Já o segundo episódio chama-se “Uma Nave Espacial de Madeira” e traça a estafada – além de ridícula e incongruente – comparação simplista e acrítica entre a viagem e a exploração espacial. Naus e caravelas são “as naves espaciais da época”, o arco que vai do Cabo de S. Vicente ao Guadalquivir é o “cosmódromo da modernidade”, o Cabo Canaveral ou o Baikonur daquela época. Um dos intervenientes chega mesmo a comparar a viagem com a ida a Marte.

Nada disto seria muito grave se fosse apenas uma questão de formato e do uso de palavras-choque. Afinal, é preciso seduzir o público e qualquer divulgador da História está consciente da importância de fazer passar a mensagem. Contudo, no seu afã de cativar os espetadores, o guião perde-se em afirmações bombásticas, como afirmar-se que o domínio do comércio das especiarias correspondia, na época, a “controlar o mundo da energia, do petróleo, das redes cibernéticas” de hoje. Há igualmente sérios erros e omissões. Três exemplos: 1. o motim que deflagrou em San Julián (na Patagónia) e que quase comprometeu a expedição é cuidadosamente omitido. Quem foi, na realidade, um dos principais revoltosos? Juan de Cartagena, o tal “Diretor Comercial e Diretor Financeiro” da pseudo-startup; quem aderiu ao motim? Dezenas de tripulantes, entre os quais… Sebastián Elcano, o “Diretor de Operações” da mesma e que a série eleva à categoria de herói impoluto da viagem. 2. A demanda das Molucas é apresentada como uma mera corrida entre Portugal e Espanha, na qual esta foi célere a “captar talentos” (seguindo a linguagem de startup) e a preparar uma expedição devidamente capacitada e financiada. É omitido o facto de os portugueses já lá estarem estabelecidos, de, à data da viagem, disporem de uma sólida – e invejada – base de apoio regional (Malaca) e de já terem procedido ao reconhecimento do mundo malaio-indonésio e das suas rotas e potencialidades, além de já terem alcançado a China, meia dúzia de anos antes. Em vez disso, afirma-se que a localização das Molucas era um “segredo que só Magalhães conhecia”. 3. A certa altura, a narrativa insere a navegação astronómica e a chegada ao hemisfério sul, com a consequente perda de visibilidade da Estrela Polar. De entre as várias omissões, nada é dito acerca do facto de o uso do astrolábio – havia vários exemplares na expedição - colmatar esta lacuna. Em vez disso, e de forma a realçar o contraste cromático, fala-se de “terra plana”, de monstros marinhos e de superstições.

Não há historiadores portugueses na série. Esta lacuna não é irrelevante porque os convidados parecem não estar habilitados a transmitir conhecimentos atualizados sobre a situação de Portugal e da Ásia. Sugere-se que o cravo-da-índia chegava à Europa pela Rota da Seda, exibindo-se um mapa assinalando uma ligação terrestre entre a China e a Ásia Menor; na realidade, o cravo passava por Malaca, daí para a Índia e Mar Vermelho, sempre por via marítima, e chegava à Europa via Cairo e Veneza. Afirma-se que as ilhas eram apenas “conhecidas pelos nativos” e que eram frequentadas por mercadores chineses. Na verdade, a China não importava cravo; o principal mercado consumidor era a Índia e os mercadores que o lá iam buscar eram guzerates, malaios, javaneses. Por fim, para que servia o cravo (e outras especiarias)?, pergunta-se. A resposta, repetida em vários depoimentos, é a que se tratava de um conservante, que se usava para disfarçar o mau sabor e a decomposição da carne, que “era como ter um frigorífico” e que “permitia que os alimentos estivessem disponíveis no inverno” “para controle da fome”. Além de errada (apesar de se tratar de uma ideia muito difundida), convenhamos que seria muito pouco racional conservar a carne com algo tão caro, havendo sal e vinagre à disposição em abundância na Europa.

O rol de erros e incorreções prossegue: afirma-se que Magalhães dirigir-se a Carlos I era algo “inimaginável à época” (o que é inexato), diz-se que a principal característica das caravelas era terem “um leme mais baixo e mais robusto” (sem referência à vela triangular e à capacidade de bolinar), declara-se que a documentação sobre navegação era escrita em “castelhano antigo” (ao contrário de outra, em latim) para dificultar a compreensão pelos rivais portugueses, que Magalhães se ofendeu com D. Manuel porque este não o deixou ficar no palácio onde estava e onde os navegantes costumavam ficar, que o tratado de Tordesilhas concedeu “o que se conhecia para Portugal; para Castela, o desconhecido, o vazio”, sem contexto nem explicação. Há uma afirmação particularmente perturbante, proferida por José Manuel Nuñez de la Fuente: a de que os portugueses adquiriram conhecimentos náuticos (especificamente o astrolábio e o quadrante) por contacto com os chineses, nomeadamente via expedições de Zheng He. Concluo que as teses de Gavin Menzies, apesar de completamente desacreditadas pela comunidade científica, continuam a proliferar e a ser difundidas pelas vozes mais insuspeitas. Por fim, dois pormenores: um retrato de Carlos V é repetidamente atribuído a Rui Faleiro e a tradução é deficiente, entre “quintáis”, “descorbridores”, “atuáis”, “factoria”, “marino”, “Canarias” ou “bahia”.

Até ao momento, “A Primeira Volta ao Mundo” revela um enorme contraste entre intenções e resultados, agravado pela pressão da agenda oficial espanhola e por um guião confuso, falta de coordenação científica adequada e deficiências no cuidado narrativo e no rigor factual. Afirma fornecer uma ementa dinâmica e diversificada de conhecimento interessante, atraente e atual, mas não passa de uma paella salobra e pretensiosa, nutricionalmente pobre e com sabor confuso e disfarçado por doses excessivas de açafrão, que apenas lhe concedem aroma intrigante e cor exótica.

(No ípsilon de anteontem)

Stan Lee e as esquinas da memória

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A memória é uma coisa estranha. Stan Lee morreu anteontem e eu, como tanta gente, apressei-me a anunciar e a lamentar o facto no Facebook, como todos fazemos de forma mais  ou menos rotineira. Todos os dias há notícias idênticas, todos os dias desaparecem pessoas cuja perda lamentamos. Mas depois fiquei a pensar de onde me vinha o especial pesar. Ainda demorei algum tempo, estava visível, mas muito bem arrumado nos arquivos da minha memória; digamos que catalogado algures numa esquina. Stan Lee era, para mim, o Homem-Aranha, mas o fascínio era enraizado, remoto e muito anterior aos filmes e ao Marvel craze recente.

Começou assim. Estávamos em 1978. Não havia internet e a banda desenhada, sobretudo os comics norte-americanos, era coisa mais ou menos menosprezada, só apreciada por jovens e crianças e alguns fanáticos. Super heróis da Marvel? Em Portugal, nada, só bem mais tarde. Havia - descobri depois - uma revistas brasileiras da Bloch, de regularidade muito incerta, que circulavam sobretudo nas casas e quiosques de livros usados. Eu tinha 11 anos e o Diário Popular, que o meu pai comprava religiosamente todos os dias, começou a publicar as histórias do Homem-Aranha, em tiras diárias. Ao sábado, eram três, e a cores. Grande bónus. Inicialmente não liguei, mas a partir de certa altura despertou o meu interesse e comecei a ler. Num momento obscuro, penso que já em 1979, decidi começar a recortar e a coleccionar as tiras. Recuperar as antigas, desde o início, foi uma tarefa árdua. O meu tio tinha uma oficina de bate-chapas e eu ia lá com alguma regularidade. Grande emoção: nessa altura, os jornais eram o material usado na pintura dos automóveis e descobri que ali havia, sobretudo, Diários Populares. Muitos, e à mão. Não sei se terá servido para burilar a minha nascente veia de historiador, mas passei ali muitas horas a catar e a salvar preciosas tiras do uso e da irreversível destruição. As mais raras era as do "Dr. Destino", as primeiras; já as do "Dr. Octopus" eram mais banais e cheguei a ter repetidas. Umas a preto e branco, outras a cores, as de sábado, as mais cobiçadas.

Colecionei as tiras recortadas do Homem-Aranha durante muito tempo. Guardei-as religiosamente, devidamente ordenadas, durante outro tanto. Redescobri-as ontem, depois de procurar, na memória e no sótão, a sua localização. É um belo molho de dezenas de tiras, talvez centenas. "Stan Lee + John Romita", lê-se em todas elas. Só mais tarde soube que o primeiro era o criador dos mais importantes super-heróis da Marvel e o segundo, um dos desenhadores. Nem sequer fora o primeiro. Esse chamava-se Steve Ditko, mas o desenhos eram toscos. Li muitas histórias da Marvel, mas o Homem-Aranha sempre foi o meu favorito. Este. O do John Romita. Nunca consegui ler a versão original (e completa, porque me faltam tiras) que foi publicada no Diário Popular. Nunca soube se havia muita ou pouca gente a ler, e se outros putos, como eu, liam, recortavam e colecionavam. E se arrumaram tudo algures, na memória e numa cave ou numa gaveta. A certa altura, a publicação acabou e foi substituída pela Guerra das Estrelas. Que sabe se algum dia terei disponibilidade para digitalizar tudo e colocar online, talvez num blog de tralhas de baú. O melhor de se terem passado 40 anos é isto: a memória é minha, mas posso partilhá-la com o mundo. Stan Lee morreu e esta é uma gota no oceano das suas memórias.

os piparotes

Lembro-me da PàF. Era uma coligação de dois partidos que concorreu às eleições de 2015, que ficou em primeiro e chegou a formar governo. Infelizmente, não teve apoio parlamentar para se aguentar mais que uns dias. Azar da democracia, o ser preciso uma maioria parlamentar a sustentar um governo, ficou o lembrete de, num futuro próximo, o país prescindir de tal pormenor desagradável e inconveniente. Foi-se o poder mas ficou - pensamos todos - a força. A força da PàF, paf, paf, um murro bem assente na irresponsabilidade, no populismo "de esquerda", no facilitismo, nos aprendizes de feiticeiro, no regabofe. A força da responsabilidade governativa, da prudência, do alinhamento com as realidades no mundo atual - leia-se Troika, Comissão Europeia, agências de notação - , do respeito pelos "mercados". Esses novatos, esses bandalhos, esses tolos que iam brincar aos governos e deitar fora quatro anos de reconstituição do respeito internacional e da credibilidade financeira iriam ser vigiados de perto pelo punho cerrado e implacável da razão, da sensatez e da reputação PSD-CDS. Não demoraria muito e não seria muito difícil. Afinal, um PS tosco e inexperiente, refém dos bloquistas e do Jerónimo, cativo das promessas fáceis e eleitoralistas de restabelecer pensões e salários, não tardaria a espalhar-se ao comprido. Uma geringonça. Cá estaríamos todos para dar o nosso soco, à vez, em grupo ou em salmo, naquele espetáculo constrangedor de um primeiro-ministro de sorriso permanente e um ministro das finanças meio tonto. Rimo-nos quando este falou na Assembleia da República, coitado, que tristeza, como foi possível o país ter trocado a dignidade da Maria Luís por este pateta? Punhos aquecidos, ia ser uma festa.

Porém, não se sabe bem porquê, as coisas começaram a correr mal. Estamos há dois anos à espera do grande desastre, o apocalipse já foi anunciado várias vezes mas tarda. Não há estatísticas, uma que seja, que ajude. Emprego, dívida, défice, índice de confiança, investimento, taxa de juro, resgate da dívida, exportações. País surreal este, onde tudo funciona ao contrário. A nossa legião de comentadores, jornalistas, opinadores, especialistas e exímios boxeurs faz o que pode a treinar os punhos, mas é uma frustração nunca passar dos ensaios. Sorte de principiante? Pacto com o Demo? Conspiração internacional? Mesmo tudo junto, não é possível. Agora, o Eurogrupo acaba de escolher o tonto. Assim vai o desconcerto do mundo. Tenhamos fé e esperança, porém, que é da adversidade que se forja a força imparável. De PàF pronta e iminente, acabaremos por derrubar o monstro. De piparote em piparote, muitos, infinitos piparotes.

Pedagogia

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Comcept – Comunidade Céptica Portuguesa [Diana Barbosa, João Lourenço Monteiro, Leonor Abrantes e Marco Filipe], Não se deixe enganar – Guia de sobrevivência no mundo moderno. Lisboa, Contraponto, 2017, ISBN 978-989-666-148-9, pref. de Carlos Fiolhais e David Marçal.

 

Pedagogia é uma palavra, infelizmente, cada vez mais mal-amada e olhada com crescente sobranceria nestes tempos em que todos sabem tudo e largam sentenças (em português, “acham”) sobre qualquer coisa. E é uma pena. Ensinar quem não sabe e aprender com quem conhece são duas orientações que deviam nortear a nossa existência neste mundo. Aprender, aprender sempre. Pois eu digo que aprendi muito a ler este livro, e recomendo vivamente (para não dizer ferozmente) a todos que façam o mesmo. Já o fiz, aliás, e mais do que uma vez, quando deparo com determinadas conversas sobre transgénicos ou acerca dos malefícios dos micro-ondas. É um verdadeiro manual de iniciação científica sobre dúvidas correntes que nos invadem o quotidiano, os murais, as notícias e os fóruns. Um verdadeiro guia sobre crendices, mitos, desinformação, temores e terrores da era global, que busca – e alcança plenamente – um único objetivo: informar o que diz a ciência acerca de cada um deles.

O principal mérito desta primeira obra do Comcept é o de conseguir esclarecer evitando juízos de valor ou considerações morais ou religiosas. A homeopatia é uma burla? Não, apenas não tem qualquer fundamento científico (independentemente das intenções de quem a pratica ou recomenda); o mesmo para tantas ideias-feitas, mitos generalizados, práticas “curativas” (alternativas ou não) e alarmes. Vacinas, pulseiras magnéticas, chemtrails, organismos geneticamente modificados, acupunctura, suplementos alimentares, radiações wi-fi, que diz a ciência acerca de tudo isto? Há riscos? Como surgiram e como se propagaram os temores? É tudo falso, vigarice, superstição, engano? Não. Apenas existe – ou não – fundamento científico. Ponto final.

O segundo mérito do livro é o de colocar os pontos nos ii no que é ciência e no que é pseudociência. O que as distingue? Como se reconhece esta última? Que argumentos utiliza? Como se “camufla” e propaga? Que canais privilegia? No final, um pequeno curso de “introdução ao conhecimento científico” e informações preciosas acerca da validade, utilidade e rigor da ciência, os passos que dá, os riscos que corre, os problemas que enfrenta.

O terceiro mérito deste Não se Deixe Enganar é conseguir ir muito além do jargão-científico-para-cientistas, explicando conceitos, dando exemplos e fazendo analogias, conseguindo obter um discurso consistente, fluido e claro, mesmo para leigos (como é o meu caso). Pessoalmente, foi gratificante constatar a forma como sai dos campos tradicionalmente tomados por “científicos” e se aventura nos meandros da História – tantas vezes olhada, como as ciências sociais e as chamadas humanidades, com desdém paternalista tanto por gurus como por aprendizes da ciência - e nos exemplos de “pseudo-história”, como o das pirâmides submersas dos Açores, do yogi de Beja (pp. 138-139) ou da “teoria dos Astronautas Antigos” (pp. 156-159); a história do “Prof. Wilhelm Selhus” e do seu método de “veracidade” (p. 160) é magnífica.

Pelo meio, escrita atraente, clara, concisa, bem-humorada e, sim, divertida. Muito. E interessante, também. O leitor tropeça a toda a hora com pormenores relevantes, enquadramento adequado, informação útil. Por exemplo, eu cá desconhecia a forma como a medicina tradicional chinesa fez a sua aparição no Ocidente e foi promovida por Mao como arma política (pp. 108-109, 117-118). Ignorava igualmente qual a origem da chalaça do “monóxido de di-hidrogénio” (p. 55) ou a história do dr. Ignaz Semmelweis (p. 102).

Agora que estou perto de esgotar os elogios, passo às críticas. Só mais este: rigor de informação, referências em nota de rodapé e em bibliografia final, cuidado em apresentar o quadro mundial e a especificidade nacional. Estas informações são especialmente úteis, entre outras situações, pela evocação da legislação portuguesa sobre medicinas alternativas ou sobre o uso de suplementos alimentares.

Agora é que é. A primeira crítica é muito simples: não gosto da capa e detesto o título. Compreendo as razões que explicam ambos, mas isso não me convence a gostar. Pronto. Segunda: o esquema geral podia ser mais claro e ordenado, porque o que existe presta-se a alguma confusão e sobreposição, sobretudo quando se anda à procura do assunto X e já não sabemos onde está. Talvez um índice final resolvesse o problema. Terceira: há uma insistência em certos temas (movimento antivacinas, medicinas alternativas) e uma predominância da Química; não é grave, mas percebe-se o peso desigual que, por vezes, desequilibra. Por exemplo, quando se fala nas origens da medicina moderna, talvez fosse útil gastar mais uns parágrafos a explicar desenvolvimentos paralelos (a “teoria dos miasmas”, por exemplo). Quarta: há ajustes a fazer em termos de fusão dos conteúdos, porque detetam-se as arestas resultantes do facto de ter sido escrito por várias mãos; exemplo: a saga de Andrew Wakefield (o vígaro que aldrabou o estudo sobre os efeitos da vacina tríplice no autismo, com consequências trágicas) é reportada por duas vezes, nas pp. 68 e 149; um remissivo seria mais útil. Quinta: apesar do louvável esforço em incorporar a História no discurso do texto, há limalhas a aparar; exemplo significativo é o da história do yogi de Beja (p. 139). Para comprovar ou refutar a história, o primeiro passo a dar não é o das “análises de ADN e radioisótopos” sugeridas; isso são passos largos, a dar quando e se se justificar (tanto mais que não devem ser – acho eu – baratas). Em História, começa-se por coisas mais básicas. Fontes e enquadramento histórico que atestassem, sugerissem ou tornassem plausível tal eventualidade são o ponto-chave da questão. Sexta: aconselharia alguns ajustes e maior atenção prestada aos casos reportados, nomeadamente em Portugal. Exemplos: complementar a parte sobre OGM com o caso ocorrido em Portugal há uns 10 anos, com a destruição de um campo de milho transgénico; atualizar e incluir os recentes produtos para a coluna vertebral e dores reumáticas baseados em ímanes, que inundam o espaço televisivo português; também gostaria, confesso, de ver chamados os bois pelos nomes: Calcitrin, Cogumelo do Tempo e outras banhas da cobra afins. Ainda, dois pormenores formais: Francisco Barbarroxa não era “imperador romano do século XII” (p. 160), mas sim imperador do Sacro Império Romano-Germânico (ou seja, autoproclamado herdeiro ocidental do outro) e a expressão correta, em português, para by default não é “por defeito” (p. 200) mas sim “por omissão”, apesar da banalização da tradução literal. No final, há uma sensação de “saber a pouco”, mas trata-se certamente de uma impressão pessoal. Há questões que sempre me intrigaram e que gostaria de ver abordadas com maior pormenor. Exemplo: a permeabilidade às banhas da cobra (seja o calcitrin, seja a astrologia) é transversal, não depende de grau académico ou de estrato socioprofissional; um político sabe que os seus votos não dependem da posição dos astros, mas pode recorrer à homeopatia; um médico sabe qual a eficácia das vacinas mas pode viver condicionado pelas informações acerca do ascendente do seu signo.

Carl Sagan é mencionado mais do que uma vez. Eu recordo-o também, tanto na série Cosmos como, principalmente, num depoimento que proferiu acerca das teorias “dos Astronautas Antigos” que viam pistas de aterragem (extraterrestres) nas célebres Linhas de Nazca. Disse ele: “atravessam a galáxia, percorrem anos-luz pelo espaço sideral, e ao chegar à Terra, que vemos, Hurricanes? Spitfires? É inacreditável que “eles” precisassem de pistas de aterragem”. Vi isto quando era adolescente e nunca me esqueci, uma lição básica de ciência em duas frases. E desde então percebi que a divulgação do conhecimento científico é um fator essencial para a a erradicação da ignorância. Este trabalho da Diana, do João, da Leonor e do Marco, que deveria ser presença obrigatória em casas e escolas e um best-seller em vez de tanta trampa que se vê por aí, é um excelente contributo para esta causa.

Transparências, olhares e cartões da História

Na mais célebre telenovela brasileira exibida em Portugal, figurava um personagem singular, o dr. Argileu Palmeira, cuja marca distintiva era a declaração pronta e inevitável, quando interagia com alguém, de um “já lhe dei o meu cartão?”. No dito podia ler-se, entre outros méritos, um impressivo “autor de seis livros consagrados pela crítica”. Lembrei-me do dr. Argileu Palmeira ao ler as crónicas que João Pedro Marques (JPM) publicou desde abril passado. A mais recente é uma alegada réplica ao que escrevi no Público dois dias antes. Diz, entre outras coisas, que lhe “dediquei um texto crítico” e que é minha intenção “arrancar a conversa do campo da História e arrastá-la para o campo desprotegido da memória”. São ambas incorretas: contestei JPM num parágrafo porque é a voz que mais tem insistido num certo argumentário e não “arranquei” nem “arrastei” “conversa” nenhuma; o máximo que posso ter feito é tê-la criado, porque até esse momento, tanto quanto percebi, não passava de um monólogo. Confirmei, sim, que, ao fim de seis crónicas mais ou menos redundantes, JPM continua atolado a lançar dúvidas sobre a credibilidade dos que dele discordam e a escorar as suas posições na aspersão repetida do mesmo repelente para afastar esses mosquitos incómodos: os livros que escreveu, os artigos que publicou na imprensa, o tempo que dedicou ao estudo e, recentemente, os milhares de leitores que terão lido o seu romance histórico. Sim, JPM já nos deu o seu cartão.

A História é, certamente, a mais singular das ciências sociais (ou humanidades, se se preferir). Mais do que por qualquer outro traço ímpar – e vários se lhe podem apontar, a começar pela contradição entre a sua aparente inutilidade prática e a sua permanente evocação – esta singularidade decorre do facto de se debruçar sobre um objeto ausente. A História estuda o passado, e o passado desapareceu. Já não existe. Não pode ser recriado, repetido, ensaiado ou testado. A História não passa de uma aproximação imperfeita e lacunar, de um conhecimento construído a partir do que resta desse passado. Há muito que se perceberam as limitações desses restos – as fontes históricas – e desde o século passado que se debatem as condicionantes de quem os interpreta e estuda, ou seja, os historiadores. Numa palavra, não só não há fontes “transparentes” como também não existem historiadores “isentos”, porque a cada um corresponde um determinado olhar, uma certa perspetiva, um dado discurso. É por isso que o conhecimento histórico evolui cumulativamente e que a História de hoje difere da que se fazia no tempo de Alexandre Herculano ou de Fustel de Coulanges.

A estas limitações e “filtros” que moldam a nossa visão da História juntam-se as idiossincrasias da memória coletiva, as imagens identitárias que cada povo constrói do seu próprio passado e do passado alheio. As apreciações de JPM sobre História, memória e verdade, isolando-as em compartimentos estanques, não passam de simplificações grosseiras. Um historiador deve ter – se não tem, é grave - consciência das limitações do seu olhar sobre o passado, porque este não escapa à lente deformadora das preocupações e tensões do seu próprio tempo. Isto não tem nada a ver com “isenção” ou com “coisa séria”, com “comícios” ou com “demagogia barata” que, segundo JPM, separam a História da memória. Dizer que a História “serve para dizer aos cidadãos o que é verdade e o que é mentira” é cair na falácia de pensar – ou de tentar fazer crer – que o passado é um tubo de ensaio de vidro transparente ao historiador, que revela o seu conteúdo “a quem quiser saber”. A História não tem sentinelas nem guardiões, apenas observadores críticos.

JPM talvez não aceite as minhas posições – uma vez que, segundo o seu juízo, serei mais adepto de comícios, não sou um especialista nesta área nem no século XIX, nunca escrevi sobre este assunto e desagrada-me chamar a História para debates sobre factos do passado – mas talvez Jacques Le Goff e o seu Memória e História possua um patamar de autoridade que eu inegavelmente não atinjo. E, de caminho, quem sabe se a leitura de Marc Ferro e do seu Comment on raconte l’Histoire aux enfants (traduzido com o péssimo título de Falsificações da História, quando o correto seria “Como é contada a História às crianças”) dê algumas pistas sobre os mecanismos de truncagem da memória coletiva e a cristalização e replicação dos preconceitos identitários. Em particular, talvez ajude a responder à pergunta do “para que serve o debate” que proponho – eu e outros – sobre passado colonial e memória coletiva. Apenas servirá para “substituir uma mitologia por outra”, como diz JPM? Creio firmemente no inverso, ou seja, que servirá para revisitar todo o rol de ideias-feitas e estereótipos sobre a nossa história colonial/ultramarina, conhecer as ligações adormecidas entre o passado e o presente e compreender melhor a nossa relação complexa – de ontem e de hoje – com africanos, asiáticos e americanos. Algo que, diga-se, só peca por tardio.

(no Público de sábado passado)

Torres de marfim e poeira amnésica

Quem visita o Museu da História do Povo Judaico, em Tel Aviv, depara com uma parede onde consta uma única palavra, em alto-relevo: “Remember”. Nem sempre a História é encarada desta forma, ou seja, de que não envolve apenas o passado mas também o olhar que lançamos sobre esse passado e a memória que dele perdura. De facto, e tal como a individual, também a memória coletiva é construída a partir da retenção seletiva e acumulada de imagens e perceções, de narrativas e elaborações teóricas, emocionais ou afetivas organizadas num determinado sentido. Cada país, cada povo possui os seus mitos fundadores, os seus heróis e avatares, as suas referências identitárias. E, também, os seus fantasmas e vazios. Portugal, como é evidente, não é exceção.

Porém, a relação dos portugueses com o seu passado não é fácil, sobretudo com o seu passado ultramarino ou, se preferirmos, colonial. É uma memória inquieta, insegura e ambivalente, que deambula entre uma mitificada “idade de ouro” de grandezas passadas, um traumático fim do império, uma euforia europeísta e um desencanto com o presente. O traço dominante desta relação é um véu diáfano de poeira amnésica que cobre vazios e sombras, sedimentado por uma tradição enraizada de autoelogio ideológico em torno de um pioneirismo civilizador nos “Descobrimentos”. Os portugueses nunca fizeram o balanço do império, muito menos o luto e a catarse do seu fim abrupto.

Ocasionalmente, este torpor sofre abalos. O mais recente ocorreu há meses, no rescaldo das declarações de Marcelo Rebelo de Sousa em Gorée que refletem os estereótipos dessa amnésia: a evocação de um alegado “pioneirismo” – mais um – de Portugal na abolição da escravatura, como reflexo da sua “vocação humanista”. A reação às suas palavras traduziu-se, fundamentalmente, num apelo a um debate aberto - e livre das velhas retóricas - sobre a nossa memória coletiva do período colonial e, em particular, do tráfico de escravos. Esta intenção foi de imediato contestada na imprensa e nas redes sociais, com várias justificações: 1. que se trata de um passado remoto e de um assunto resolvido; 2. que não há qualquer justificação ou utilidade em remexer e reavivar esta questão; 3. que quem o faz é movido pela ignorância ou por uma agenda ideológica; 4. que se trata de uma questão de História e, portanto, deve ser deixada aos especialistas.

O historiador João Pedro Marques (JPM) tem sido a voz mais persistente na defesa destes argumentos. Além de redundantes – não é por repetir uma mesma ideia que ela ganha validade – as posições de JPM são particularmente frágeis, ironicamente, onde o autor as julga mais sólidas: na História. JPM é um reputado historiador, algo a que o próprio não se esquiva de repetidamente relembrar e que eu, naturalmente, confirmo. Muito haveria e há a dizer sobre os dados históricos e o quadro explicativo que apresenta nos seus textos. Mas JPM falha, precisamente, por se limitar à História e “blindar” o seu raciocínio com a sua própria autoridade como historiador. Logo que sai da História, resvala para a apreciação grosseira, nomeadamente com um traçado caricatural e estereotipado de quem insiste na pertinência deste debate: “flagelantes que têm uma névoa política e ideológica no olhar”, “ingénuos bem-intencionados”, “académicos engagés” ou “jornalistas de causas” com “reivindicações (…) ideologicamente engatilhadas”, todo um submundo intelectual acima do qual JPM julga planar, isento e seguro com o peso do seu mérito académico.

Na minha opinião, trata-se de um erro e de um equívoco. Na realidade, o debate que urge fazer não é no plano académico ou histórico, mas sim no da opinião pública e da memória coletiva; não é no da discussão do passado, mas da nossa perceção dele, hoje; não envolve o esgrimir de argumentos entre historiadores – algo que já foi e continua a ser feito -, mas o despertar do interesse geral para o tema. Que tema? Este: que a memória dos portugueses enquanto povo permanece truncada no que diz respeito ao nosso passado colonial, ofuscada por “descobrimentos”, feitos, heróis, pioneirismo, brandos costumes e excecionalismo no que toca à relação com outros povos; e que essa memória truncada tolda o nosso entendimento do presente e impede-nos de debater com clareza e sensatez – primeiro passo para enfrentar de modo aberto e descomplexado – velhas questões enraizadas, como a existência de problemas raciais em Portugal. As reações aos recentes eventos na Cova da Moura ou às declarações de um candidato autárquico mostram que temos ainda um longo caminho a percorrer neste sentido. Esse caminho só será possível de trilhar por via de um debate alargado, onde os historiadores e o mundo académico desempenhem um papel fundamental mas não exclusivo, precisamente porque a restrição destes assuntos à esfera académica e às suas “torres de marfim” permanece há muito tempo – demasiado tempo – um hábito e uma prática em Portugal.

(publicado no Público de ontem)

chronicas da Terra Sancta -3

trump.jpg

Saiba V. S. q estou ha duas semannas en esta terra de iudeos & infieis e q. nam me foy possiuel sayr e seguir en uisita a cidade sancta onde preguou e morreo N.S. porq. me foy dito q. nam he bõa occasiam nē momento pera laa yr aguora por seer tempo en q. os judeos estam en granndes festeios celebrãdo a sua tomada da terra ē q. a filharã aos mouros da terra e q. nom he tempo pacifiquo pera laa yr. E tambē q. la esta agora hũ poderozo Rey estrangeyro cõ q. tem grandes cuydados en seruiço de uigia e cautella e cerran tudo e nam sey se hē aquelle de q. todos fazen suas chacotas per conta de seus cabellos desuayrados ē cõor de laranjas e tonteryas q. diz q. parece bobo e nam sey se he esse ou nam mas nam m parece que tal couza possa seer. Deyxo aqui hũ debuxo pello natural do q. uy nũa parede nam sey o q. signifiqua porq. nam sey leer estas leetras mas pareceome pouco respeitozo e desaguisado poys assi uay o desuaryo do mundo e diguame V.S. se he ou nam he o q. signefiqua.

Não podēdo yr fuy entam uisitar esta cidade na parte mays antigua della q he muy fermosa o porto mays q. outras he este foy de turquos antes ser de christãos mormēte dos ingrezes hereges q. senhorearam tudo por aquy antes dos hebreos o fazeren. He estyue tambē no ceentro nũa praça cõ muyta horden e asseio como conuen e laa tem hũ logar õnde matarom hũ chefe destes iudeos ha huns uynte annos e tudo esta assinelado no chãao honde caiu elle he estauam seus guardas he o homē que ho matou cõ hũ tiro q. era judeo como elle porq. nam querya pazes nē treguas cõ os mouros da terra e chamauase Isac Rabino segũndo laa vy o chefe q. o outro nam sey.

Nesta terra ha grãnde myngua de agoa seguũdo me disseron mas tall nam parece poys a gastam ēn grande cantidade e desperdicyo tãto en iardins pera rega de reluados cõmo em repuxos nas praças q. nam entendo q. entēdimento de orden hee este. E tudo he caro como ja disse a V.S. e a unica couza q. comprey q. o nam foy he hum corta unhas q foy barato he nam entendo a rezom quiça (nom alcanço ouutro entendimēto q. sou homē pratico he nam letrado) que seia taluez que Deos N.S. faça crecer en esta jente endemoninhada grãdes unhacas en seos dedos e mui asinha em jeyto de garras cõmo os do mafarrico pera lembrallos de suas damnações q os aguardan e q assy elles ajam mister de cortalas amiude e per quall rezom sam estes estromētos comũns e baratos. De resto he gente como nos e andam em as ruas como os de Portuguall tanto moços e moças e os de prouecta ydade sēmpre cõ suas uentas e narizes preguados no chão e os olhos ora mirando os piquenos aparelhos ora fallando cõ elles sē olharē pessõa algũa na cara. E os q. guiam as carroagēns grandes en q andey san barbaros como os de Portugal creo q he syna ou malldiçam ou pragua cõ q. naceram aquy como laa e os q. guiam bicicretas tambē o sam igualmēnte andam sem cuydado nē ciuilydade he os outros apitam muyto na rua e quasi ha toda hora posto que nam tamto como na Yndia.

Loguo darey mais noticias a V.S quãndo puder he tyuer inspiraçam posto q. nam me enfado por ēnquãnto irey en breue a terra dos Cruzados S. Joam de Acre que foy a deradeyra q teuerom os Christãaos he q se perdeo en o anno de 1291 pera os Mamelucos.

Desta cydade de Thelauiv, 23 de mayo anno dezessete,

de seu fyel seruidor,

PP

amnésia colonial

Há anos, existia um blogue cujo lema era "aqui não se diz mal de Portugal". A recente discussão pública sobre a abolição do tráfico de escravos, desencadeada pelas declarações do Presidente da República no Senegal, corre o risco de resvalar para a tentação de reduzir tudo ao dizer bem ou dizer mal de Portugal, mais especificamente, do passado ultramarino português. É um risco. Mas é importante que se faça, ainda assim, porque a nossa memória coletiva dos contactos com o mundo extraeuropeu permanece um terreno de silêncios, omissões e amnésias, minado por conotações ideológicas e perceções enviesadas das realidades históricas.

Disse "ultramarino"? Bum! Já pisei a primeira mina. As próprias palavras, termos e conceitos utilizados para definir e caracterizar a nossa história colonial queimam dedos e escaldam neurónios. Escrevi "colonial"? Bum! Lá foi outra. As fogueiras em que ardem são de teor diverso, acopladas geralmente - e de forma grosseira - à "direita" ou à "esquerda" e que têm em comum a projeção das preocupações e tensões do presente no passado do império português. Disse "império"? Ai!

O debate sobre o tráfico de escravos e, de um modo geral, sobre a história da expansão portuguesa já foi feito e continua a fazer-se, mas limitado aos círculos estreitos e pouco porosos da academia. Não é esse que é urgente; é outro, o que envolve a opinião pública. E porque é que é importante? Porque nunca foi feito. A principal razão decorre da ausência de uma tradição de divulgação histórica entre nós, com origem no divórcio entre o mundo académico e o público leigo. Isto tem permitido a proliferação de informação deficiente, parcial e simplista, quando não simplesmente errada, que se traduz em evocações mais ou menos confortáveis e comodistas de figuras ou eventos, um disfarce para uma relação traumática, difícil e amnésica com o passado.

As palavras de Marcelo não contêm apenas erros, não são apenas declarações desajeitadas e diplomaticamente inconvenientes. Já seriam razoavelmente graves se proferidas por cá; ditas ali, aproximam-se perigosamente do insulto, quando o tema do tráfico de escravos permanece uma ferida mal sarada no quadro identitário dos povos africanos e um foco de desconforto no relacionamento com os ex-colonizadores. Ninguém esperava - nem tal parece sensato - lamentos ou pedidos de desculpa. Mas um mínimo de respeito obrigava ao reconhecimento de um passado lesivo e doloroso, em vez de um discurso apologético sobre alegados méritos próprios. As suas palavras, curiosamente, são a expressão e a confluência da amnésia nacional sobre o passado além-fronteiras, que oculta os odores desagradáveis dos seus esconsos com um humanismo precoce e uma suavidade cosmopolita típicos da especificidade portuguesa. Espera-se que o debate que desencadeou seja extenso, aberto e frutífero. Sobre a escravatura, sim, mas não só, porque esta não é mais do que a ponta de um enorme icebergue da memória coletiva sobre o nosso passado colonial.

Historiador

(publicado no DN de anteontem)

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